Mostrando postagens com marcador Minha resposta. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Minha resposta. Mostrar todas as postagens

A eleição incondicional torna Deus mentiroso?

Nas disputas teológicas, muitas vezes a vítima é o texto bíblico, que é espremido e usado para dizer o que não diz e oferecer pretextos a conclusões que lhe são totalmente alheias. É o caso do artigo intitulado "Na Doutrina da eleição Incondicional Seria Deus Verdadeiro?", em que João 3.31-33 é usado na tentativa de provar que se a eleição incondicional é verdadeira, Deus não é.

O artigo em si poderia ser melhor escrito, menos confuso e com uma correção dos erros de português (gramática e concordância), embora se proponha a uma análise do grego da passagem. E como não poderia faltar em artigos desse nível, os espantalhos do calvinismo estão presentes. Por exemplo, no calvinismo "a oferta do evangelho não é universal, Deus não deseja que os ouvintes (todos) sejam salvos, a pregação do evangelho não é para todos os perdidos e não existe boa vontade em Deus". Dessa forma, seria esperar demais que a doutrina da eleição incondicional fosse corretamente explicada, antes de ser combatida.

O texto bíblico em questão diz o seguinte:

“Quem vem das alturas certamente está acima de todos; quem vem da terra é terreno e fala da terra; quem veio do céu está acima de todos e testifica o que tem visto e ouvido; contudo, ninguém aceita o seu testemunho. Quem, todavia, lhe aceita o testemunho, por sua vez, certifica que Deus é verdadeiro.” (João 3.31–33)

As citações no artigo são das NVI, Jerusalém, NTLH, além do Textus Receptus, o que não vem ao caso, pois a tradução correta do texto não está em dúvida e a variante textual no versículo 32 é irrelevante para a discussão. O versículo que o autor analisa para levar à sua conclusão é o 33: "Quem, todavia, lhe aceita o testemunho, por sua vez, certifica que Deus é verdadeiro".

É de se perguntar, de imediato, o que essa passagem ou esse texto tem a ver com a condicionalidade da eleição. Aparentemente, o autor já esperava por esse estranhamento, uma vez que reconhece que trata-se de uma luz "muito pouca percebível (sic) tanto por calvinistas, como por Arminianos". Talvez não se tenha percebido porque, nesse sentido, nada havia ali para perceber.

Depois de citar várias passagens que declaram que Deus é verdadeiro (Dt 32.4; Sl 31.5; 146.6; Is 65.16; Jr 10.10; Jo 7.28; Jo 8.26; Jo 17.3; Rm 3.4), o autor declara "o que me chamou a atenção é que se Deus é verdadeiro e creio que Ele o é, e o texto diz que Aquele que o aceita confirma que Deus é verdadeiro, comparando essa verdade com a doutrina da eleição incondicional, percebemos. (sic) Que essa doutrina com a afirmativa desse texto, é incompatível, e os motivos apresentaremos na sequência". A esperança aqui é que a falta de clareza na formulação da tese fosse compensada com uma apresentação clara dos motivos que levaram o autor à associação da eleição incondicional com a veracidade de Deus.

Mas a continuação da leitura frustra o leitor. Os motivos que ele então apresenta é que aquele que crê em Cristo e em seu testemunho confirma que Deus é verdadeiro e aquele que não crê, infama Deus como mentiroso. Não deve haver discordância quanto a isso. Mas dessa conclusão ele extrai outra: "portanto, diante dessa verdade, a mensagem Calvinista de uma dupla predestinação não pode ser verdadeira, uma vez que Deus já fez a sua escolha tanto para a salvação como para a perdição, e esse texto não trata com a possibilidade restritiva, o texto é aplicável a todas as pessoas e cada um dos indivíduos e não classes de pessoas". Ora, um eleito que aceita o testemunho de Cristo declara que Deus é verdadeiro, não importa se foi eleito incondicionalmente ou pela fé prevista. Não temos, até aqui, nenhum dos motivos prometidos.

Prosseguindo, e após fazer um intercurso por Jo 3:16, ele acrescenta que "a eleição incondicional a luz de João 3.31-33, se torna fraca e perde forças (sic) a medida que logicamente entendemos que uma vez que Deus já fez a sua escolha incondicionalmente, seria inútil o texto dizer que Aquele que o aceita confirma que Deus é verdadeiro". O lógica do autor parece que é que se Deus escolheu uma pessoa na eternidade, sem considerar nada antevisto nela, tal pessoa não poderá dar testemunho de que Deus é verdadeiro. Mas, por que não? Não há impossibilidade lógica, na verdade há uma certeza de fato, que aquele que foi eleito na eternidade (e de novo, não importa se condicional ou incondicionalmente) irá aceitar o testemunho de Cristo.

Ele termina dizendo que "a conclusão que chegamos é que na doutrina da eleição incondicional, Deus não seria verdadeiro; pelas seguintes razões", que seriam "Jesus quando foi levantado na cruz, o fez para atrair a todos, ou seja, morreu para obter a salvação para todos e cada um dos homens, e aplicar os benefícios da sua morte somente aos que creem", que "Deus de fato amou a humanidade inteira enviando seu filho para morrer por eles" e finalmente "como pode Deus ser bom, amável e justo na perspectiva calvinista?". Nenhuma dessas razões, e algumas nem razões são, implica que a eleição incondicional torna Deus mentiroso. Há um imenso salto lógico entre "Deus escolhe incondicionalmente" e "Deus é mentiroso", que não é preenchido com "quem aceita o testemunho, certifica que Deus é verdadeiro".

Lamentavelmente, motivado pela sua antipatia ao calvinismo, o que é compreensível, o autor maltratou o texto e escreveu um artigo ruim, o que não é desculpável. E o fato do mesmo ter sido publicado sob auspícios da Editora Reflexão não contribui em nada para ela se firmar como uma editora que se propõe a promover a teologia arminiana.

Soli Deo Glória

Por que não devo me tornar um calvinista?

Um artigo publicado pelo irmão Everton Edvaldo procura apresentar as razões pelas quais uma pessoa não deve se tornar calvinista. Depois de reconhecer que “o interesse pelo calvinismo tem crescido bastante”, causando um “aumento do número de adeptos inclusive por irmãos de igrejas pentecostais”, ele lista os motivos para se rejeitar “os cinco pontos da soteriologia reformada”. São eles:

1. Ele alega que o calvinismo não é uma doutrina bíblica. Mas ele começa esse ponto negando que “esteja afirmando que não haja nada no calvinismo que não seja bíblico” e dá como exemplo a doutrina bíblica da depravação total. Poucas linhas antes, porém, ele citou a depravação total como um dos pontos característicos da soteriologia reformada! Ele também diz que na defesa dos seus cinco pontos o calvinismo utiliza-se de “muitas passagens”, tanto no Antigo como no Novo Testamento. Em seguida ele se propõe demonstrar eleição incondicional como exemplo de falta de apoio bíblico. Ele admite que os calvinistas usam tanto passagens do Antigo como do Novo Testamento para apoiá-la. Ele diz que a maioria dos textos do Antigo Testamento que tratam de eleição não se refere a eleição para a salvação. Mas reconhece que “no Novo Testamento eles não encontram muita dificuldade para sustentar sua visão da eleição”.

Em resumo, ele admite que pelo menos num ponto os calvinistas são totalmente bíblicos e que para os outros contam com várias passagens bíblicas para apoiá-los, inclusive diz que na eleição incondicional não tem muita dificuldade em sustenta-la, ao contrário dos arminianos que precisam fazer uma exegese e interpretação de cada uma das muitas passagens. Agora, voltemos o argumento contra a posição dele. Que ele nos apresente uma lista de passagens bíblicas que declarem de forma expressa ou das quais se possa extrair, com boa exegese, a doutrina do livre-arbítrio, da graça preveniente, da fé como condição prevista para a eleição e da distinção entre salvo-eleito, precedida de uma clara definição de cada termo e então poderemos pesar o valor de seu motivo para rejeitar o calvinismo.

2. Ele afirma que o calvinismo não é conhecido pelos pais da igreja. A premissa do autor é que quanto mais antigo for um teólogo, mais pura é sua doutrina. Ledo engano. Apelar aos pais apostólicos, os mais antigos dos pais, é dar um tiro no pé. Quem de fato os leu percebe que distorceram a soteriologia paulina. Eu li, mas para que não fique somente a opinião de um calvinista, os arminianos Roger Olson e Justo González, para ficar apenas com dois deles, chegam a essa mesma conclusão.

