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A eleição incondicional torna Deus mentiroso?

Nas disputas teológicas, muitas vezes a vítima é o texto bíblico, que é espremido e usado para dizer o que não diz e oferecer pretextos a conclusões que lhe são totalmente alheias. É o caso do artigo intitulado "Na Doutrina da eleição Incondicional Seria Deus Verdadeiro?", em que João 3.31-33 é usado na tentativa de provar que se a eleição incondicional é verdadeira, Deus não é.

O artigo em si poderia ser melhor escrito, menos confuso e com uma correção dos erros de português (gramática e concordância), embora se proponha a uma análise do grego da passagem. E como não poderia faltar em artigos desse nível, os espantalhos do calvinismo estão presentes. Por exemplo, no calvinismo "a oferta do evangelho não é universal, Deus não deseja que os ouvintes (todos) sejam salvos, a pregação do evangelho não é para todos os perdidos e não existe boa vontade em Deus". Dessa forma, seria esperar demais que a doutrina da eleição incondicional fosse corretamente explicada, antes de ser combatida.

O texto bíblico em questão diz o seguinte:

“Quem vem das alturas certamente está acima de todos; quem vem da terra é terreno e fala da terra; quem veio do céu está acima de todos e testifica o que tem visto e ouvido; contudo, ninguém aceita o seu testemunho. Quem, todavia, lhe aceita o testemunho, por sua vez, certifica que Deus é verdadeiro.” (João 3.31–33)

As citações no artigo são das NVI, Jerusalém, NTLH, além do Textus Receptus, o que não vem ao caso, pois a tradução correta do texto não está em dúvida e a variante textual no versículo 32 é irrelevante para a discussão. O versículo que o autor analisa para levar à sua conclusão é o 33: "Quem, todavia, lhe aceita o testemunho, por sua vez, certifica que Deus é verdadeiro".

É de se perguntar, de imediato, o que essa passagem ou esse texto tem a ver com a condicionalidade da eleição. Aparentemente, o autor já esperava por esse estranhamento, uma vez que reconhece que trata-se de uma luz "muito pouca percebível (sic) tanto por calvinistas, como por Arminianos". Talvez não se tenha percebido porque, nesse sentido, nada havia ali para perceber.

Depois de citar várias passagens que declaram que Deus é verdadeiro (Dt 32.4; Sl 31.5; 146.6; Is 65.16; Jr 10.10; Jo 7.28; Jo 8.26; Jo 17.3; Rm 3.4), o autor declara "o que me chamou a atenção é que se Deus é verdadeiro e creio que Ele o é, e o texto diz que Aquele que o aceita confirma que Deus é verdadeiro, comparando essa verdade com a doutrina da eleição incondicional, percebemos. (sic) Que essa doutrina com a afirmativa desse texto, é incompatível, e os motivos apresentaremos na sequência". A esperança aqui é que a falta de clareza na formulação da tese fosse compensada com uma apresentação clara dos motivos que levaram o autor à associação da eleição incondicional com a veracidade de Deus.

Mas a continuação da leitura frustra o leitor. Os motivos que ele então apresenta é que aquele que crê em Cristo e em seu testemunho confirma que Deus é verdadeiro e aquele que não crê, infama Deus como mentiroso. Não deve haver discordância quanto a isso. Mas dessa conclusão ele extrai outra: "portanto, diante dessa verdade, a mensagem Calvinista de uma dupla predestinação não pode ser verdadeira, uma vez que Deus já fez a sua escolha tanto para a salvação como para a perdição, e esse texto não trata com a possibilidade restritiva, o texto é aplicável a todas as pessoas e cada um dos indivíduos e não classes de pessoas". Ora, um eleito que aceita o testemunho de Cristo declara que Deus é verdadeiro, não importa se foi eleito incondicionalmente ou pela fé prevista. Não temos, até aqui, nenhum dos motivos prometidos.

Prosseguindo, e após fazer um intercurso por Jo 3:16, ele acrescenta que "a eleição incondicional a luz de João 3.31-33, se torna fraca e perde forças (sic) a medida que logicamente entendemos que uma vez que Deus já fez a sua escolha incondicionalmente, seria inútil o texto dizer que Aquele que o aceita confirma que Deus é verdadeiro". O lógica do autor parece que é que se Deus escolheu uma pessoa na eternidade, sem considerar nada antevisto nela, tal pessoa não poderá dar testemunho de que Deus é verdadeiro. Mas, por que não? Não há impossibilidade lógica, na verdade há uma certeza de fato, que aquele que foi eleito na eternidade (e de novo, não importa se condicional ou incondicionalmente) irá aceitar o testemunho de Cristo.

Ele termina dizendo que "a conclusão que chegamos é que na doutrina da eleição incondicional, Deus não seria verdadeiro; pelas seguintes razões", que seriam "Jesus quando foi levantado na cruz, o fez para atrair a todos, ou seja, morreu para obter a salvação para todos e cada um dos homens, e aplicar os benefícios da sua morte somente aos que creem", que "Deus de fato amou a humanidade inteira enviando seu filho para morrer por eles" e finalmente "como pode Deus ser bom, amável e justo na perspectiva calvinista?". Nenhuma dessas razões, e algumas nem razões são, implica que a eleição incondicional torna Deus mentiroso. Há um imenso salto lógico entre "Deus escolhe incondicionalmente" e "Deus é mentiroso", que não é preenchido com "quem aceita o testemunho, certifica que Deus é verdadeiro".

Lamentavelmente, motivado pela sua antipatia ao calvinismo, o que é compreensível, o autor maltratou o texto e escreveu um artigo ruim, o que não é desculpável. E o fato do mesmo ter sido publicado sob auspícios da Editora Reflexão não contribui em nada para ela se firmar como uma editora que se propõe a promover a teologia arminiana.

Soli Deo Glória

O problema de Mateus 11:12

A salvação é pela graça ou depende do esforço pessoal? Boa parte dos cristãos responderiam com um enfático "Sola Gratia!". Alguns, porém, diriam que é pela graça cooperando com esforço humano. E ainda alguns poucos afirmariam que depende fundamentalmente do empenho pessoal. Nestes dois últimos casos, pode-se buscar apoio em Mateus 11:12 onde Jesus diz que “desde os dias de João Batista até agora, o reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele” (Mt 11.12). Entretanto, este texto é de difícil tradução e representa um desafio considerável de interpretação.

Algumas traduções existentes em português dizem que "o reino dos céus é tomado à força" (NVI, 2000; TB, 2010), que "o reino dos céus é tomado por esforço" (ARA, 1993), que "se faz violência ao Reino dos céus" (ARC, 1968; ARC, 1969; ARC, 1995), que "o reino dos céus tem sido assaltado com violência" (APC, 1991) e que "o Reino do Céu tem sido atacado com violência" (NTLH, 2000). Sobre a identidade dos que tomam o reino é dito que são “os que usam de força” (NVI, 2000), "os que se esforçam" (ARA, 1993; TB, 2010) ou ainda "os violentos" (APC, 1991; NTLH, 2000). Há boas razões para se optar por uma ou outra tradução, mas obviamente não podem todas estar igualmente corretas.

O termo traduzido para a expressão "tomado por esforço” e suas alternativas é biazetai, derivado de biazo, que significa "usar a violência, aplicar a força; forçar, infligir violência em". O termo só ocorre aqui e em Lc 16:16, mas cognatos de biazetai são usados na Septuaginta. Exatamente na mesma forma encontrada em Mt 11:12, o verbo só ocorre no apócrifo 4Macabeus 2.8, com o significado de “aprisionar, tornar subserviente, dominar, forçar, violentar, subjugar, dominar, pisar”. O verbo está na voz passiva. A expressão “os que se esforçam” é tradução de biastai, substantivo que significa “forte, impetuoso, que faz uso da força, violento”, “o que emprega a violência, pessoa impetuosa” ou “uma pessoa que apela para a violência para alcançar os seus objetivos”.

Uma questão que surge na análise de biazetai e biastai é se são usados de uma forma favorável ou desfavorável, ou seja, se denotam algo bom ou mau. Como vimos, biazetai está na voz passiva, o que significa literalmente que o reino “é forçado, vencido, superado, tomado pela tormenta”. A voz passiva de biazo só ocorre no sentido de uma subjugação hostil ou violenta, portanto, mau. No grego extra-bíblico biastes ocorre em Filo sempre num mau sentido. Uma vez que o termo biazetai na voz passiva implica o uso de força e até mesmo de violência, o sentido de que o reino sofre violência de natureza desfavorável parece-nos a mais provável.

Isto tudo considerado, entendemos que a leitura mais natural do texto é a que diz que desde o tempo de João o reino de Deus e seus trabalhadores sofrem violência da parte de seus inimigos, que tentam evitar ou usurpar o governo divino. O grego indica que o reino está sendo atacado e que homens violentos estão tratando de impedir que outros entrem. A prisão de João e a rejeição e execução de Jesus a acontecer logo em seguida corroboram essa interpretação. Sendo assim, os biastai (violentos) são os líderes religiosos dos dias de Jesus, que reclamavam por conta próprio um direito sobre o reino ou os grupos revolucionários que pretendiam um reino terreno, como os zelotes e outros ativistas, mas não os discípulos de Jesus. Herodes pode ser incluído nessa lista pois prendeu e iria executar João.

O contexto parece reforçar a ideia de que o reino é atacado por inimigos e que seus súditos são perseguidos. No capítulo anterior, quando Jesus enviou os doze dizendo “pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus” (Mt 10:7) avisou “eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos” (Mt 10:16) e acrescentou “acautelai-vos, porém, dos homens; porque eles vos entregarão aos sinédrios, e vos açoitarão nas suas sinagogas...” (Mt 10:17) “e odiados de todos sereis por causa do meu nome” (Mt 10:22). No capítulo 12 a perseguição anunciada no capítulo 10 e implícita no capítulo 11, começa a tornar-se explícita: “E os fariseus, vendo isto, disseram-lhe: Eis que os teus discípulos fazem o que não é lícito fazer num sábado” (Mt 12:2) e “os fariseus, tendo saído, formaram conselho contra ele, para o matarem” (Mt 12:14).

Os violentos, então, não seriam discípulos determinados, mas inimigos que tentam arrebatar o reino pela força, não entrando e tentando impedir que outros tomem parte dele. Os discípulos de Jesus são descritos no mesmo capítulo, não como homens violentos ou valentes, mas sim como pequeninos e oprimidos: “Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te aprouve. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11:25-27).

Se esta interpretação estiver correta, o uso de Mt 11:12 para defender o esforço humano na obtenção da salvação é impróprio. Aliás, advogar a interpretação de que o reino de Deus é conquistado por pessoas esforçadas levanta sérios problemas com o ensino claro e inequívoco de que salvação é unicamente pela graça e pelo poder de Deus.

Soli Deo Gloria

Nota: está é uma versão condensada e adaptada de um artigo mais completo, com as fontes consultadas, que pode ser obtido aqui: O problema de Mateus 11:12.

Quem é atraído pela cruz de Cristo?

A extensão da expiação é um dos temas mais debatidos pelos interessados em teologia. Duas posições são defendidas fervorosamente, uma delas afirmando que Jesus morreu para tornar possível a salvação do mundo inteiro e outra que Jesus morreu para tornar certa a salvação dos eleitos somente. O texto acima geralmente é apresentado contra esta última posição, com a suposição de que todos significa "todas as pessoas do mundo, sem exceção".

Consideremos, primeiro, quem está falando. O início do verso 30, "Então, explicou Jesus", deixa claro que o "eu" e "a mim mesmo" do versículo se referem a Jesus. Os pronomes eu e mim são enfáticos, uma vez que a forma verbal indica o sujeito e torna dispensável o uso de pronomes. Certamente a intenção de Jesus é fazer um forte contraste entre a Sua pessoa e o "príncipe deste mundo" mencionado no verso anterior, e que seria expulso pela Sua morte.

Para saber com quem Jesus estava falando, precisamos recorrer ao contexto. Voltando para o versículo 20 lemos que “entre os que subiram para adorar durante a festa, havia alguns gregos; estes, pois, se dirigiram a Filipe, que era de Betsaida da Galileia, e lhe rogaram: Senhor, queremos ver Jesus” (Jo 12.20–21, RA). É importante destacar que esses gregos eram gentios e não judeus helenistas, nascidos na Diáspora. E foi no momento que estes estrangeiros foram apresentados a Jesus por André e Filipe que Jesus se referiu à Sua morte e aos resultados dela. É fundamental ter em mente que o discurso de Jesus foi provocado pela presença dos gregos e dirigido a um auditório misto, composto por judeus e gentios.

Estando claro quem diz e para quem o faz, podemos nos concentrar no que é dito. Jesus faz duas afirmações envolvendo Sua pessoa e vamos considera-las separadamente. Primeiramente Ele diz “e Eu, quando for levantado da terra”. Ser “levantado” é uma referência à sua morte, como o narrador interpreta as palavras de Jesus: “Isto dizia, significando de que gênero de morte estava para morrer” (João 12.33, RA). A mesma linguagem é utilizada em Jo 3:14. É interessante que a voz do verbo levantar é passiva, o que indica que neste caso Jesus não realiza, mas sofre a ação descrita. Convém observar, também, que a palavra “quando” é um advérbio condicional, que indica que a ação seguinte depende do evento ou ação descritos, e por isso o sentido é de “e se, no caso de”.

A declaração de Jesus que está no centro da controvérsia é “atrairei todos a mim mesmo”. O verbo atrair está na voz ativa, significando que é Jesus quem toma a iniciativa e realiza a ação e no modo indicativo, que é utilizado quando quem fala descreve uma ação como sendo real, em oposição a algo que é apenas possível, contingente ou intencional. Compare com a declaração do verso anterior, em que Jesus diz “...agora o seu príncipe será expulso” (João 12.31, RA). O mesmo modo verbal é utilizado, logo dizer que Jesus apenas tentará atrair as pessoas para Si, sem a certeza de que isto ocorrerá de fato, implica reconhecer que Ele apenas tentará expulsar a Satanás, uma vez que as duas coisas, a expulsão de um e a atração de outros são expressas da mesma maneira, e como resultados da mesma ação: a morte de Jesus.

Além disso, quando considerado teologicamente, o termo atrair implica mais que meramente exercer influência moral. Não é como se o Senhor se tornasse atraente na cruz, o pecador olhando-O ali fosse até Ele. Jesus já havia dito que “ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia” (João 6.44, RA), e a palavra traduzida por trazer e atrair é a mesma nos dois casos. O termo aponta tanto para o fato de que é Deus quem atrai como para a realidade de que o homem por si mesmo não pode ir a Cristo. Mais, indica que o homem resiste a esta atração divina, contudo o Senhor vence esta resistência em seus escolhidos. Em vários lugares encontramos indicações de que esta atração não é passiva, pelo contrário, é ativa e poderosa. Os autores bíblicos utilizam-se dela para descrever o puxar redes cheia de grandes peixes (João 21:6,11), o arrastar pessoas ao tribunal (Atos 16:19; Tg 2:6) e o sacar uma espada da bainha (João 18:10).

Mas se considerarmos que essa atração é tanto iniciativa de Deus quanto invencível, como evitar a conclusão de que todas as pessoas serão salvas, uma vez que Jesus diz que atrairá a todos? Chegamos ao cerne do problema. A saída fácil é ignorar o que foi dito até agora e fazer do Crucificado apenas atraente e não Aquele que por Sua morte efetivamente atrai aqueles por quem deu a vida e salva de fato. Nem sempre o caminho fácil e agradável é o correto a seguir.

Examinemos com atenção a expressão todos. Notemos, inicialmente, que “pessoas” ou “homens” não constam do original, como aparece em algumas traduções, e inclusive há quem sugira que o termo se refira a todas as coisas, tudo. Portanto, se a palavra todos for tomada em sentido absoluto, forçosamente teremos que incluir os anjos caídos e os seres inferiores como objetos da atração de Cristo. Ou seja, algum tipo de limitação não expressa é admitida mesmo por universalistas.

O Novo Testamento apresenta diversos lugares em que a palavra todos não pode significar todos os indivíduos sem exceção.  Por exemplo, quando se diz que “ia ter com ele Jerusalém, e toda a Judéia, e toda a província adjacente ao Jordão” (Mt 3:5, RA) e “toda aquela cidade saiu ao encontro de Jesus” (Mt 8:34, RA), obviamente as cidades citadas não ficaram abandonadas enquanto cada homem, mulher e criança iam ver João Batista e Jesus. O mesmo quando lemos que “toda a cidade se ajuntou à porta” (Mc 1:33, RA). E quando Jesus diz que “todos quantos vieram antes de mim são ladrões e salteadores" (Jo 10:8, RA) não pode significar, por exemplo, que Abraão, Jó e Daniel eram assaltantes. Por falar em Abraão, quando seu servo partiu “levando consigo de todos os bens dele” (Gn 24:10, RA), é claro que não deixou Abraão na miséria e a promessa de Joel, “derramarei o meu Espírito sobre toda a carne” (Jl 2:28, RA), não implica que cada indivíduo sobre a terra é batizado com o Espírito. Quando lemos que Jesus percorria a Judéia “curando todas as enfermidades” (Mt 4:23, RA) devemos lembrar que houve lugar em que “não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles” (Mateus 13.58, RA). Assim também, quando lemos que os discípulos “tendo partido, pregaram em toda parte” (Mc 16:20, RA), não devemos pensar que pregaram em todos os lugares do mundo, mas em toda parte a que foram. Em cada caso, o contexto nos esclarece quando todos significa todos sem exceção, a maior parte, todos os tipos e classes, etc.