Reconheço que os pais apostólicos e os pais apologistas não tomaram conhecimento do calvinismo. O mesmo ocorre em relação ao arminianismo. É anacrônico afirmar o contrário. Mas nada impede que os arminianos venham a endossar a soteriologia dos pais apostólicos, se ficam à vontade com desvios doutrinários. Que disputem com os católicos a posse dos pais apostólicos como precursores de sua teologia. Estamos bem servidos com Agostinho, a quem nenhum dos que o precederam faz sombra.

3. Ele acusa o calvinismo de ser historicamente propagador de intolerância. A acusação começa com Calvino, tendo como prova uma única citação de uma obra no mínimo questionável. E logo passa a acusar “os seus discípulos”, colocando Gomarus e Spurgeon no mesmo banco de réus. E fecha o caso com a “incontestável” prova de sua experiência, pela qual, afirma que de “cada dez calvinista que conheço, seis ou sete são intolerantes”. Abro mão de apresentar uma defesa das pessoas citadas, pois isso é irrelevante. O que o jovem afirma é que calvinismo leva à intolerância. Então, argumentos ad hominen à parte, quais das cinco doutrinas tem como implicação a intolerância? Se o autor afirma que o calvinismo propaga intolerância, então que apresente a lógica pela qual as doutrinas da graça produz intolerantes e, em contraposição, mostre como os pontos distintivos do arminismo contribuem para formar crentes mais tolerantes.

4. Ele informa que o calvinismo não é a única alternativa teológica para a mecânica da salvação. E isto e um fato. Aliás, sequer o cristianismo é a única alternativa. Há outros sistemas, cristãos e não cristãos, que se propõem a explicar como o homem pode ser salvo. Porém, os sistemas não podem estar todos certos, na verdade, a maioria deles descamba no inferno. O arminianismo é um sistema aceitável, ainda que falho. O calvinismo não é apenas uma alternativa, mas é a que reflete com mais fidelidade o evangelho de Jesus Cristo. Mesmo assim, ninguém precisa ser ou declarar-se calvinista. Basta que leia e creia no que a Bíblia diz. Esse é o conselho que tenho dado por vários anos.

Na sua conclusão, o autor diz que ninguém se torna calvinista lendo a Bíblia. A base de sua afirmação? Sua “longa e inquestionável” experiência. Eu conheço alguém creu na depravação total, na chamada eficaz, na segurança da salvação lendo apenas a Bíblia. E quando leu uma lição da escola dominical que explicava a doutrina da eleição, foi conferir na Bíblia e descobriu a eleição soberana. Isso antes de ter ouvido a palavra calvinismo, que aliás, quando ouviu foi de forma negativa e pensou que nunca seriam um.

Mas sim, há razões para você não ser um calvinista. A primeira delas é que terá que defender doutrinas desagradáveis aos ouvidos da maioria das pessoas. Um Deus que decide quem será salvo, que detém o controle de todas as coisas e que faz Sua vontade contra a vontade dos homens e que ainda assim pedirá contas de todas as suas criaturas não é algo que soe bem aos ouvidos delicados dos homens. A segunda delas é que você terá que mudar a visão otimista que tem das pessoas, a começar por você mesmo. Deverá reconhecer sua total incapacidade e absoluta dependência de Deus para cada detalhe de sua vida. A terceira, decorrente das primeiras, é que você nunca mais poderá se orgulhar de suas conquistas e vitórias, pois a glória por todas as suas realizações, grandes e pequenas, públicas ou particulares, deverá ser dada unicamente a Deus, além de ter que receber de bom grado todo mal que lhe ocorrer como vindo de Deus. Mas há uma única razão para que você seja um calvinista (embora jamais precise se denominar assim): o amor pela verdade.

Soli Deo Gloria

O cessacionismo pode ser provado biblicamente? - Uma resposta a Peter Master, Parte 3

3. As línguas eram idiomas reais

Master afirma que a terceira prova da cessação dos dons é “o dom de línguas reais foi dado no dia de Pentecostes (e por um tempo depois), o que nunca foi visto desde então” e que “deveria ser óbvio para nós que as línguas milagrosas dos livros de Atos e 1 Coríntios nunca ocorreram desde aqueles dias”. Enquanto que nos “tempos do Novo Testamento, quando o falar em línguas foi concedido pelo Espírito a capacidade de falar em uma linguagem real, que eles nunca haviam aprendido, levava as pessoas que haviam crescido com eles a ficarem admiradas” o dom de línguas moderno é “um linguajar desconexo”. E sentencia: “nada como isso tem sido visto desde os tempos bíblicos”, pois “ao descrever línguas literais, a Bíblia nos adverte de forma eficaz que esses dons foram retirados. Eles simplesmente não têm acontecido em qualquer momento da história, em qualquer lugar do mundo, desde os primeiros dias da igreja”.

a) Em resposta, pode-se dizer que a natureza do dom de línguas nada tem a ver com a validade atual. O dom poderia ser uma linguagem espiritual e ter cessado, como poderia ser um idioma humano e permanecer até a volta do Senhor. A única justificativa válida para que o dom de línguas tivesse cessado devido a sua natureza é que ele se tratasse de um idioma específico que não existisse mais nos dias hoje. Não é o que o autor defende.

b) Porém, as evidências bíblicas apontam para o fato de que o dom de línguas era mais que meros idiomas humanos. Os termos relacionados com língua e linguagem vem das palavras gregas γλωσσα (glōssa), διαλεκτω (dialektos) e ἑτερόγλωσσος (heteroglossos). A primeira delas ocorre 50 vezes no Novo Testamento, em 17 delas refere-se ao órgão da fala, 7 vezes em referência à etnia e uma vez metaforicamente a “línguas de fogo” (At 2:3). Dialektos ocorre seis vezes no Novo Testamento (At 1:19; 2:6,8; 21:40; 22:2; 26:14) e sempre se refere à “língua ou a linguagem própria de cada povo” e nunca é utilizado em referência ao fenômeno do falar em línguas. Heteroglossos ocorre apenas em 1Co 14:21 e significa “alguém que fala em uma língua estrangeira”. Assim, o termo γλωσσα é praticamente um termo técnico para o dom de falar em línguas, enquanto que o falar idiomas humanos é jamais é referido com o uso desse termo.

Além disso, se assumirmos que dons de língua eram idiomas humanos, algumas passagens ficam no mínimo estranhas.

“E a outro a operação de maravilhas; e a outro a profecia; e a outro o dom de discernir os espíritos; e a outro a variedade de línguas; e a outro a interpretação das línguas” (1Co 12:10).

Há dois dons associados, o falar em línguas e o interpretar essas línguas. Se o falar em línguas fosse mero idioma humano utilizado para pregar o evangelho a estrangeiros, porque seria necessário a presença de intérpretes? Pois o evangelista com o dom de línguas já falaria no idioma de seu ouvinte, tornando supérfluo o dom de interpretação. Contudo, Paulo diz que se alguém fala em línguas, ninguém o entende:

“Porque o que fala em língua desconhecida não fala aos homens, senão a Deus; porque ninguém o entende, e em espírito fala mistérios” (1Co 14:2).

Numa cidade cosmopolita como Corinto, era de se esperar que alguns entenderiam o que o que tinha o dom estava falando, mas o apóstolo diz que só Deus o entenderia e que em espírito pronunciava mistérios. Por isso, o dom de interpretação era sempre exigido:

“E, se alguém falar em língua desconhecida, faça-se isso por dois, ou quando muito três, e por sua vez, e haja intérprete. Mas, se não houver intérprete, esteja calado na igreja, e fale consigo mesmo, e com Deus” (1Co 14:27,28).

Além disso, Paulo orienta os que tinham o dom da seguinte forma:

“Por isso, o que fala em língua desconhecida, ore para que a possa interpretar” (1Co 14:13).

O que não faria nenhum sentido se línguas fosse mero idioma humano. Imagine, um judeu falando para um auditório, digamos, persa. Se ele, exercitando o dom de línguas, falasse persa, porque precisaria do dom de interpretar? Para traduzir para o aramaico novamente? O dom de línguas em conjunção com o dom de interpretação só faz sentido se o primeiro não se referir a idiomas humanos.

c) Ainda, o autor apela para o testemunho da história quando propõe provar biblicamente que o dom de línguas cessou por se tratar de idiomas humanos. Ele assume, equivocadamente, que o dom de línguas bíblico eram línguas dos povos do Novo Testamento e alega saber que esse dom “não têm acontecido em qualquer momento da história, em qualquer lugar do mundo, desde os primeiros dias da igreja”. Mas o fato é que ele não é onisciente para poder fazer tal afirmação. E contra ela bastaria um único testemunho de alguém que falou num idioma ou foi entendido de forma sobrenatural em qualquer lugar ou época. Não é nosso propósito argumentar com base na história, mas facilmente se encontraria um testemunho dessa natureza e o autor não teria como desmenti-lo.

Soli Deo Gloria


Continua...