Agora podemos voltar a falar do contexto em que a declaração de Jesus está inserida. Lembramos que o Seu discurso foi feito na presença e motivado pelos não judeus que queriam vê-lo. Portanto, o todos significa que não apenas judeus, mas também gentios seriam atraídos, ou seja, todos sem distinção e não todos sem exceção. Vemos isso de forma recorrente no quarto evangelho. A salvação não depende de laços familiares ou de raça (1:13; 8:31-59), Jesus é o Salvador não apenas dos judeus, mas também dos samaritanos e em consequência, do mundo (4:42), Ele tem outras ovelhas que não são do redil dos judeus, mas do mundo gentio (10:16), morrerá não só pela nação, mas para reunir num só os filhos de Deus que estão dispersos (11:51). Entendemos, então, que por todos o Senhor estava dizendo “não apenas os judeus, mas também os gentios”.

É o que também entende a maioria dos comentaristas e eruditos. Robertson diz que todos “não significa cada homem individual, pois alguns, como Simeão disse (Lc 2:34) são repelidos por Cristo”. Bartley diz que a expressão é uma “referência ao alcance universal do evangelho, que inclui os gentios”. Wiersbie afirma que "Cristo menciona os gentios quando fala em ser "levantado" na cruz. Em Mateus 10:5 e 15:24, Cristo ensinou seus discípulos a evitarem os gentios; todavia, agora ele diz que os gentios também serão salvos pela cruz. (...) Cristo tinha que ser levantado para que 'todos' (v. 32, judeus e gentios) fossem atraídos a Ele. Isso não significa todas as pessoas, sem exceção, mas todas as pessoas, independente da raça". Para Hernandez, todos significa “tanto gregos (ali presentes, v. 20) como judeus, como pessoas de todo povo e nação. Isto enfatiza a composição multinacional e racial do povo de Deus”. Lembrando que “um momento antes os gregos pediram para ver Jesus”, Hendriksen, diz que “Jesus promete atrair a todos os homens a si mesmo. Este todos os homens, neste contexto que coloca gregos junto aos judeus, deve significa homens de toda nação”, acrescentando que “estes gregos representam as nações – os eleitos de todas as nações – que chegariam a aceitar a Cristo com fé viva, através da graça soberana de Deus”. Matthew Henry também diz que “o grande desígnio do Senhor Jesus é atrair a si todos os homens, não só os judeus, mas também os gentios de toda raça, língua, nação e povo”. Luiz Palau também entende que “a cruz é como um ímã ao qual tanto judeus como gentios são atraídos”. Walvoord, interpretando o ser atraído como ser salvo, afirma que “aqueles que serão salvos não virão apenas dos judeus, mas também de toda tribo, língua, linhagem e nação (Ap 5:9)”. Cabal é firme ao declarar que “isto não é universalismo (salvar a todos), mas o evangelho é oferecido a todos sem distinção – atraindo pessoas de todos os tipos para Si mesmo”. Finalmente, para Dockery, todos significa “todas as pessoas sem distinção de sexo, raça, posição social ou nacionalidade”.

Concluindo, a interpretação de que Cristo atrai redentivamente todos os homens a si mesmo, a menos que se advogue o universalismo, impõe que a atração referida por Cristo seja meramente potencial, e não real. Longe de glorificar a Deus e exaltar a obra de Seu Filho na cruz, tal tentativa acaba por anular a eficácia intrínseca de Seu sacrifício, fazendo-a depender, ao final, da vontade do homem e não da intenção divina.

Soli Deo Gloria

Aquele que está unido a Cristo produz fruto

“Toda a vara em mim, que não dá fruto, a tira; e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto” Jo 15:2

Este versículo é utilizado mais das vezes para fundamentar a crença popular que um crente pode vir a perder sua salvação adquirida. Entretanto, por se tratar de uma parábola, devemos interpretar o texto de acordo com a principal regra de interpretação de textos deste gênero: notar principalmente a lição geral, sem forçar demais nos detalhes. Se pudermos sintetizar a lição da parábola numa frase é nesta: aquele que está em Cristo, produz frutos.

Jesus começa dizendo “Eu sou a videira verdadeira” (Jo 15:1). Israel era a videira plantada pelo Senhor, mas que não apresentou os frutos esperados. “Eu mesmo te plantei como vide excelente, uma semente inteiramente fiel; como, pois, te tornaste para mim uma planta degenerada como vide estranha?” (Jr 2:21). Ao dizer-se videira verdadeira, Jesus declarava vã a presunção do povo de que pertencendo a Israel seriam por isso aceitos por Deus.

Sendo Jesus a videira verdadeira, podia afirmar “quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto” (Jo 15:5a). Os frutos não são produzidos com o objetivo de estar na videira, mas como resultado de estarem ligados a ela. Tão certo como a união com Cristo produz frutos, é o fato de que fora dele nenhum fruto é produzido: “sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15:5b). Por isso, a ordem de Jesus não é “produzam frutos” e sim “estai em mim, e eu em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em mim” (Jo 15:4).

Se o texto deixa absolutamente claro que todo aquele que está unido a Cristo produz fruto, como entender a sentença “toda a vara em mim, que não dá fruto, a tira” (Jo 15:2a)? A explicação é que embora no aspecto exterior os ramos estivessem ligados à videira, não havia união orgânica de fato. A seiva não fluía do tronco para os ramos. Embora aderidos à árvore, não estavam ligados intimamente.

Sempre houve, e sempre haverá, aqueles que fazem parte da igreja visível, conformando-se externamente à conduta esperada dos cristãos, porém sem nunca terem se ligado a Cristo de fato. Esses tais são ramos que não produzem frutos, e não produzem porque não tem uma ligação real com o Senhor. Que essa ligação é apenas aparente fica claro logo adiante: “se alguém não estiver em mim, será lançado fora, como a vara, e secará” (Jo 15:6). O problema de tais pessoas não é primariamente não produzir frutos, e sim não estar em Cristo, pois se estivessem os frutos surgiriam naturalmente.

Em claro contraste com eles estão os discípulos verdadeiros. Logo após dizer que o Pai “limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto" (Jo 15:2b), Jesus completa “vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” (Jo 15:3). Destes, Jesus testemunha: “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça” (Jo 15:16). Pelo que concluímos que os que foram escolhidos por Jesus, permanecerão Nele e serão frutíferos. E que concluir que um verdadeiro crente que está em Cristo e Cristo está nele pode vir a perder a salvação é perder de vista a lição que Jesus está ensinando.

Soli Deo Gloria

Nota: passagem comentada a pedido de um leitor do Cinco Solas.

A fé é um dom de Deus?

Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus. Ef 2:8

Uma afirmação que incomoda alguns arminianos é a de que a fé é um dom de Deus. Pois sendo a fé um dom de Deus, torna sem sentido o argumento da eleição pela fé prevista: Deus escolheria para a salvação aqueles a quem decidiu dar a fé, o que o tornaria igualmente parcial ao não dar a fé a todos. Por isso, são forçados a afirmar que a fé não é um dom de Deus, e para demonstrar isso recorrem a Efésios 2:8.


Deus é amor



Deus é a soma de Seus atributos. Negar ou diminuir a importância de qualquer de suas perfeições é fazê-lo menos Deus do que Ele realmente é. De igual modo, dar proeminência a um atributo, destacando-o dos demais, é apresentar uma idéia deformada da divindade. Qualquer proposição que comece com "o principal atributo de Deus é..." é enganoso e tende a desembocar numa heresia qualquer. Os atributos de Deus estão em plena harmonia, um não faz sombra a outro.

Estas considerações são necessárias quando alguém se propõe a falar do amor de Deus. Pois é fato que alguns, ante os requisitos de Sua santidade e justiça, podem querer suplantá-los com uma dose extra do amor divino. Por outro lado, os convictos de Sua soberania na salvação correm o risco de atenuar a dimensão do amor divino. Devemos afirmar, contudo, que Deus não é nem mais e nem menos amoroso que santo e justo! Ele é tanto amor, como espírito e luz.

Jesus à porta do coração?

"Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo." Ap 3.20

O versículo de Ap 3:20 é comumente utilizado para comprovar que Jesus está à porta batendo e é o homem que decide abrir ou não a porta. A aplicação feita é sempre em defesa do livre arbítrio do homem, em contraposição à doutrina da graça eficaz, pela qual Deus não apenas dá o desejo como a capacidade de crer nEle. A interpretação arminiana desse versículo é bem expressa numa figura onde Jesus está do lado de fora de uma porta, segurando com uma mão uma luz e com a outra batendo numa porta sem trinco pelo lado de fora. Uma legenda normalmente informa que a falta de trinco se explica pelo fato de que a porta do coração só se abre pelo lado de dentro.

Vamos estudar esse versículo sob dois aspectos, primeiro de forma isolada e depois em seu contexto e veremos se o mesmo ensina o que se alega ensinar.

O versículo de forma isolada não ensina o livre arbítrio

O versículo coloca Jesus à porta, batendo e falando para que a abram. O que leva alguém abrir a porta é o ouvir a voz dEle. Uma vez aberta a porta, Ele entra na casa e faz uma refeição com quem abriu a porta. Mais longe que isso não se pode ir na interpretação isolada dessa passagem.