Leandro Quadros e o falar em línguas - de novo

Chegou-me ao conhecimento uma resposta dada pelo Leandro Quadros no programa Na Mira da Verdade sobre o dom de línguas. Tendo meus meus comentários sistematicamente bloqueados no blog do programa, mesmo tendo Leandro e sua equipe me garantido que os mesmos seriam liberados (e repetido a mentira desde 2010), desisti de analisar o que ele diz. Porém, ouvir o simpático Tito dizer "eu queria deixar aqui aberto o espaço para que você manifestasse a sua opinião... acesse o nosso blog... se você quiser contestar alguma coisa que nós falamos aqui, estamos de portas abertas e teremos o maior prazer em atender ao seu questionamento", me animei a uma resposta, mesmo já tendo abordado o assunto no artigo Leandro Quadros e o dom de línguas

Na resposta do Leandro é claro que não poderia faltar uma descrição bizarra do dom de línguas. Admitindo acreditar que o dom de línguas na Bíblia era uma capacidade sobrenatural (34:50), ele porém o descreve como "pessoas que se jogam no chão e até espumam pela boca" (36:20). E cita passagens com exemplos de pessoas possuídas por demônios. É claro que o dom de línguas não tem nada a ver com pessoas caindo no chão e espumando pela boca. Isso não merece resposta.

E seguindo o costume de selecionar passagens pela conveniência, o professor escolheu uma única passagem para fundamentar sua resposta, muito embora o seu assistente Tito tivesse lembrado que há passagens que parecem falar "de línguas estranhas" (sic) e até "língua de anjos". O texto lido pelo professor foi o seguinte:

"Ora, estavam habitando em Jerusalém judeus, homens piedosos, vindos de todas as nações debaixo do céu. Quando, pois, se fez ouvir aquela voz, afluiu a multidão, que se possuiu de perplexidade, porquanto cada um os ouvia falar na sua própria língua" (At 2.5–6). 

Ele simplesmente concluiu que "a capacitação para falar em línguas é dada pelo Espírito para comunicar o evangelho, não para confundir a cabeça das pessoas" e demonstra espanto que uma "pessoa que leia Atos 2 possa afirmar essas coisas que essas pessoas afirmaram", ou seja, que o dom de línguas não é mero idioma humano. Vejamos alguns motivos porque o professor está errado em sua emotiva resposta.

Em primeiro lugar, o dom de línguas na ocasião era desnecessário para comunicar o evangelho. O texto diz que as pessoas presentes eram "judeus". Pedro os chama de "homens de Judá" (At 2:14), "israelitas" (At 2:22) e "Israel" (At 2:36). Será que um judeu precisaria da capacidade de falar outros idiomas para evangelizar judeus? Ah sim, mais adiante é dito que eram “tanto judeus como prosélitos, cretenses e arábios" (At 2.11). Mesmo que os prosélitos não entendessem o aramaico dos galileus, entendiam grego, que estes falavam.

Em segundo lugar, o dom de línguas não foi utilizado para evangelizar na ocasião. Quando “todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem” (At 2.4) eles estavam apenas entre crentes, haja vista que o Espírito “encheu toda a casa onde estavam assentados” (At 2.2). Não havia necessidade de evangelização em língua estrangeira, pois eram todos judeus crentes naquela casa.

Em terceiro lugar, Pedro não evangelizou em línguas. É dito que “se levantou Pedro, com os onze; e, erguendo a voz, advertiu-os nestes termos: Varões judeus e todos os habitantes de Jerusalém, tomai conhecimento disto e atentai nas minhas palavras” (At 2.14). O pedido de atenção de Pedro sugere que só ele falou e falou numa língua inteligível a todos, provavelmente o grego. Se o dom de línguas fosse idioma estrangeiro com finalidade evangelísticas, os 120 continuariam falando, mas não foi o que houve.

Há outras razões neste texto e nas demais referências neotestamentárias ao falar em outras línguas que deixam claro que esse dom não visava a evangelização, aliás, lidas sob essa perspectiva, algumas passagens tornam-se mais estranhas que as próprias línguas. Concluímos que a resposta do professor Leandro foi superficial e controlada pelos seus pressupostos e portanto o conselho dado por ele serve primariamente a si mesmo.

Soli Deo Gloria

Como os calvinistas explicam Tito 2:11?

Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” (Tito 2.11)  
Um dos recursos bíblicos mais utilizados contra o calvinismo é Tito 2:11. É tido como inexplicável à luz da soteriologia calvinista. Por isso é citado contra a doutrina da eleição incondicional, da graça irresistível e da expiação limitada. Mas será que é isso mesmo ou existe alguma explicação que harmonize esse versículo com as doutrinas da graça como entendidas pelos reformados? Comecemos considerando as palavras e expressões isoladas, depois as implicações da declaração como um todo e, finalmente, a interpretação à luz do contexto.

“Graça de Deus” refere a tudo aquilo que o Senhor faz para redimir o homem do pecado e leva-lo para o céu. Ela é livre - não devida a ninguém, e incondicional - não havendo nenhuma condição prévia e nenhum pagamento posterior. Essa graça se manifestou (apareceu, brilhou) na vinda de Jesus, pois se diz que “a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1:17). Sem dúvida, essa graça é salvífica, pois é qualificada como salvadora, no sentido de meio ou instrumento que produz a salvação. Nas outras quatro ocorrência do termo é traduzida simplesmente como salvação. “Todos os homens” é uma expressão comum na Bíblia, ora significando todos os homens sem exceção, ora todos os tipos ou classes de homens. Em cada caso, o sentido deve ser buscado no contexto.

A relação entre “a graça de Deus se manifestou salvadora” e “todos os homens” apresenta dificuldades, exceto que se advogue o universalismo. Em geral, tanto calvinistas como não calvinistas negam o universalismo, e para harmonizar “graça que salva” com “todos os homens” precisam ponderar os lados da equação. Os não calvinistas atacam a graça, seja tornando-a insuficiente e requerendo uma ação do homem para completa-la, seja diminuindo a sua eficácia, tornando-a apenas potencialmente salvadora, podendo ser resistida e frustrada pela vontade do homem. Os calvinistas, por sua vez, interpretam “todos os homens” à luz do contexto e chegam à conclusão que se refere a toda classe de homens, e não a todos os homens sem exceção.

Notemos, primeiramente, que o versículo começa com a palavra “porquanto”, que é uma conjunção exploratória lógica, ou seja, indica que o que segue é uma justificativa do que precede. Em Tt 2:11-14 Paulo está justificando os imperativos éticos dos primeiros versículos. Sendo assim, “porquanto” indica que devemos ler o que vem antes, no caso, Tito 2:1-10. Ao ler esses versos, notamos algumas coisas. Primeiro, que Paulo está se referindo a pessoas crentes, pois proclama uma ética que deriva da sã doutrina. Segundo, que se trata de pessoas de diversas classes (homens, mulheres, idosos, jovens, escravos). Terceiro, que são gentios, em sua maioria, pelo menos. Se fossem judeus, estariam familiarizados com uma ética derivada da doutrina e não precisariam da justificativa de Paulo. Portanto, “todos os homens” é uma referência à toda classe de homens salvos pela graça, ou seja, independente de etnia, sexo, idade, classe social, todos os que são salvos pela graça devem adornar à sã doutrina com um modo de vida digno.

Mas não são apenas os versos anteriores a Tt 2:11 que limitam a referência paulina aos crentes de diversas classes. O verso 12 continua dizendo que a graça se manifestou “educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente” (Tt 2.12). A graça não se manifesta passivamente, potencialmente salvadora apenas. Tampouco vem, nos salva e vai embora. Mas permanece conosco e efetivamente nos educa quanto à maneira de viver neste mundo. A referência aqui, é óbviamente às classes de crentes referida na parte inicial do capítulo, como os pronomes indicam. O verso 13, “aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus” (Tt 2.13), também limita a referência de Paulo aos crentes, únicos para os quais a volta de Cristo se constitui numa “bendita esperança”. E, finalmente, o verso 14 declara “o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras” (Tt 2.14). O pronome “nos” e a expressão “um povo exclusivamente seu” deixam claro que Paulo tem em mente os crentes, tão somente.

Como vimos, advogar que “todos os homens” refere-se a todos os homens que viveram em todos os tempos e lugares implica numa graça “salvadora que não salva” todos aqueles a quem é manifestada. Por outro lado, o capítulo inteiro está falando de crentes, primeiro prescrevendo um comportamento ético como resultado da sã doutrina, depois justificando esse comportamento frente à manifestação da graça salvadora e finalmente apontando para os resultados presentes e futuros de se viver de acordo com esses mandamentos. Tomar “todos os homens” no sentido da humanidade inteira, sem excluir nenhuma pessoa, é tirar a frase do contexto em que está inserida e dar-lhe um sentido baseado em nossos pressupostos.

Resta-nos observar o que diz o verso 15: “Dize estas coisas; exorta e repreende também com toda a autoridade. Ninguém te despreze.” (Tt 2.15)

Soli Deo Gloria

A doutrina da predestinação prejudica a mente? - III

Esta é a terceira parte de minha resposta ao artigo “Para psiquiatra, doutrina da “dupla predestinação” prejudica a mente”. Recomendo que leia a partir da primeira parte da série.

3. Resposta lógica

Se você entendeu o que foi dito sobre antítese como figura de linguagem deve ter percebido que não faz sentido colocar a predestinação como antítese do amor de Deus. A antítese de amor é ódio, assim como a da luz é trevas, a do espírito é carne, a da graça é lei, a da fé é obras, a de Cristo é o Anticristo, etc. Se antítese é uma palavra ou ideia oposta, qual é a palavra ou ideia oposta de predestinação? O psiquiatra citado parece propor que a ideia oposta à predestinação é livre-arbítrio. Enfim, percebe-se que levando-se em conta a definição de antítese, livre-arbítrio não é a antítese de predestinação, menos ainda amor e predestinação estão em contraste. De qualquer modo, para que antítese como figura de linguagem se caracterizasse, os conceitos deveriam ser justapostos, o que não é o caso.

Parece que Leandro Quadros percebe isso, pois logo mais ele carrega na definição de antítese o conceito de contradição. Timothy Jennings vai pelo mesmo caminho quando diz que as duas ideias (um Deus que ama e um Deus que predestina) são mutuamente excludentes. Portanto, desde o início ambos estão falando de contradição, e não de antítese como ideias contrárias justapostas. Então, a questão com a qual temos que lidar é se as duas ideias são necessariamente auto-excludentes, portanto, contraditórias.

Contradição é quando se afirma e se nega algo sobre a mesma coisa, ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Por exemplo, é uma contradição afirmar que Deus escolhe quem vai ser salvo e negar que Deus escolhe quem vai ser salvo. Ou afirmar que Deus é essencialmente amor e ódio, ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Mas afirmar que Deus é amor e que Deus escolhe quem vai ser salvo não é uma contradição. Talvez seja um paradoxo, e novamente aqui temos que afirmar que o cristão deve crer em paradoxos ou rejeitar o ensino bíblico sobre vários assuntos de vital importância, como a inspiração da Bíblia, as duas naturezas de Cristo, o reino que já/ainda não veio, etc.

Deus ser amor e predestinar para a salvação não são ideias auto-excludentes e ninguém fica louco por afirmar ambas as verdades, como insinua o psiquiatra adventista e divulga o Leandro Quadros.

Continua...

Soli Deo Gloria

A doutrina da predestinação prejudica a mente? - II

Este post é a segunda parte de minha resposta ao artigo publicado por Leandro Quadros sob o título  “Para psiquiatra, doutrina da “dupla predestinação” prejudica a mente”. Se você não leu a primeira parte, é recomendável que o faça agora, antes de prosseguir com a leitura.

2. Resposta literária

O autor declara que “um dos métodos que Satanás usa para destruir a razão é convencer as pessoas a crer em antíteses” que Leandro Quadros define como “oposição de ideias e palavras”. Em sua monumental obra, Bullinger define antítese como “uma figura de linguagem pela qual dois pensamentos, ideias ou frases são colocados um contra o outro, a fim de tornar o contraste mais impressionante e assim enfatizá-lo” (Bullinger, E. W. Figures of speech used in the Bible. London; New York: Eyre & Spottiswoode; E. & J. B. Young & Co). Como figura de linguagem, antítese é uma das figuras mais comuns na Escritura, de forma que uma lista completa fugiria do escopo deste artigo. Provérbios é essencialmente formado por antíteses. A título de exemplo do uso de antíteses, veja as seguintes passagens: Is 1:21; 59:9; 65:13-14; Rm 5:19; 2Co 6:8-10; Fp 3:7,9. 

É impossível crer na Bíblia sem aceitar suas antíteses, reais ou aparentes. Como exemplo de antíteses aparentes, Ele disse que não deveríamos orar como os pagãos, que pensavam que seriam ouvidos por causa de suas muitas palavras (Mt 6:7) e numa outra ocasião Ele disse que seus discípulos deveriam orar com perseverança e não desistir (Lc 18:1-8). Como crentes em Jesus devemos obedece-lo tanto em um quanto em outro ensino, mesmo que isso pareça antitético ou sem sentido (na verdade, faz muito sentido quando se compreende o estilo de pregação do Senhor), nos lembra D. A. Carson. 

E há casos de antíteses reais que devem ser relativizadas. Por exemplo, quando Deus diz que não quer sacrifícios, mas misericórdia, não estava abolindo ali o sistema sacrificial (o que é feito posteriormente). E quando Jesus disse que quem não odiasse pai e mãe não era digno dEle, tampouco estava incentivando o ódio familiar. E quando os apóstolos disseram que importa obedecer a Deus e não aos homens, não estavam prescrevendo a rebelião. Em todos estes casos, a Bíblia está apontando o que é mais importante e qual deve ser nossa posição caso sejamos pressionados a escolher uma delas.

Porém, algumas das antíteses da Bíblia são absolutas, e assim devem ser tomadas. Por exemplo, quando a Bíblia contrapõe bênção e maldição decorrentes da obediência e desobediência, respectivamente, devemos aceitá-las sem atenuar seu sentido. O mesmo quando Paulo lista as obras da carne como antítese do fruto do Espírito. Obedecer as regras de interpretação bíblica, inclusive quanto à identificação de linguagem figurada, nos ajudará a compreender quando se trata de uma antítese aparente, relativa ou absoluta.

Seja como for, sugerir que uma das obras do Diabo é nos levar a crer em ensinos apresentados na forma de antíteses, ou que devemos escolher um ensino em detrimento de outro, é não reconhecer uma das formas preferidas de Deus nos comunicar a verdade nas escrituras. Novamente afirmamos, se não admitirmos antíteses, não podemos crer em grande parte da Bíblia, mesmo sabendo que ao crer nela parece “loucura para os que perecem” (1Co 1:18).

Continua...

Soli Deo Gloria

A doutrina da predestinação prejudica a mente? - 1

É admirável o esforço que alguns teólogos do livre-arbítrio fazem para tentar desacreditar a doutrina da predestinação. Como argumentar a partir de uma exegese bem feita e de uma hermenêutica sadia é arriscado para tal propósito, a estratégia geralmente adotada é de levantar objeções humanistas, que embora padeçam de falta de substância, esbanjam apoio popular. Eventualmente surge alguma “novidade” que parece vai quebrar a mesmice dos argumentos anti-predestinação. Mas no fundo, é mais do mesmo, exceto talvez pelo apelo a uma autoridade diferente.

Penso ser o caso da citação das palavras do psiquiatra adventista Timothy Jennings, que motivou o professor Leandro Quadros a escrever o artigo, cuja manchete sensacionalista diz “Para psiquiatra, doutrina da “dupla predestinação” prejudica a mente”. As palavras do psiquiatra, citadas por um empolgado professor são:
“Um dos métodos que Satanás usa para destruir a razão é convencer as pessoas a crer em antíteses e em coisas que não fazem sentido. Para atingir esse alvo, ele as influencia a desconsiderar a razão, para que aceitem duas coisas que não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Por exemplo, Satanás contraria a verdade que Deus é amor, levando-nos a crer que Ele escolhe quem se salvará e quem se perderá, insistindo em que não temos livre-arbítrio nessa questão. Como já vimos, o amor não pode existir sem liberdade. Portanto, as duas crenças se excluem mutuamente. As duas não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, e a única maneira de acreditar em ambas é renunciando à razão. Numa situação como essa, racionalizamos a contradição, dizendo: ‘Aceito isso pela fé’, o que, conforme já vimos simplesmente não é fé”.
Sinceramente, não acho que seja o caso dos calvinistas renovarem seu estoque de anti-depressivos, nem dos anti-calvinistas ficarem eufóricos. Em que pese a formação do autor da declaração, ela se desmancha como papel em água quando analisadas com alguma atenção, e isto sob vários aspectos, como veremos. A resposta será postada em partes, visando textos curtos, sendo este o primeiro.

1. Resposta científica

Que fique bem claro que não sou qualificado para me pronunciar sobre os aspectos médicos da questão. Mas como a citação do Dr. Timothy Jennings veio somente com o endosso dele próprio, escrevi a ele fazendo duas perguntas: em quais pesquisas científicas ele baseou a relação causal entre crença na doutrina da predestinação e distúrbios mentais e se ele, pessoalmente, já havia atendido algum paciente cujo diagnóstico foi apontado como tendo como causa a crença na predestinação. Até a publicação deste artigo não obtive resposta, e pesquisei nos artigos de sua autoria e não encontrei tais referências. Contudo, isto não pode ser interpretado como significando que tais estudos não existem, apenas que se existentes, não foram indicados.