É importante notar que palavras como livre arbítrio, vontade, querer e escolha sequer aparece no texto, embora fique implícito que há duas possibilidade: abrir e não abrir. Mas não há uma declaração positiva a respeito do livre arbítrio nem uma interpretação natural e necessária que requeira isso.

Voltando ao ato condicionante do abrir a porta: o ouvir a voz de Cristo. O texto bíblico não diz "ao ouvir" mas "se ouvir", deixando claro que nem todos ouvem. Na pregação do Evangelho, o ouvir é fator determinante:

"Inclinai os ouvidos e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, que consiste nas fiéis misericórdias prometidas a Davi" Isaías 55:3

"Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam a paz, dos que anunciam coisas boas! Mas nem todos obedecem ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem creu na nossa pregação? De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus." Romanos 10:14-17

O fato é que embora o Evangelho seja pregado a todos, sem distinção, nem todos ouvem o Evangelho, no sentido bíblico do termo:

"Torna insensível o coração deste povo, endurece-lhe os ouvidos e fecha-lhe os olhos, para que não venha ele a ver com os olhos, a ouvir com os ouvidos e a entender com o coração, e se converta, e seja salvo"
Isaías 6:10


"Porque o coração deste povo está endurecido, de mau grado ouviram com os ouvidos e fecharam os olhos; para não suceder que vejam com os olhos, ouçam com os ouvidos, entendam com o coração, se convertam e sejam por mim curados" Mateus 13:15

Jesus deixa bem claro, no Evangelho de João, que nem todos ouvem Sua voz, crêem em Suas palavras e O seguem. E dá a razão disso:

"Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas. As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão"
João 10:26-28


"Para este o porteiro abre, as ovelhas ouvem a sua voz, ele chama pelo nome as suas próprias ovelhas e as conduz para fora. Depois de fazer sair todas as que lhe pertencem, vai adiante delas, e elas o seguem, porque lhe reconhecem a voz"
João 10:3-4


"Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então, haverá um rebanho e um pastor" João 10:16

"Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem viverão" João 5:25

"Qual a razão por que não compreendeis a minha linguagem? É porque sois incapazes de ouvir a minha palavra" João 8:43

"Quem é de Deus ouve as palavras de Deus; por isso, não me dais ouvidos, porque não sois de Deus" João 8:47

Das palavras acima fica claro que nem todos ouvem a voz de Jesus, que aquelas que ouvem é porque são as suas ovelhas e que aqueles que não ouvem, não ouvem porque não "sois das minhas ovelhas" e "não sois de Deus". Como o ouvir não é uma ação autônoma do homem, mas algo operado por Deus nele, fica claro que Ap 3:20, visto isoladamente, não ensina o livre arbítrio.

Mas estudar uma texto de forma isolada não é uma boa prática de interpretação, pois o todo texto deve ser lido e entendido à luz de seu contexto. E quando colocamos o texto em questão dentro de seu contexto percebemos claramente que o mesmo não é dirigido a não crentes e que, portanto, não é uma passagem evangelística.

O versículo em seu contexto não se refere a evangelismo

Vejamos o contexto bíblico imediato e mediato do texto em consideração:

"Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve: Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus: Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca; pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu. Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas. Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te. Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo. Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas." Apocalipse 3:14-22

A série de sete cartas são dirigidas não a descrentes, mas aos crentes das igrejas estabelecidas na Ásia:

"Dizendo: O que vês escreve em livro e manda às sete igrejas: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia" Apocalipse 1:11

Da mesma forma, ao concluir cada carta, há um aviso solene:

"Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas" Apocalipse 3:22

Todo o texto contido nas cartas apocalípticas se dirigem e se referem à igreja, portanto a crentes. Não é um texto evangelístico no sentido que está falando a pecadores não crentes que precisam abrir a porta de seus corações a Jesus. Se bem que é verdade que as pessoas devem ser instadas a crerem na mensagem do Evangelho e a aceitarem a Jesus, mas o texto em apreço não é um apelo dirigido a quem ainda não se converteu.

A carta em que Jesus diz estar batendo à porta é dirigida ao "anjo da igreja" de Laodicéia, o que creio seja o pastor da igreja. Com isso, a mensagem é dirigida a todos os crentes laodicenses. Jesus é direto ao dizer "conheço as tuas obras" e ao taxá-los de mornos. Eram crentes autoconfiantes, visto não sentirem falta de coisa alguma, sem perceberem a sua realidade de pobreza espiritual. Apesar disso Jesus os ama e por isso a disciplina seria certa. Conclama-os ao zelo e ao arrependimento. Todas essas palavras deixam claro que Jesus está se dirigindo a crentes e não a descrentes. Pois somente as obras de crentes tem valor gradual, a dos descrentes não tem valor algum, somente os filhos são disciplinados e somente crentes podem ser ter zelo com as coisas de Deus. Após dirigir essas duras palavras, e no mesmo fôlego, Jesus diz "eis que estou à porta e bato". Não há nada no texto que sugira, nem de longe, que Jesus mudou os destinatário de suas palavras. Ele continua falando com crentes, o que fica claro por dizer em seguida "ao vencedor", título somente atribuível aos feitos mais que vencedores por Cristo e pelo aviso solene para ouvir o que o Espírito diz "às igrejas".

A conclusão é que Apocalipse 3:20 não é dirigido a inconversos, mas a uma igreja que confiante em seus próprios recursos torna-se independente de Jesus, negando o Seu senhorio e, na prática, deixando-o de fora de seus assuntos. É um igreja em que Jesus bate à porta, querendo assumir a posição de centralidade que lhe é de direito, como aquele que é o cabeça da igreja. Concluir que Jesus está batendo à porta do coração de pecadores é fazer uma aplicação com demasiada liberdade de um texto fora de seu contexto.

Conclusão

Um texto deve ser compreendido à luz de seu contexto, apoiado sempre por passagens paralelas e em conformidade com o ensino geral das Escrituras, tendo em mente que a revelação bíblica é progressiva.

Assim, a análise isolada de um texto não serve para referendar uma doutrina, exceto se a mesma for ensinada claramente em outras passagens bíblicas. Não é o que ocorre com o popular, mas extra-bíblico, livre arbítrio. Não há nas Escrituras uma só passagem que o declare, e mesmo as inferências feitas a partir de algumas passagens como a de Apocalipse 3:20, após melhor exame, demonstram-se totalmente falhas. Isto porque, ao chegar ao texto pressupondo existir o livre arbítrio, até parece que o mesmo é ensinado em tal passagem. Mas posto à prova, o pressuposto mostra-se um equívoco.

Assim é que mesmo analisado de forma isolada, Apocalípse 3:20 não ensina nem dá apoio à filosofia humanista do livre arbítrio. E quando iluminado pelo contexto, tal passagem sequer está se referindo ou dirigindo a não crentes, mas a crentes mornos que negligenciaram o senhorio de Cristo e desenvolveram um falso senso de auto-suficiência.

De uma forma ou de outra, o fato é que Apocalipse 3:20 não apóia, nem indiretamente, o precioso livre arbítrio humano.

Um coração mau e infiel


"Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do Deus vivo. Antes, exortai-vos uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje, para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado" Hb 3:12-13

Alguém me perguntou "como o irmão entende o texto de Hebreus 3.12,13?", dando em seguida seu entendimento de que "mesmo um coração habitado pelo Espírito pode se tornar duro, infiel e mau". Não vou me deter na análise de sua conclusão, dedicando-me a responder a sua pergunta.

Uma prática obrigatória na interpretação da Bíblia é considerar uma passagem à luz de seu contexto. No caso, interessa-nos particularmente os capítulos 3 e 4 de Hebreus.

O escritor se dirige a "irmãos santos, participantes da vocação celestial" (3:1), portanto é indubitável que escrevia a crentes. Estes são os mesmos "irmãos" do verso 12 a quem disse "que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do Deus vivo". Não podemos enfraquecer a força dessa advertência, dizendo que o crente não precisa vigiar, tendo em mente o que aconteceu na sedição de Cades (Nm 14), quando Deus "jurou que não entrariam no seu repouso" (3:18). Até este ponto creio que não temos que divergir. Mas ele basta para afirmarmos que "um coração habitado pelo Espírito pode se tornar duro, infiel e mau"? Creio que um exame mais cuidadoso responde negativamente.

Embora se dirigisse a uma congregação de crentes, o escritor estava consciente de que alguns dentre eles poderiam não serem crentes genuínos. Tomando o exemplo utilizado pelo autor, ele diz que "havendo-a alguns ouvido, o provocaram; mas não todos os que saíram do Egito por meio de Moisés" (3:16). O que distinguiu Moisés, Josué e Calebe dos que pereceram no deserto não foi o fato de fazerem parte da congregação do deserto nem o ter ouvido a Palavra de Deus, mas a genuína fé, característica dos nascidos de novo. Hebreus é clara quanto a isso: "porque também a nós foram pregadas as boas novas, como a eles, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram" (4:2).