Por outro lado, pesquisei publicações científicas sobre o tema e cito três artigos técnicos, de publicações especializadas que sugerem que a realidade pode não ser bem assim. Por exemplo, um estudo realizado por uma equipe de psiquiatras comparou setenta pacientes calvinistas com pacientes sem afiliação religiosa. O resultado apresentado foi que calvinistas estritos apresentaram níveis mais baixos de depressão no teste BDI-II (Back Depression Invetory II), especialmente no grupo de sintomas relacionados ao suicídio (A. A. de Lely, W. W. van den Broek, P. G. H. Mulder, T. K. Birkenhäger W. W. van den Broek, P. G. H. Mulder, T. K. Birkenhäger. Symptoms of depression in strict Calvinist patients and in patients without religious affiliations: a comparison). 

Um outro estudo fez o cruzamento dos sintomas de depressão com a filiação denominacional de 3020 cidadãos idosos da Holanda. Calvinistas reformados tiveram o menor índice entre todos os grupos religiosos. Os liberais tiveram os índices mais altos e católicos romanos, outras igrejas e os sem igrejas ficaram na média (Arjan W. Braam, Aartjan T. F. Beekman, Cees P. M. Knipscheer, Dorly J. H. Deeg, Pieter Van Den Eeden, and Willem Van Tilburg. Religious Denomination and Depression in Older Dutch Citizens: Patterns and Models. Journal Aging Health November 1998.). 

Uma terceira pesquisa, realizada com adultos em Nebraska, procurou relacionar o efeito da frequência à igreja na redução dos sintomas de depressão, considerando três grupos: protestantes tradicionais, protestantes evangélicos e católicos romanos. Os três grupos diferiram entre si, mas apenas os protestantes tradicionais apresentaram uma significativa redução dos sintomas de depressão com uma maior frequência à igreja (Philip Schwadel and Christina D. Falci. Interactive Effects of Church Attendance and Religious Tradition on Depressive Symptoms and Positive Affect. Society and Mental Health March 2012 2: 21-34, first published on April 13, 2012).

Portanto, até prova em contrário, devemos considerar que as palavras do referido psiquiatra são no mínimo questionáveis.

Leia a segunda parte de "A doutrina da predestinação prejudica a mente?"

Soli Deo Gloria

Devo voltar para meu primeiro marido?

Uma irmã expôs-me a situação em que se encontra e que a tem feito sofrer demais. Acredito que sua experiência não é única e por isso resolvi apresentar a resposta através de um artigo no blog, no afã de ajudar outras pessoas na mesma situação. Sei que isso pode parecer impessoal, mas mesmo falando em termos gerais, escrevo tendo em mente as palavras que me dirigiu e com o coração condoído pelo que ela passa. Oro sinceramente para que Deus lhe ajude mais do que posso com minhas palavras.

Essa irmã antes de converter-se ao Senhor se divorciou de seu marido, vindo a contrair segundas núpcias dois anos depois, estando hoje casada há 12 anos com seu atual esposo, com quem tem um filho de cinco anos. Ela foi trazida à fé em 2012, sendo batizada no começo deste ano. Sua angústia se deve ao fato de que sua igreja não aceita seu casamento atual, dizendo que ela deve “pagar o preço”, ou seja, abandonar seu atual marido e viver sozinha, ou mesmo retornar para seu primeiro marido. E isso a tem consumido, levando-a às lágrimas. Eis o que devo dizer sobre casamento, divórcio e novas núpcias.

1. O casamento entre um homem é uma mulher é indissolúvel, no sentido de que Deus o estabeleceu para a vida toda. “O que Deus ajuntou não separe o homem” (Mc 10.9) é a palavra definitiva de Jesus sobre o assunto. Assim, a ordenança “aos casados” é “a mulher não se separe do marido” e “o marido não se aparte de sua mulher” (1Co 7.10–11). Este é um mandamento do Senhor e qualquer tentativa de fugir dele é rebeldia.

2. Sendo assim, o divórcio é odioso a Deus. Pelo ministério do profeta Malaquias Ele diz “Eu odeio o divórcio; eu odeio o homem que faz uma coisa tão cruel assim. Portanto, tenham cuidado, e que ninguém seja infiel à sua mulher” (Ml 2.16, NTLH). Quando disseram a Jesus que “Moisés permitiu lavrar carta de divórcio e repudiar” o Senhor explicou que “por causa da dureza do vosso coração, ele vos deixou escrito esse mandamento; porém, desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher” (Mc 10.4–6). A permissão mosaica visava proteger a mulher mais que conceder um direito ao homem. E Jesus “reinterpreta” esse permissão com as palavras “também foi dito: aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio. Eu, porém, vos digo: qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério” (Mt 5.31–32).

3. Chama atenção na última passagem citada a exceção feita por Jesus: relações sexuais ilícitas. Esta é uma das exceções invocadas para justificar o divórcio e o novo casamento. A outra é o abandono por parte do cônjuge, apresentada por Paulo. Porém devemos ser cuidadosos e não fazer mau uso dessas cláusulas de exceção. Na exceção apresentada por Jesus, alguns entendem que adultério justifica o divórcio, mas não é o caso. O termo traduzido “relações sexuais ilícitas” não significa “adultério”. Pela lei, a adúltera era apedrejada, não repudiada. Além disso, para o cristão, a regra é o perdão, não o divórcio. E no caso deste, o adultério não faculta “à parte inocente” novo casamento. No caso “o descrente quiser apartar-se, que se aparte; em tais casos, não fica sujeito à servidão nem o irmão, nem a irmã” (1Co 7.15), deve ser notado que a iniciativa do abandono deve ser do cônjuge incrédulo, e só neste caso o cônjuge crente está liberado para casar-se novamente. 

Do exposto concluímos que o casamento foi instituído para ser indissolúvel, que o divórcio é sempre indesejável e quando for inevitável, o novo casamento só é aceitável em caso abandono pela parte incrédula. Contrariar esses princípios bíblicos é sempre pecado e, reafirmamos, ir contra eles é rebelar-se contra a vontade de Deus expressa em Sua Palavra. Mas, como tratar pastoralmente as diversas situações práticas com as quais nos deparamos na igreja, sendo a da irmã que perguntou, apenas uma delas, talvez a mais comum?

1. Devemos considerar, primeiro, que tudo aquilo que o homem ou a mulher fizeram em sua antiga vida, foi perdoado pelo Senhor. Penso que aqui se aplicam as passagens que dizem que “não levou Deus em conta os tempos da ignorância” (At 17.30) e “se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2Co 5.17). Portanto, os erros cometidos no passado não devem ser usados para oprimir o convertido. Isto não elimina a necessidade de reparação, quando aplicável, porém fazer retroagir ao primeiro casamento, desfazendo o casamento atual, é crueldade, especialmente quando no atual há filhos, como é o caso.

2. Porém, o divórcio entre crentes é tão comum quanto entre incrédulos. Embora isso não deva jamais servir para diminuirmos o peso da verdade de que Deus odeia o divórcio, a igreja precisa tratar biblicamente, vale dizer, zelando pela verdade com amor. A igreja deve disciplinar os crentes que se divorciam e não consentir (como igreja) com novas núpcias de crentes divorciados. No entanto, o divórcio sendo doloroso como sempre é, exige que os divorciados sejam acolhidos e tratados como irmãos amados em Cristo, o que realmente são. E um cuidado especial se deve ter para com os filhos de pais separados.

3. Uma questão adicional é se os que mesmo contrariando a posição da igreja casam-se novamente podem ser aceitos na igreja e exercer ministérios ordenados. A resposta para o primeiro caso é um sonoro sim, lugar de pecador é na igreja, ouvindo a Palavra de Deus e sendo cuidados pelos crentes. Porém, a resposta para o segundo caso é um igualmente sonoro não, pois a Bíblia requer que o que ocupa cargo “seja irrepreensível, esposo de uma só mulher” (1Tm 3.2).

Uma palavra final precisa ser dito àqueles que depois de crentes cometeram o pecado do divórcio e do novo casamento e que agora temem não serem salvos. Confiem na graça de nosso Senhor, cuja justiça excede qualquer pecado que tenhamos cometido. “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados, a fim de que, da presença do Senhor, venham tempos de refrigério, e que envie ele o Cristo, que já vos foi designado, Jesus” (At 3.19–20).