Visto exteriormente, como o homem vê, quando pessoas da congregação endurecem seu coração e perecem na incredulidade, parece que foram crentes nascidos de novo que se endureceram até a completa apostasia. Mas é apenas uma aparência externa, como bem expressa o escritor ao dizer "temamos, pois, que, porventura, deixada a promessa de entrar no seu repouso, pareça que algum de vós fica para trás" (4:1, grifei). Apesar dessa aparência, os verdadeiramente nascidos de novo podem afirmar "porque nós, os que temos crido, entramos no repouso" (4:3). A prova de que "nos tornamos participantes de Cristo" é retermos "firmemente o princípio da nossa confiança até ao fim" (3:14).

O escritor indica dois antídotos para o risco de endurecimento daqueles que misturados ao povo ainda não nasceram de novo. Um deles é "exortai-vos uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje, para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado" (3:13). Além da ajuda mútua, temos a infalível intercessão de Jesus, nosso Sumo-Sacerdote: "porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado. Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno." (4:15-16).

2Pe 2:1 nega a Expiação Eficaz?

Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. 2Pe 2:1

Embora esse seja um texto difícil, ele é na verdade muito ambíguo. O caso contra a expiação limitada a partir desse versículo não é tão grande quanto parece.

Primeiro, não é claro o que Pedro quer dizer exatamente quando escreve que os falsos mestres foram “resgatados”. É verdade que 1 Coríntios 6:20 e outros versículos usam “resgatou” como uma referência ao que Cristo fez em Sua morte. Mas isso não significa que a palavra seja usada dessa forma sempre que aparece na Escritura.

Como John Owen apontou em The Death of Death in the Death of Christ [A Morte da Morte na Morte de Cristo], a palavra usada para dizer que os falsos mestres foram “resgatados” pode ser usada para denotar qualquer tipo de libertação, e não indica necessariamente que eles foram comprados pelo sangue de Cristo. Baseado no contexto, pode ser melhor entender a declaração que os falsos mestres foram “resgatados”, não como uma referência à morte de Cristo, mas uma referência a algum outro ato de libertação – tal como a libertação, pela bondade de Deus, da idolatria do mundo. Observe como mais tarde Pedro refere-se aos falsos mestres como tendo experimentado uma forma de “libertação” no fato de “terem escapado das contaminações do mundo” mediante o conhecimento do evangelho (v. 20). Esse versículo não está se referindo à salvação, mas à reforma exterior sem nenhuma realidade interior final. Essas pessoas não tiveram suas naturezas transformadas, de forma que retornaram ao lamaçal como um porco. Todos nós conhecemos muitos não-salvos que por um tempo reformaram suas vidas, mas logo voltaram ao seu velho caminho. Em 2:20 Pedro está dizendo que os falsos mestres são assim; e dessa forma, em 2:1 é possível que a “libertação” ou “resgate” desses falsos mestres refira-se ao fato deles terem escapado da poluição do mundo e assim, não tem nenhuma referência quanto a Cristo ter comprado-os com Seu sangue ou não.

Há outra possibilidade também. Wayne Grudem apresenta uma boa defesa argumentando que Pedro está se referindo ao Êxodo em 2 Pe. 2:1. Pois Pedro compara os falsos profetas que se levantariam na igreja aos falsos profetas que se levantaram em Israel: “Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres”. No Antigo Testamento, toda a nação de Israel, e assim até mesmo os falsos mestre nela, era considerada como tendo sido “resgatada” por Deus das mãos do Egito no Êxodo. Por meio dessa libertação, Deus “resgatou” a nação de Israel, e assim Israel pertencia por direito a Deus como Seu povo peculiar. Vemos isso em Deuteronômio 32:6, que é provavelmente a passagem a qual Pedro está aludindo: “É assim que recompensas ao SENHOR, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai, que te adquiriu, te fez e te estabeleceu?”. Deus “adquiriu” Israel não pela morte de Cristo, mas, como diz o texto, por formar a nação. Isso é evidente a partir de Êxodo 15:16 também, que fala do Êxodo como o ato de Deus pelo qual ele “adquiriu” Israel: “Sobre eles cai espanto e pavor; pela grandeza do teu braço, emudecem como pedra; até que passe o teu povo, ó SENHOR, até que passe o povo que adquiriste”.

Assim, a nação de Israel era considerada “resgatada” por Deus, por causa do Êxodo. Visto que 2 Pedro 2:1 está comparando os falsos mestres que se levantaram na igreja com os falsos profetas que se levantaram em Israel, não poderia ser que Pedro está dizendo que esses profetas seriam da nação de Israel – isto é, aqueles que foram “resgatados” no Êxodo? Ou, talvez ele não possa estar dizendo que esses falsos mestres estarão na igreja numa posição análoga àqueles em Israel que tinham sido “resgatados” no Êxodo?

A despeito disso, vemos que há muitas coisas diferentes que Pedro poderia desejar dizer, quando diz que os falsos mestres foram “resgatados” pelo Senhor. Por causa dessa ambigüidade, não seria sábio tomar essa passagem como negando a expiação limitada. De fato, à luz do claro ensino em outras partes da Escritura que a expiação limitada é verdadeira, seria melhor interpretar essa passagem ambígua à luz daquelas.

Segundo, é também ambíguo se Pedro está se referindo a Deus o Pai, ou a Cristo, como o Senhor que os resgatou, quando ele diz que eles chegaram “até ao ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou”. De fato, é provável que o “Soberano Senhor” que Pedro diz ter resgatado esses falsos mestres seja uma referência a Deus o Pai, não a Cristo. Isso porque nos versículos seguintes Deus o Pai é mencionado e a palavra grega para Senhor usada aqui nunca é usada para Cristo, mas somente para o Pai (veja The Death of Death in the Death of Christ, de John Owen). Esse entendimento está também mais de acordo com a alusão a Deuteronômio 32:6, onde Deus o Pai está em vista e é dito ter “adquirido” Israel.

Se Pedro está dizendo que Deus o Pai resgatou esses falsos mestres, isso não pode ser uma referência à expiação. Por quê? Porque a expiação foi feita por Jesus, não pelo Pai. Assim, aqui está outra razão pela qual é provável que o resgate mencionado aqui não seja uma referência à morte de Cristo.

Terceiro, é ambíguo se Pedro está falando da realidade de um resgate, ou sobre a aparência de um resgate – isto é, a aparência e profissão exterior deles. Em outras palavras, o versículo pode significar “negando o Senhor que [dizem eles] os resgatou [mas na verdade não o fez]”, ou pode ter a intenção de confirmar que esses falsos mestres viriam de dentro da igreja visível. Falar deles como “resgatados”, então, não significaria que Cristo morreu para salválos, mas que eles ocupavam uma posição que supostamente deve se ocupada somente por aqueles que foram resgatados.

Assim, temos visto que há três ambigüidades grandes em 2 Pedro 2:1. Primeiro, não está claro se o resgate desses falsos mestres é uma referência à morte de Cristo ou não. Segundo, não está claro se aquele que os “resgatou” é mesmo Cristo, ou apenas o Pai. Terceiro, não está claro se Pedro está falando segundo a realidade ou aparência.

Por causa dessas ambigüidades imensas em 2 Pedro 2:1, esse não é um texto sólido contra a expiação limitada. Há muitas coisas que o versículo poderia significar legitimamente, e não seria sábio usá-lo como um argumento contra a verdade da expiação limitada.

Equipe Desiring God

Pode o homem converter a si mesmo?

"Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo, os seus pensamentos; converta-se ao Senhor, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar" Is 55:7

Os arminianos utilizam essa passagem para argumentar que o homem caído pode buscar a Deus antes de se converter. Isto está em flagrante contradição com Paulo que diz que "não há quem busque a Deus" (Rm 3:11). E sabemos que a Palavra de Deus não se contradiz.

O que devemos notar, em primeiro lugar, é que o texto não diz que o homem é capaz de voltar-se a Deus por si mesmo, mas que ele deve voltar-se para o Senhor. O texto fala sobre o que ele tem que fazer, e não que ele é capaz de fazer e nem como isso é feito. Não devemos ir além de onde a própria Palavra vai.

Em segundo lugar, observemos que o contexto nos diz que o homem não pode alcançar o padrão divino, "porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o Senhor, porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos" (Is 55:8-9). O homem, por si mesmo, é incapaz de compreender a vontade de Deus e de trilhar os caminhos de Deus de volta a Ele.

Porém, Deus mesmo se encarrega de resolver isso, dizendo que "assim como descem a chuva e a neve dos céus e para lá não tornam, sem que primeiro reguem a terra, e a fecundem, e a façam brotar, para dar semente ao semeador e pão ao que come, assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei" (Is 55:10-11).

Resumindo, o versículo 7 fala do dever do homem, os versículos 8 e 9 da sua incapacidade de cumprir com esse dever, em seguida os versos 10 e 11 falam da solução de Deus (a eficácia de sua Palavra) e finalmente, o versículo 12 apresenta o resultado dessa operação divina: "saireis com alegria e em paz sereis guiados" (Is 55:12).

Seria Deus injusto?


"Há injustiça da parte de Deus?" Rm 9:14

Muitos tem dificuldades em aceitar algumas afirmações da Bíblia, pois entendem que se forem tomadas em seu sentido natural fazem de Deus injusto. As que tratam da eleição soberana são as que mais trazem dificuldades aos cristãos sinceros, preocupados em resguardar o Senhor da acusação de ser injusto.

A pergunta acima bem poderia ter sido feita por um desses crentes. Paulo citou as palavras de Deus: "Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú" (Rm 9:13). O senso comum é que Deus ama a todos os homens de igual maneira, portanto Ele afirmar que amava uma pessoa e se aborrecia de outra deporia contra a retidão de Seu caráter.


Quem conhece a história dos dois personagens sabe que, pela régua humana, se Jacó não fosse muito pior que Esaú, com certeza não seria o melhor dos dois. Desde o seu nascimento, passando pelo episódio da venda da primogenitura e chegando ao roubo da bênção paterna, Jacó era o típico aproveitador desonesto. Como poderia Deus amá-lo enquanto preteria seu irmão Esaú?
Para piorar, há o momento em que essa escolha se deu. Paulo diz que "ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal" (Rm 9:11) e Deus já manifestara à mãe dos garotos que "o mais velho será servo do mais moço" (Rm 9:12). Portanto, Paulo sabia que ouviria a acusação de injustiça contra Deus. Mas sua resposta é um enfático "de modo nenhum!" (Rm 9:14).

Como pode ser isso, se Deus amou a Jacó e odiou (este é o sentido exato da palavra no original) Esaú? A palavra chave para resolver o problema é misericórdia, que garantiu que "o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama" (Rm 9:11). Deus diz "terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão" (Rm 9:15).


Para dissipar qualquer nuvem que paire sobre o caráter de Deus, é preciso entender o que é justiça e o que é misericórdia. Justiça é dar a cada um o que é devido e como ninguém merecia a salvação, se Deus condenasse a todos, não seria nem um pouco injusto. Por outro lado, graça e misericórdia é dar a alguém aquilo que ele não merece. Como ninguém tem direito à misericórdia, não pode acusar Deus de injustiça. Por ser a eleição graciosa, os eleitos não tem do que se vangloriar, pois não mereceram a graça, nem os que foram preteridos podem reclamar, pois não tiveram direitos violados.

Portanto, Deus é misericordioso com muitos sendo justo com todos.

Dispostos ou destinados?


O caso de Atos 13:48
Clóvis Gonçalves

"Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna."

O versículo acima representa uma dificuldade para os que negam a predestinação para a vida eterna. Pois a leitura simples do texto dá a entender que alguns creram e o fizeram porque anteriormente haviam sido destinados para a vida eterna. Diante dessa dificuldade, alguns dizem que "haviam sido destinados" é uma tradução ruim, e que o texto é melhor traduzido "estavam dispostos". Ou seja, ao invés de crerem por terem sido destinados para a vida eterna, eles creram porque estavam mental ou emocionalmente dispostos a isso. Analisaremos a seguir se esta interpretação se sustenta à luz dos seguintes argumentos:

1. A expressão nas principais traduções e versões

As principais traduções e versões em português trazem "creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna", caso da Revista e Atualizada e da Tradução Brasileira. As Revista e Corrigida, Edição Contemporânea e Almeida Corrigida Fiel traduzem "creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna". A Nova Versão Internacional apresenta "creram todos os que haviam sido designados para a vida eterna" e a Nova Tradução na Linguagem de Hoje "creram todos os que tinham sido escolhidos para ter a vida eterna". A tradução em português "O Livro", da International Biblical Society diz que "creram todos os que Deus destinou para a vida eterna". A Edição Pastoral, da Paulus, traz "todos os que estavam destinados à vida eterna abraçaram a fé". Outra tradução católica, publicada pela Editora Vozes, traz "aceitando a fé todos que estavam destinados à vida eterna". Ainda outra Bíblia católica apresenta "creram todos quantos haviam sido destinados para a vida eterna".

De igual modo, as principais traduções em inglês usam palavras como "ordained", "appointed" , "destined" e "pre-destined". Nas Bíblias em espanhol o versículo é traduzido utilizando expressões cognatas às do português, como "ordenados" e "designados". As versões em italiano traduzem "ordinati" e "preordinati", sendo este último termo também utilizado na Nova Vulgata, a Bíblia oficial do Vaticano.


Se a absoluta maioria das traduções e versões bíblicas trazem palavras e expressões que indicam uma ação soberana de Deus na eternidade e sequer sugere que o versículo possa significar uma disposição prévia das pessoas em crer, por que fazer violência ao sentido natural do texto para adequá-lo a um sistema teológico ou modo de pensar? Será que os diversos tradutores da Bíblia para diversas línguas e as diversas comissões revisoras foram unânimes em errar usando uma palavra incorreta na passagem em questão? Acho essa hipótese muito pouco crível.


2. A palavra no original

O termo traduzido "ordenados" ou "destinados" é tetagmenoi, derivado de tasso. O Léxico de Strong define tasso como "colocar em ordem", "situar", "apontar", "designar". O termo ocorre em oito lugares no Novo Testamento e é traduzido como "designar" (Mt 28:16 RA), "sujeitar" (Lc 7:8 RA), "resolver" (At 15:2 RA), "ordenar" (At 22:10 RA), "marcar" (At 28:23 RA), "instituir" (Rm 13:1) e "dedicar" (1Co 16:15). Nada que se aproxime de "dispor-se a".


F. F. Bruce, no Novo Comentário da Bíblia, informa que o termo pode ter o sentido de "inscritos" e "arrolados", indicando para confrontação Ap 13:8 e 17:8. Os judeus usam a expressão "ordenados para a vida eterna" e "inscritos para a vida eterna" apenas como significando "predestinação ou eleição para a vida eterna" como um ato de Deus realizado na eternidade. O Jamieson, Fausset and Brown Commentary diz que sem fazer violência a ele, o texto não pode ser interpretado diferentemente de que "a divina ordenação para a vida eterna é a causa e não o efeito da fé dos homens".


3. O modo verbal

Vamos analisar a voz e o modo verbal das palavras crer e destinar. Crer está na voz ativa e no modo indicativo. A voz ativa representa o sujeito como o agente ou executor da ação e o modo indicativo é simples declaração de um fato, ou seja, indica que algo ocorre, ocorreu ou ocorrerá. Disso se conclui que as pessoas de fato creram naquele momento.
Destinados está no tempo perfeito, o que significa uma ação que é vista como tendo sido completada no passado, uma vez por todas, não necessitando ser repetida. A voz é passiva, ou seja, o sujeito da oração, recebe a ação ao invés de executá-la. Quer dizer, os que creram naquela ocasião haviam sido destinados para a vida eterna numa ocasião anterior .

Mesmo que se admita aqui que "destinados" pode ser traduzido como dispostos, ou seja, que as pessoas creram porque estavam dispostas a crer, não se resolve o problema dos arminianos, pois a voz passiva indica que, se fosse o caso, elas não estariam dispostas por si mesmas, mas foram feitas dispostas por outro sujeito.


4. O contexto

A declaração de Lucas faz parte de seu relato do acontecido em Antioquia da Pisídia. Paulo fala na sinagoga a judeus e prosélitos, discorrendo a história sagrada até chegar na remissão dos pecados e na justificação pela fé. Alguns deles creram e Paulo os exortou à perseverança na graça. No sábado seguinte, convidado que fora, Paulo novamente expõe a doutrina de Cristo, assistido agora, além dos judeus e prosélitos, por "quase toda a cidade" (At 13:44), o que causou inveja nos judeus. Então, Paulo se volta dos judeus aos gentios, que se alegram com isso. Dentre esses, muitos creram, a Lucas diz que foram "todos os que haviam sido destinados para a vida eterna" (At 13:48). Quem seriam esses "todos"? Creio que se refira àqueles dentre os "judeus e prosélitos" (At 13:43) e "gentios" (At 13:48) que creram, nos dois sábados.


É interessante notar que Lucas menciona casualmente a predestinação para a vida, no contexto do resumo da pregação de Paulo e do relato das conversões. Se por um lado não se possa dizer que Lucas pretendia ensinar predestinação aqui, por outro fica claro que a doutrina da eleição precedente à fé era algo comum aos crentes naqueles dias. Aquilo que hoje causa mal estar, era algo tido como normal para os crentes da igreja primitiva: Deus predetermina. A respeito da morte de Jesus, é dito que Ele foi "entregue pelo determinado designio e presciência de Deus" (At 2:23) e em oração reconheciam que aquilo que os homens ímpios fizeram a Jesus foi "o que a tua mão e o teu propósito determinaram" (At 4:28). Somente depois de "cumprirem tudo o que a respeito dEle estava escrito" (At 13:29) o tiraram da cruz. Ou seja, é com naturalidade que Lucas fala de ordenação para a vida eterna, visto que para ele Deus é "o Senhor, que faz conhecida essas coisas desde séculos" (At 15:8).