Soli Deo Gloria

Ellen White e a Doutrina Monstruosa

No livro O Grande Conflito, existe uma declaração que Leandro Quadros considera a síntese do pensamento de Ellen White sobre a predestinação calvinista. Ei-la:
Estas monstruosas doutrinas são essencialmente as mesmas que o ensino posterior dos educadores e teólogos populares, de que não há lei divina imutável como norma do que é reto, mas que o padrão da moralidade é indicado pela própria sociedade, e tem estado constantemente sujeito a mudança. Todas estas idéias são inspiradas pelo mesmo espírito superior, sim, por aquele que mesmo entre os habitantes celestiais, sem pecado, iniciou sua obra de procurar derruir as justas restrições da lei de Deus.
Sai daí a base de Quadros para afirmar que a doutrina calvinista é satânica. Essa afirmação encontra-se no capítulo 14, o mesmo em que White menciona com aprovação o nome e as doutrinas de eminentes predestinistas, entre os quais Martinho Lutero, Ulrich Zwinglio, John Knox, John Bunyan, Richard Baxter, John Flavel, Joseph Alleine e George Whitefield: “O grande princípio mantido por aqueles reformadores... foi a autoridade infalível das Escrituras Sagradas como regra de fé e prática... A Bíblia era a sua autoridade, e por seus ensinos provavam todas as doutrinas e reivindicações”, disse ela sobre todos eles. Soa incoerente ela em seguida classificar a predestinação, juntamente com o antinomianismo, como “monstruosas doutrinas”, inspiradas por Lúcifer? Soa, mas coerência não é a característica principal dos adventistas.

No entanto, há um fato desconhecido por muitos adventistas: a declaração não é da pena de Ellen White. Trata-se de uma alteração feita W. W. Prescott na edição de 1911 do Grande Conflito. Surpreso pelo espírito de profecia precisar ser revisado e corrigido? Mas foi, aqui e em outros 105 pontos, apenas nessa edição da obra. O que White escreveu, e que consta na edição de 1888, é: "Esta monstruosa doutrina é essencialmente a mesma coisa que a alegação dos romanistas, de que ‘o Papa pode dispensar acima da lei, e do errado fazer certo, pela correção e mudança nas leis”, e que ‘ele pode pronunciar sentenças e julgamentos em contradição... com a lei de Deus e dos homens’”. O filho de Ellen White questionou Prescott sobre a alteração e este a justificou dizendo que a afirmação da senhora White estava errada e que os adventistas se veriam em dificuldades se alguém pedisse a fonte da declaração.

Além do todo da redação ter sido alterado, na versão original, “monstruosa doutrina” está no singular e se refere ao antinomismo apenas e não ao calvinismo conjuntamente. A autora compara “esta monstruosa doutrina” com a revindicação romanista de que o Papa pode mudar as leis de Deus e dos homens, dizendo em seguida que “ambas revelam a inspiração” do Diabo. O singular, a referência ao romanismo e a palavra “ambas” tornam gramaticalmente impossível inserir ali a “predestinação calvinista”, como faz Leandro Quadros. São dois pontos a se ter em conta: as palavras não são de Ellen White e ela não fez referência direta ou indireta à doutrina da predestinação, mas unicamente ao antinomianismo e ao romanismo.

Seja como for, o fato é que Ellen White está trabalhando sobre declarações que não são, de forma alguma, expressões da doutrina da predestinação conforme entendida pelos calvinistas. Prova isso a própria fonte utilizada por ela, a Cyclopaedia of Biblical, theological, and ecclesiastical literature, de John McClintock e James Strong. Esta obra atribui a origem moderna do antinomianismo a John Agricola, um dos primeiros cooperadores de Lutero. Compreendendo erradamente algumas palavras de Lutero e Melâncton sobre a justificação sem as obras da lei, Agricola apregoou a doutrina antinomiana e foi por isso repreendido severamente por Lutero, não uma mas várias vezes, até que admitiu publicamente seu erro e se reconciliou com Lutero. Desnecessário dizer que Lutero era mais predestinista que Calvino e combateu duramente a teoria do livre-arbítrio, veja-se seu Nascido Escravo para confirmar.

Segundo a mesma obra, o antinomianismo foi defendido nos dias de Oliver Cromwell por um tal John Saltmarsh, que entre outras coisas defendia o universalismo e a justificação eterna, ou seja, que os eleitos eram justificados antes mesmo de nascerem, daí sua declaração de que “as ações ímpias que cometem não são realmente pecaminosas, nem devem considerar-se como violação da lei divina por parte deles, e que em conseqüência não têm motivo quer para confessar os pecados, quer para com os mesmos romper pelo arrependimento”, mencionada por White. Saltmarsh foi combatido por Samuel Rutherford, calvinista escocês que participou da Assembleia de Westminster. Mais tarde, o também calvinista Richard Baxter iria refutar seus ensinos.

Ao lado de Saltmarsh, os principais antinomianos da época foram Crisp, Richardson, Hussey, Eaton e Town, segundo os mesmos McClintock e Strong. E estes foram atacados e refutados com sucesso pelos calvinistas Thomas Gataker, Andrew Fuller, Richard Baxter e, principalmente, por Daniel Williams, além de outros. Embora escrita por teólogos de orientação wesleyana, a obra é cuidadosa em distinguir entre hiper-calvinismo e antinomianismo de um lado e o calvinismo dos reformadores de outro. Em nenhum lugar a obra referenciada menciona o calvinismo como responsável pelo antinomianismo, portanto, se White pretendeu dar essa impressão, agiu de má fé, se não foi o caso, seus intérpretes é que a compreendem equivocadamente ou a distorcem deliberadamente no calor do debate.

Creio que as palavras de Charles Spurgeon, extraídas de um sermão pregado em 1859, deixam clara a posição calvinista conforme definida em Wesminster e Dort: “Quantos danos tem sido causados às almas dos homens por homens que só tem pregado uma parte, e não todo o conselho de Deus! Meu coração sangra por muitas famílias sobre as quais a doutrina antinomiana conquistou domínio... Não posso imaginar instrumento mais apto, nas mãos de satanás, para arruinar almas do que o ministro que diz aos pecadores que não é dever deles arrepender-se de seus pecados ou crer em Cristo”. Em seu The History of Dissenters, no qual retrata a época referida, James Bennett diz que o antinomianismo “não resulta do genuíno calvinismo”, como aquele que “era familiar aos escritos e práticas dos grandes reformadores”, mas do “erro que tem sido enxertado por aqueles que são mais ansiosos para abraçar certas partes do que estudar para entender o todo”.

Em seu texto, Leandro Quadro menciona outras citações feitas por Ellen White no Grande Conflito, recorrendo a John Wesley. A obra de John Wesley não tão fácil de se analisar e cada citação deve ser analisada em sua ordem no tempo, além do contexto em que foi feito. Demanda tempo e requer espaço, ambos me faltam no momento, a Providência dirá se os terei no futuro. Por ora, basta-nos concluir que a citação feita por Leandro Quadro como sendo da senhora White e contra o calvinismo não é nem uma coisa, nem outra.

Soli Deo Gloria

48 Textos Mal utilizados por Leandro Quadros - Gn 18:25

"Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?"
Nesta passagem Abraão apela em favor de seu sobrinho Ló e de sua família. Deus havia dito que destruiria as cidades da planície, onde Ló morava. Abraão argumenta com Deus que não seria justo que o justo perecesse juntamente e por causa do ímpio. Deus então concede que se fosse encontrado ali dez justos Ele pouparia as cidades, mas o relato diz que não havia tantos justos ali. E por isso destruiu as cidades, não sem antes tirar dali Ló e sua família. O texto não fala de uma predestinação universal, nem de livre-arbítrio, portanto não serve à tese do professor. Por outro lado, o fato de Deus não encontrar ali dez justos pesa em favor da depravação total, que nega o livre-arbítrio do homem. Além disso, o registro de que "aqueles homens lhe pegaram pela mão, e pela mão de sua mulher e de suas duas filhas, sendo-lhe o Senhor misericordioso, e tiraram-no, e puseram-no fora da cidade" (Gn 19:16) é uma boa ideia da eleição graciosa e da chamada eficaz. E a afirmação de que "destruindo Deus as cidades da campina, lembrou-se Deus de Abraão, e tirou a Ló do meio da destruição" (Gn 19:29) representa bem a segurança que os salvos desfrutam por causa da justiça de Cristo. Portanto, se a passagem reforça alguma doutrina, reforça as chamadas doutrinas da graça.


Soli Deo Gloria

Posts da Série: [Gn 3:15] [Gn 12:3

Resposta ao Ministério Cristão Apologético

Luciano, do blog Ministério Cristão Apologético, apresentou uma refutação ao meu artigo Falarão Novas Línguas, intitulado As Novas Línguas, Segundo o Irmão Clóvis. O tom do artigo é amistoso, como deve ser nas controvérsias entre irmãos. Espero que ao apresentar esta tréplica eu consiga manter a cordialidade de nossa conversa.