5. O testemunho geral das Escrituras

As Escrituras dão testemunho de uma escolha feita por Deus na eternidade e de uma chamada realizada na história. Por exemplo, Paulo diz aos tessalonicenses que "Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação" e que "também vos chamou mediante o nosso evangelho, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo" (1Ts 2:13-14). Consoante modo, escreve aos Romanos "Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou... E aos que predestinou, a esses também chamou" (Rm 8:29-30). Aos efésios ele disse que Deus "nos escolheu nele antes da fundação do mundo... em amor nos predestinou para ele" e completa que "depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa". (Ef 1:4-5, 9).

O reconhecimento da eleição se dá pelo atendimento convicto à chamada do evangelho (1Ts 1:4-5), pois o Deus "que nos salvou e nos chamou com santa vocação" o fez "conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos" (2Tm 1:9). Por crer que os que alcançam a salvação são os que antes foram eleitos e destinados à vida eterna é que o apóstolo dizia "tudo suporto por causa dos eleitos, para que também eles obtenham a salvação que está em Cristo Jesus, com eterna glória" (2Tm 2:10).
Pedro se dirige aos "eleitos segundo a presciência de Deus", a quem Deus "regenerou para uma viva esperança" (1Pe 1:2-3).

Eleição e chamada estão juntas também na segunda carta, onde ele recomenda "procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição; porquanto, procedendo assim, não tropeçareis em tempo algum" (2Pe 1:10).
Jesus falou a respeito da razão porque uns crêem e outros não crêem dizendo uns são "minhas ovelhas" e outros "não sois das minhas ovelhas", respectivamente. (Jo 10:26-27).

Conclusão


Creio que ficou demonstrado a fragilidade da afirmação de que o relato de Atos 13:48 fala de pessoas dispostas a crer. As principais traduções bíblicas, evangélicas e católicas, trazem destinados, apontados, ordenados à vida eterna, e não dispostos no sentido de inclinados a crer. O mesmo ocorre com as principais versões em línguas estrangeiras. O estudo do termo original, com auxílio de léxicos e verificação de outras ocorrências do termo no Novo Testamento também aponta para um ato de Deus e não uma atitude mental humana.

E mesmo que se admitisse, por um instante, que dispostos é uma tradução possível, o modo, a voz e o tempo verbal indicam que esse tornar disposto não é um ato da própria pessoa que creu. Se foram dispostas a crer, o foram por Deus e não de si mesmos. Além disso, a analogia da fé não deixa dúvidas que existe uma relação de causalidade entre ser eleito e crer, ou seja, crêem na história os que foram eleitos na eternidade.


Em vista do que foi exposto, as tentativas de amenizar a verdade expressa pela declaração lucana devem ser rejeitadas como mais um caso de eisegese, ou seja, fazer com que o texto signifique o que queremos que signifique, ao invés de aceitar o sentido natural do mesmo, claramente expresso, de que pessoas anteriormente destinadas à vida eterna, vieram a crer em momento oportuno.

Soli Deo Gloria

Acerca dos eleitos - 8


Respostas de Francisco Leonardo Schalkwijk, doutor em história e pastor emérito da Igreja Evangélica Reformada, por 40 anos missionário no Brasil. É autor de Confissão de Um Peregrino — para entender a eleição e o livre-arbítrio, que acaba de ser lançado pela Editora Ultimato.

Antes de sua ascensão aos céus, Jesus determinou a evangelização mundial e garantiu que todo aquele que “crer e for batizado será salvo” (Mc 16.16). Como relacionar o trabalho missionário com a eleição?

Sempre me lembro da ilustração feita por nosso idoso pastor na Holanda. Segundo ele, a eleição é como um portão. Do lado de fora do portão está escrito: “Vinde a mim”. Do lado de dentro está escrito: “Eu te chamei”. Por isso, como missionários, insistimos: “Entre pela porta da graça, meu amigo”. E depois, invariavelmente, o novo convertido reconhece: “Foi Ele quem me chamou, senão eu ainda estaria no mundo!”

Um dos primeiros pastores presbiterianos orava: “Senhor mostra-me os teus eleitos”. Aprendi com ele a orar pedindo que o Senhor me guie até aquela pessoa em cujo coração o Espírito Santo já está trabalhando. Daí aquele convite sincero e insistente: “Não fique na arquibancada, entre na seleção celestial!” Depois você vai descobrir: foi Ele quem me escolheu; foi Ele quem me amou antes de eu o amar. Para mim isso é o resumo da eleição (1 Jo 4.10, 19).

Fonte: Ultimato

Quando o livro da vida foi escrito?


O Apocalipse fala daqueles "cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida desde a fundação do mundo" (Ap 17:8). Há duas possibilidades aqui, interpretar a expressão como significando que os nomes de todos os salvos estavam registrados no Livro da Vida desde a fundação do mundo ou que o nome de cada pessoa é escrito quando o evangelista ora pelo decidido, pedindo a Deus que escreva o seu nome no livro da vida.

Esta última posição é a defendida pelo Pr. Ciro Sanches Zibordi, numa interessante série sobre o Livro da Vida, escrita sob uma ótica anti-calvinista (já que dizer sob uma ótica arminiana pode soar como zombaria).

Observemos um detalhe, antes da análise em si. A passagem em questão não fala dos que tiveram seus nomes escritos no Livro da Vida e sim dos que não tiveram os seus nomes registrados nesse memorial. A relevância disso terá que ficar para uma análise posterior.

A expressão "desde a fundação do mundo" no grego é "apo kataboles kosmou", composta por uma preposição, seguida de um substantivo e de seu complemento. É uma expressão relativamente comum no Novo Testamento, sendo que exatamente como em Ap 17:8 ocorre mais seis vezes (Mt 13:35; 25:34; Lc 11:50; Hb 4:3; 9:26; Ap 13:8). Uma leitura atenta dessas passagens demonstra que a idéia não é de algo que vem sendo realizado de forma continuada a partir da fundação do mundo, mas de algo considerado consumado desde esse momento, com possível excessão de Lucas 11:50.

Assim, quando o profeta disse "publicarei coisas ocultas desde a criação do mundo" (Mt 13:35) não estava se referido a segredos gradativamente ocultados, mas de algo completamente oculto desde o princípio. Quando Jesus disse que o reino dos benditos do Pai estava "preparado desde a fundação do mundo" (Mt 25:34) não pretendia que os discípulos entendessem que o reino era preparado para cada um deles quando se convertiam, mas que tudo já estava preparado quando esse mundo foi trazido à existência. O mesmo pode ser dito das obras "concluídas desde a fundação do mundo" (Hb 4:3), obras estas necessárias ao descanso dos santos. Deus não toma providências para o destino dos salvos no momento em que crêem, mas desde a fundação do mundo tudo está pronto. Isto inclui a morte de Cristo como provisão para a salvação, que embora se diga que "foi morto desde a fundação do mundo" (Ap 13:8) não singifica que Ele sofreu "muitas vezes desde a fundação do mundo" mas uma única "vez por todas" (Hb 9:26). Vimos que a idéia expressa pela frase "desde a fundação do mundo" enfatiza algo realizado de forma completa quando os fundamentos do mundo foram lançados e não algo que vem sendo feito desde então.

O pastor Ciro faz a sua tese depender da preposição "apo" e não da expressão completa. Porém, a classe de palavra que tem tempo e modo é o verbo, e é para ele que devemos nos voltar se quisermos saber quando e de que forma algo ocorre. Devemos perguntar ao texto "o que [não] ocorreu antes da fundação do mundo?" e a resposta é "nomes [não] foram escritos".

O verbo "gegraptai" está no tempo Perfeito e no modo Indicativo. O modo Indicativo, nos informa o Léxico Grego de Strong "é uma simples afirmação de fato. Se uma ação realmente ocorre ou ocorreu ou ocorrerá, será expressa no modo indicativo". Já o "Perfeito grego corresponde ao Perfeito na língua portuguesa, e descreve uma ação que é vista como tendo sido completada no passado, uma vez por todas, não necessitando ser repetida". Portanto, a passagem não se refere a algo que vem sendo feito a cada oração de pregador por um convertido, mas de algo que foi completado de forma cabal no passado. Se João quisesse enfatizar uma ação iniciada no passado e realizada ao longo do tempo teria usado o verbo no Aoristo, que aliás é o tempo (aspecto) mais comum no grego.

Concluimos que a expressão desde a fundação do mundo não significa "começando lá e continuando até o último convertido". Mas se refere a algo que estava concluíndo quando Deus lançou os fundamentos da terra, antes de criar o primeiro homem.

O livre-arbítrio é bíblico?


Num dos grupos que participo, alguém postou parte de um artigo do Pr. Ciro Sanches Zibordi em defesa do livre-arbítrio. O que segue é meu comentário, postado no grupo e reproduzido aqui para apreciação.


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Não gosto de responder a argumentos de quem não está no grupo, pois não se dá a oportunidade da pessoa contra-argumentar ou até mesmo esclarecer algum ponto mal entendido de suas palavras. Mesmo assim, vou comentar o seu post e publicar em meu blog, indicando ao autor caso queira se manifestar a respeito.


Não conheço o autor do artigo e escrevo sem atacar a sua pessoa, pois se o fizesse estaria pecando por falar mal de quem sequer conheço e suponho seja um homem de Deus, levantado para apascentar um rebanho do Senhor.

Portanto, no que segue nada há de pessoal.
Sendo assim, começo dizendo que o autor foi infeliz, ao começar o artigo dizendo que "certos irmãos predestinalistas tem zombado de quem crê na doutrina do livre-arbítrio", que "o que eles mais gostam de fazer é ridicularizar os seus irmãos" e que eles "chegam ao ponto de crer mais em Calvino que no Senhor Jesus". Generalizações são sempre ruins, pois há excesso e desrespeito de ambos os lados, mas não representam os santos que tem discordado amorosamente, buscando na Palavra de Deus uma compreensão mais clara sobre este importante e controvertido assunto.

O autor declara "você não entende o livre-arbítrio? Mas ele é bíblico!" e afirma mais adiante que "o livre-arbítrio é uma verdade bíblicocêntrica e cristalina". São afirmações fortes, e grandes declarações requerem provas robustas. Mas antes mesmo de considerar as provas apresentadas, convém deixar claro que o livre-arbítrio não é e nunca foi uma verdade central na escritura. Cristo é o centro da Bíblia, e se fôssemos comparar, a doutrina da soberania divina é sim presente na Bíblia, de Gênesis a Apocalipse. O termo livre-arbítrio, um sinônimo ou mesmo a idéia de livre-arbítrio jamais ocorre na Bíblia.


Nem tudo o que o autor diz em seu texto contraria o que eu creio. Além dos conselhos dados no final da mensagem, concordo plenamente quando ele diz que "foi Deus quem dotou o ser humano da livre-vontade (Gn 3)". Aliás todos os calvinistas que eu conheço ou tive oportunidade de ler crêem que o homem foi dotado de livre-arbítrio na criação.


As divergências começam quando, o autor afirma "mesmo depois da Queda, e os efeitos deletérios advindos dela, o ser humano continuou com esse atributo (Dt 30.19; Is 1.18,19)".
Antes de analisar esta declaração, convém definir o que é livre-arbítrio e o que não é.

Livre-arbítrio é a capacidade de todo pecador de escolher igualmente entre a salvação e a perdição, entre crer e descrer de Cristo. Não creio que o homem tenha essa capacidade. Mas livre-arbítrio não é, como confundem alguns, vontade, liberdade ou escolha. Não negamos que o homem tenha vontade, apenas que essa vontade seja naturalmente boa e livre. Não negamos que o homem seja livre, no sentido de que toma decisões livremente, de acordo com a sua natureza; apenas afirmamos que sua natureza está corrompida pelo pecado e por isso não decide em favor de Deus. E, finalmente, não negamos que o homem faça escolhas, mas discordamos que tenha poder de fazer boas escolhas espirituais. Em adição, afirmamos que essa incapacidade absoluta do homem é suplantada pela graça invencível do Senhor.


Tendo isso em mente, consideremos as passagens bíblicas colocadas como prova da biblicidade do livre-arbítrio. Mesmo sabendo que isso alonga o texto, prefiro transcrever os textos bíblicos, pois nem sempre o leitor tem uma Bíblia em mãos e pode se esquecer de confirmar as passagens depois.
Uma das passagens referenciadas pelo autor diz "os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência" Dt 30:19.

A passagem acima não ensina que o homem tem capacidade de fazer uma boa escolha espiritual, apenas que uma escolha foi posta diante dele. E o que eles escolheram? A história comprova que eles, escolhendo livremente de acordo com sua natureza caída optaram pela morte e maldição. Deus, que não precisa do testemunho da história, já sabia disso, pois disse a Moisés poucos versículos adiante: "eis que estás para dormir com teus pais; e este povo se levantará, e se prostituirá, indo após deuses estranhos na terra para cujo meio vai, e me deixará, e anulará a aliança que fiz com ele" (Dt 31:16). Deus não botava muita confiança no livre-arbítrio daquele povo. Moisés também não, pois acrescentou, dirigindo-se ao povo "porque conheço a tua rebeldia e a tua dura cerviz. Pois, se, vivendo eu, ainda hoje, convosco, sois rebeldes contra o Senhor, quanto mais depois da minha morte?" (Dt 31:27). O resto é história.


Diante de uma escolha, sem nenhuma coerção externa, decidindo de acordo com sua natureza, o povo escolheu pecar. Isto prova um livre-arbítrio capaz de escolher o bem? De jeito nenhum, se prova algo, prova exatamente o contrário.


O outro texto mencionado é "vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã. Se quiserdes e me ouvirdes, comereis o melhor desta terra" (Is 1:18-19). Em primeiro lugar, notemos que o versículo fala apenas que aquele que for, quiser e ouvir terá perdão de pecados e comerá do bem da terra. Nada diz sobre uma capacidade inata de ir, querer e ouvir. Outras partes da Bíblia mostram que o pecador não tem essa capacidade em si mesmo.

Mas o mesmo capítulo faz uma descrição do pecador que longe de retratá-lo com capacidade plena de escolher entre uma opção e outra, o mostra como incapacitado pela enfermidade do pecado. Nas palavras do Senhor "toda a cabeça está doente, e todo o coração, enfermo. Desde a planta do pé até à cabeça não há nele coisa sã, senão feridas, contusões e chagas inflamadas, umas e outras não espremidas, nem atadas, nem amolecidas com óleo" (Is 1:5-6). Se alguém disser que essa condição dele é apenas física e que espiritualmente ele está capacitado a fazer boas escolhas, então o Senhor diz, no mesmo capítulo, "o boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono da sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende" (Is 1:3). Se o homem nessa condição tem livre-arbítrio, muito mais o tem bois e jumentos, pois estes conhecem o seu dono, já o pecador não tem conhecimento nem entendimento que o capacite a fazer uma escolha pelo Senhor.

Porém, descuido muito maior o autor do texto teve ao afirmar: "e a condição hoje para a salvação em Cristo é — mediante o livre-arbítrio — arrepender-se e crer no evangelho (Jo 3.16,36; Mc 16.16; At 3.19; Rm 10.9,10; Ap 22.17)". Com essa afirmação, o autor atribui ao livre-arbítrio a capacidade de crer e se arrepender. Mas uma análise das passagens bíblicas referenciadas mostra que essas passagens não provam o que se pretende provar.


No capítulo 3 de João, Jesus diz que "Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3:36) e que "quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus" (Jo 3:36). Nada nessas passagens sequer sugere que o que leva a pessoa à fé é o livre-arbítrio. Tampouco quando diz "quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado" (Mc 16:16) ou ordena "arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados" (At 3:19) o livre-arbítrio é insinuado. De igual modo, a promessa "se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação" (Rm 10:9-10) não requer o livre-arbítrio, tão somente destaca a fé e a confissão como requisitos da salvação. E, finalmente, quando "o Espírito e a noiva dizem: Vem! Aquele que ouve, diga: Vem! Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida" (Ap 22:17) não fala nem sugere que é pelo poder do livre-arbítrio que alguém recebe a água da vida.

Em resumo, em nenhuma dessas passagens é dito que o arrependimento e a fé nascem ou ocorrem mediante o livre-arbítrio. Afirmar isso é impor um sentido que não era a intenção do autor, ou seja, é fazer eis-egese e não ex-egese.

Por outro lado, a Escritura deixa bem claro que tanto o arrependimento como a fé são dons de Deus e não produtos do livre-arbítrio. Inúmeras passagens provam isso. Paulo escreve aos crentes de Éfeso que nós cremos "segundo a eficácia da força do Seu poder" (Ef 1:19) e por isso pode afirmar "pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus" (Ef 2:8). Também aos filipenses ele escreveu "vos foi concedida a graça... de crerdes nEle" (Fp 1:29). Paulo não está inventando moda, pois Jesus já havia dito que "ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido" (Jo 6:65), derrubando assim a presunção de que é mediante o livre-arbítrio que alguém vai a Cristo.

Semelhante coisa pode ser dita do arrependimento, que não é obra de um livre-arbítrio bem utilizado, mas uma graça concedida pelo Senhor. Lucas registrou na segunda parte de seu livro que "também aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento para vida" (At 11:18). Paulo repreende aqueles que desprezam "a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?" (Rm 2:4). Certamente ele diria algo parecido aos que atribuem ao livre-arbítrio o arrepender-se quando "a tristeza segundo Deus" é que "produz arrependimento para a salvação" (2Co 7:10), ficando na "expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade" (2Tm 2:25).

Em conclusão, podemos ainda invocar o testemunho de Tiago de que "toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes" (Tg 1:17) e não da natureza caída do homem.

Para finalizar, o autor disse "portanto, caro irmão, seja humilde para reconhecer o seu equívoco interpretativo", o que não deixa de ser um excelente conselho. Faço votos de que ele reveja a sua posição e se concluir que equivocou-se na interpretação, tenha humildade para seguir o bom conselho que deu.

Soli Deo Gloria