Vamos repisar os argumentos apresentados por ambas as partes, embora seja recomendável que você leia os artigos referidos acima. Eu baseei minha defesa no fato de que Jesus diz que os crentes irão falar em novas línguas e não em outras línguas e mais decisivamente no fato de que kainos, o termo utilizado para novas, é utilizado para algo em si mesmo novo, inédito. É claro que para isso me apoiei nas distinções feitas pelos linguistas entre neos e kainos, uma vez que não tenho conhecimento para prescindir de tais apoios.

A réplica do Luciano, em síntese, é que em Atos 2 os discípulos falaram em idiomas terrenos, que Paulo usa “outras línguas” e não “novas línguas” em 1Co 14 e que kainos não se distingue de neos em Lc 22:20; Hb 8:8 e Hb 12:24. Antes de apresentar uma tréplica preciso dizer que gostei da abordagem dele, uma vez que não desqualifica simplesmente o que eu escrevo, mas procura apresentar contra-pontos bíblicos. Se parássemos por aqui, acho que já teríamos frutos. Mas, mesmo correndo o risco de estragar o conseguido até agora, vamos avançar um pouco mais.

1. As línguas faladas em Atos 2. Eu tratei um pouco mais extensamente do que farei aqui no artigo Falar em Línguas: Natureza e Atualidade - Parte 3, onde abordei a questão das línguas em Atos 2. Nele, admito que os galileus falaram em línguas que não tinham aprendido, e que os judeus oriundos da Diáspora e que então habitavam em Jerusalém os entenderam falando nos idiomas das terra onde nasceram. Porém, isso se deu como sinal para aqueles ouvintes, e não por necessidade evangelísticas, pois tratavam-se de judeus, que entendiam o aramaico e/ou o grego, falado pelos moradores da Palestina, inclusive Pedro, que aliás pregou-lhes o evangelho numa língua comum a eles. Portanto, o fato de as línguas faladas pelos crentes galileus em seu louvor a Deus terem sido entendidas pelos habitantes de Jerusalém não invalida o fato de que aquelas línguas eram novas no sentido primordial de kainos

2. Paulo não usa o termo novas línguas. Isto é um fato. Como é fato que Paulo não usa adjetivos para línguas, exceto na citação que faz de Isaías, referindo-se aos povos de língua estrangeira. Nas demais vezes, ou se refere à variedade de línguas (expressão que por si só não depõe contra ou a favor de nossos pontos de vistas) ou na maioria das vezes simplesmente línguas. Ora, é sabido que Paulo tem um vocabulário às vezes peculiar e nada sugere que ao não usar o qualificativo novas ele estivesse indicando que as línguas não eram novas em nenhum sentido. Temos aqui um simples argumento do silêncio, pois Paulo não usa kainos, como também não usa neos em relação à línguas.

3. Kainos não se distingue que neos. Acho que este ponto é mais decisivo na nossa disputa, uma vez que os habitantes de Jerusalém terem identificado as línguas faladas pelos galileus com seus idiomas maternos e Paulo não ter usado kainos/neos é pouco conclusivo. Para afirmar seu argumento, o irmão Luciano cita “Este é o cálice da nova [kainos] aliança...” (Lc 22:20), “...firmarei nova [kainos] aliança” (Hb 8:8) e “Mediador da nova [neos] aliança” (Hb 12:24). Devido a mesma aliança ser qualificada com kainos em Hb 8:8 e com neos em Hb 12:24, nosso irmão não vê distinção entre os dois termos. Mas será isso mesmo?

Em primeiro lugar, é reconhecido que kainos e neos são sinônimos e que ambos significam novo, sem serem mutuamente excludentes. Algo que é kainos pode ser chamado de neos, porém o inverso é improvável. No caso citado, a nova aliança é kainos no sentido que é qualitativamente superior à antiga, como também é neos, no sentido de que substitui e sucede a aliança da Lei. Assim, embora haja uma relação entre os dois termos sinônimos, eles não são simplesmente intercambiáveis.

Considere-se ainda que neos ocorre 20 vezes no Novo Testamento e kainos, 38. Nas 20 ocorrências de neos, o sentido é primariamente relativo ao tempo ou outro da mesma espécie: “vinho novo” (Mt 9:17; Mc 2:22; Lc 5:37-39), “moço” (Lc 15:12-13; 22:26; Jo 21:18; At 5:6; 1Tm 5:1-2,11,14; Tt 2:4,6; 1Pe 5:5), “nova massa” (1Co 5:7); “novo homem” (Cl 3:10). Já nas ocorrências de kainos, o sentido é primariamente relativo à qualidade, denotando superioridade ou ineditismo, algo que ainda não estreiou, não foi usado: “odres novos” (Mt 9:17; Mc 2:22; Lc 5:36,38), “coisas novas” (Mt 13:52; Ap 21:5), “nova aliança” (Mt 26:28; Mc 2:28; 14:24; Lc 22:20; 1Co 11:25; 2Co 3:6; Hb 9:15), “túmulo novo” (Mt 27:60; Jo 19:41), “nova doutrina” (Mc 1:27; At 17:19), “remendo novo” (Mc 2:21), “veste nova” (Lc 5:36), “novo mandamento” (Jo 13:34; 1Jo 2:7-8; 2Jo 1:5), “nova criatura” (2Co 5:17; Gl 6:15), “novo homem” (Ef 2:15; 4:24), “novos céus” (2Pe 3:13; Ap 21:1), “nova terra” (2Pe 3:13; Ap 21:1), “nome novo” (Ap 2:17; 3:12), “novo cântico” (Ap 5:9; 14:3), “nova Jerusalém” (Ap 21:2). Quando se examina o conjunto de ocorrências de neos e kainos é notório que o primeiro refere-se a outro da mesma classe, enquanto que o segundo se refere a outro de uma classe superior.

Essa distinção entre kainos e neos é reconhecida pelos dicionaristas. O Dicionário de Strong explica da seguinte maneira as nuanças entre os termos: “νεος é o novo quando contemplado sob o aspecto do tempo, aquilo que tem recentemente vindo à existência. καινος é o novo sob o aspecto da qualidade, aquilo que ainda não passou por revisão ou reparo. καινος, então, muitas vezes significa novo em contraste com aquilo que decaiu com a idade, ou gastou, sendo seu oposto παλαιος. Algumas vezes sugere aquilo que é pouco incomum. Implica freqüentemente em louvor, o novo como superior ao velho. Ocasionalmente, por outro lado, implica o oposto, o novo como inferior àquilo que é velho, porque o velho é familiar ou porque aperfeiçoou-se com a idade. Claro que é evidente que ambas νεος e καινος podem ser algumas vezes aplicadas ao mesmo objeto, mas de pontos de vista diferentes”.

Soli Deo Gloria

48 Textos Mal Utilizados por Leandro Quadros - Gn 12:3

"Abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei aquele que te amaldiçoar; por meio de ti serão benditas todas as famílias da terra" (Gn 12:3).
Na chamada de Abrão Deus promete retribuir com bênçãos e maldição o indivíduo que abençoasse ou amaldiçoasse, respectivamente, o patriarca da fé. E diz que por meio dele todas as famílias da terra seriam benditas. De fato, com a chamada de Abrão Deus começou a formar a nação da qual viria o Salvador, Jesus Cristo. A passagem não apoia a predestinação universal nem faz referência ao livre-arbítrio. O fato de dizer que em Abrão seriam benditas todas as famílias da terra o Senhor deixa explícito que embora estivesse formando uma nação da qual viria o Salvador, a salvação não seria restrita a este povo. O termo família não significa "todos os indivíduos de uma família" como bem o demonstra a história de Israel, pois o termo pode se referir tanto a famílias de indivíduos e de espécies como de povos. A passagem não se refere a capacidade humana, eleição para salvação, expiação, chamada ou preservação, portanto não contradiz em nada os pontos calvinistas.

Posts da Série: [Gn 3:15] [Gn 12:3

48 textos mal utilizados por Leandro Quadros - Gn 3:15


O professor Leandro escreveu um texto extremamente longo para defender seus dois pontos adventistas:

1 - Toda a humanidade sem exceção está predestinada para a salvação.
2 - Todos os homens tem o livre-arbítrio e podem usá-lo para deixar de ser predestinado.


e para discordar dos Cinco Pontos Calvinistas:

1 - Todos os homens estão perdidos por causa de seus pecados e são naturalmente incapazes de ouvir, entender, desejar e aceitar o evangelho por si mesmos.
2 - Deus soberana e graciosamente escolheu na eternidade, os que seriam feitos recipientes da salvação.
3 - Jesus morreu na cruz para salvar aqueles que foram eleitos pelo Pai.
4 - O Espírito Santo chama eficazmente os que foram eleitos pelo Pai e remidos por Cristo.
5 - Todos os que foram eleitos pelo Pai, comprados por Cristo e regenerados pelo Espírito perseverarão até o fim.


No seu longo e digressivo texto ele diz mencionar 48 (eu contei 56) passagens bíblicas que supostamente apoiam a predestinação universal e anulam as doutrinas da graça. Num outro texto com as mesmas características reclamou que em resposta a ele o irmão Helder Nozima citou apenas 12 passagens bíblicas e insinuou que eu não tinha lido as passagens citadas por ele.

Não pretendo entrar numa guerra de versículos com a estratégia de seleção da amostra. Tenho para mim que a quantidade de textos-prova utilizados não decide uma questão, pois as citações podem ter sido feitas fora de seus contextos ou utilizando-se passagens irrelevantes para o tema. O melhor é analisar cada passagem para ver se servem ao uso que se pretende. Principiarei isso e não a outras passagens, exceto o contexto imediato, quando for o caso.

Para cada texto mencionado pelo professor, deve-se perguntar ao texto:

1. Ensina, nega ou não diz respeito aos dois pontos do professor?
2. Ensina, nega ou não dizem respeito aos cinco pontos dos calvinistas?
1. Gn 3:15


"E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar"

A passagem afirma a inimizade entre a mulher e a serpente e que Cristo esmagaria a cabeça de Satanás enquanto este lhe feriria o calcanhar. O texto é a primeira promessa messiânica, por isso chamada de proto-evangelho, e nada diz sobre eleição, predestinação ou livre-arbítrio. Portanto, a passagem não diz respeito aos pontos defendidos pelo professor. Embora faça referência ao ato da expiação, não permite conclusões sobre a extensão da mesma. Assim, a passagem não tem relevância no debate em curso.

Posts da Série: [Gn 3:15] [Gn 12:3

Leandro Quadros, a palavra kosmos e os extraterrestres

Em minha resposta ao seu artigo "Vidas em outros mundos – 1 Coríntios 4:9" deixarei completamente de lado qualquer afirmação sua que não esteja relacionada à seguinte questão "1Co 4:9 ensina que existem extraterrestres imaculado?". Aos leitores que vierem diretamente a esta minha resposta a você, recomendo recorrer ao artigo “Leandro Quadros e os Extraterrestres imaculados” para entender o início da controvérsia. Esclareço também que minha intenção não é especular sobre vida em outros planetas, o que me é indiferente, mas questionar o método leandrino de interpretar a Bíblia, tomando este ponto como exemplo.

1. Dou-me quase por satisfeito que meu artigo lhe tenha feito recuar da afirmação categórica para a admissão de possibilidade. Você afirmou convictamente que “a Bíblia menciona claramente que há vida em outros mundos” e que “realmente existe vida em outros planetas, que não conheceram o pecado”. Mas agora reconhece apenas que “há grande possibilidade” de que existam e sequer faz referência sobre a impecabilidade deles. Parece um recuo, mas é um avanço em direção à verdade bíblica.

2. Você demonstrou interesse pelo meu conhecimento de grego e pela quantidade de obras de referência que eu tenho. Não tenho conhecimento tal que valha a pena mencionar e minhas fontes são limitadas. Mas posso dizer-lhe que tenho, e consulto, algumas das fontes que citou. Se realmente tiver interesse em minha biblioteca sobre grego, posso informá-lo por email, mas prefiro não fazê-lo aqui.

3. Quanto ao sentido da palavra κοσμω, você diz que se eu tivesse consultado sua lista de léxicos eu “saberia que κοσμω também pode ser traduzido por “universo”. Acho que não leu direito meu post. Lá está escrito literalmente que a “palavra κοσμω no Novo Testamento revela uma variedade de sentidos”, inclusive “o universo”. Portanto, seus léxicos não trouxeram novidade nesse sentido. Eu também disse, e isto repito, que tendo κοσμω “uma variedade de sentidos... o sentido específico deve ser dado pelo contexto” e que “assumir simplesmente que em 1Co 4:9 mundo significa ‘universo’ e que isso mostra ‘claramente que há vida em outros planetas’ é de uma irresponsabilidade exegética enorme”. E seus léxicos não me desmentiram, como veremos:

a) O The Analytical Greek Lexicon, em sua página 238, realmente diz que o termo pode significar “universo material” e “o agregado da existência sensitiva”, embora indique que esse não é o significado primário do termo. De qualquer forma, não nego existência do universo e de outros planetas. A questão em foco é: o termo significa que existem outros planetas habitados por serem imaculados? A obra mencionada não apresenta “vidas inteligentes em outros mundos” como uma possível tradução de κοσμω.

b) Não consegui conferir se no Analytical Lexicon of the Greek New Testament de Baker o termo significa “a soma total de todos os seres criados no céu e na terra”. Mas confio que tenha feito uma citação fiel e a aceito como tal. E como admito que há seres criados no céu (anjos) e na terra, não tenho nenhum problema quanto a esse significado. Teria problema se o Baker dissesse que κοσμω significa “a soma total de seres criados no céu, na terra e em outros planetas”. Mas ele não diz isso, diz?

c) W. C. Taylor, no seu Dicionário do Novo Testamento Grego, à página 121, de fato dá “universo” como tradução possível de κοσμω, denotando “a soma das coisas criadas”, especificando ainda “a terra habitada; os habitantes da terra toda a raça humana”. Citando Thayer ele completa que κοσμω se refere “à massa da humanidade ímpia, alienada de Deus e hostil à causa de Cristo” e ainda ao “padrão da vida pagã”, agora citando Hort. W. C. Taylor não dá como significado possível para κοσμω “seres de outros planetas”.

d) Você também acerta ao citar Léxico do Novo Testamento Grego/Português, de F. Wilbur Gingrich, quando na página 120 ele diz que κοσμω significa “mundo” em vários sentidos, do mais inclusivo “universo, cosmos” citado você, até “o planeta em que vivemos”, “humanidade em geral” e “mundo como sendo hostil a Deus, perdido no pecado, arruinado, depravado”, sentidos ignorados em seu artigo. E não há, nessa obra, nenhuma referência, mesmo que remota, a “seres de outros planetas” e menos ainda a “mundos que não conheceram pecado”.

e) Confirmo que o Vine diz que κοσμω denota “a) a ‘terra’” e dentro dessa significação admite que em Rm 1:20 significa “provavelmente aqui o universo: tinha esse significado entre os gregos devido à ordem observável nele”. Em primeiro lugar você omite a termo “provavelmente” que consta no Vine e que tira o grau de certeza pretendido. Segundo, você omite o motivo pelo qual os gregos referiam-se a κοσμω como o universo. Não era por acreditarem em seres de outros planetas, mas pela ordem observável no cosmo a partir da terra. E terceiro, não passava pela cabeça de Vine endossar uma teoria de habitantes de outro mundo imaculados, haja vista todos seus significados terem como referência a terra: “terra em contraste com o céu”, “o gênero humano”, “os gentios em distinção dos judeus” e “a atual condição dos assuntos humanos”.

Fechando este ponto, lembro que “universo” como possível significado para κοσμω já constava em meu artigo inicial. Chamo a atenção também de que essas obras ficam anos-luz de sugerir vida inteligente e santa em outros planetas. E se alguém quiser notar, o uso que você faz das obras de referências, selecionando e omitindo arbitrariamente o que lhe convém, não é intelectualmente honesto.

4. Eu fiquei tentado a discorrer mais sobre o significado de κοσμω, a partir do que li em minha limitada biblioteca. Poderia contribuir com alguma coisa sobre esse termo nas obras clássicas, na Septuaginta e no Novo Testamento, em especial no uso que Paulo faz dele. Mas eu estaria fazendo o trabalho que você deveria ter feito. Pois apesar de citar 1Co 4:9 como mostrando “claramente” que existem vidas inteligentes e sem pecado em outro mundo e de colocar a referência no título, não apresentou uma análise exegética do texto.

5. Sendo assim, termino com dois desafios. Primeiro, apresente um estudo exegético de 1Co 4:9 e seu contexto que mostre que κοσμω significa vidas em outros mundos em 1Co 4:9 enquanto que nas outras 19 ocorrências nessa carta o sentido é outro. Segundo, apresente obras de referências reconhecidas que indiquem que κοσμω pode significar vida inteligente e sem pecado em outros planetas. Peço apenas que não recorra ao espírito de profecia nem a autores adventistas, por razões óbvias. Se o lema do programa é “se você tem coragem de perguntar, a Bíblia tem coragem de responder”, então tal desafio não é descabido.

Soli Deo Gloria