Pode o crente perder a sua salvação?

Uma verdade bíblica que tem ficado cada vez mais esquecida em muitos púlpitos, e consequentemente, nos corações de muitos crentes, é a doutrina bíblica de que uma vez que alguém foi salvo por Cristo, foi salvo para sempre, e nada neste mundo é capaz de fazer com que a pessoa perca sua salvação.

Em João 10.28 e 29, o Senhor Jesus declara: “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebata da minha mão. Aquilo que o meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar”. E ainda em Romanos 8.35, o apóstolo Paulo declarou divinamente inspirado: “Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?”. Muitos outros textos bíblicos nos dão base para crermos que uma vez salvos por Cristo, somos (muito mais do que simplesmente “estamos”) salvos para sempre. De perdidos pecadores fomos transformados em herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo (Romanos 8.17).

Quando digo que creio que uma vez salvo estou salvo para sempre, imediatamente sou lembrado pelo Espírito Santo de que fui salvo para viver em santidade de vida (cf. Efésios 1.3 e 4) e não para viver libertinamente em pecado. Quem foi salvo por Cristo delicia-se com a nova vida que recebeu em Cristo e tem vontade de estar cada vez mais longe do pecado.

Se fosse possível mesmo perdermos a salvação, eu gostaria de saber qual o pecado que eu viesse a cometer seria o causador de tamanha calamidade. Será que uma mentirinha seria suficiente para me mandar para o inferno? Ou seria preciso um assassinato? Bem, mas, essa não é a questão principal que eu quero tratar aqui.

O que eu quero tratar é: porque será que as igrejas que pregam essa verdade (uma vez salvo, salvo para sempre) dessa forma, não são “populares”, não estão cheias de gente, enquanto que igrejas que pregam o contrário, a saber, que é possível perder a salvação estão abarrotadas de pessoas? Para ser honesto tenho de admitir que essa não é a única causa para esse fenômeno, mas, que é um fator crucial isso ninguém pode negar.

Matutando aqui chego a seguinte conclusão: quando alguém crê que pode perder a salvação está dando provas claras de que sua confiança está em si mesmo e não em Deus, ao passo que quem confia que está salvo para sempre descansa no poder e promessa de Deus.

Isto posto, quem crê que é possível perder a salvação também crê que basta voltar a trás e pedir perdão a Deus e tudo estará resolvido, e assim, essa pessoa se sente no controle da situação. Sua vida ainda é “sua”. E isso faz coro com as filosofias humanistas que encharcam as igrejas colocando o homem no centro de tudo. Ao passo que aquele que crê que está salvo para sempre porque Deus é fiel e poderoso para guardá-lo seguro até o fim (leia Judas v.24 e 25), aprende o quanto antes a confiar (entregar) sua vida aos cuidados de Deus, e, assim, sabe que o controle da sua vida está nas mãos de Deus. E admitamos, essa mensagem não é nem um pouco agradável aos ouvidos dessa geração que foi iludida com a mentira de que ela está no comando de seu destino.

Muito mais do que falar sobre as heresias pregadas por muitas igrejas hoje, o que eu quero é chamar a sua atenção para essa preciosa verdade de que ter a certeza da salvação inclui ter firmeza no propósito de obedecer aos mandamentos de Deus. Na linguagem bíblica: “Grande paz têm os que amam a Tua Lei; para eles não há tropeço” (Salmo 119.165).

Não tropece nas heresias. Confie plenamente sua vida aos cuidados do Deus que é imutável, e que em Sua soberania determinou que aqueles a quem Ele quis salvar vivessem confiantes em Sua Graça a qual os capacita plenamente a viverem de acordo com a Sua vontade.

Numa coisa estão certos os que creem que é possível perdermos a salvação: se você pecar, mas, arrependido buscar o perdão de Deus você será perdoado e voltará a desfrutar da comunhão com Ele. Para nós que cremos que é impossível perdermos a salvação, também é verdade que quando pecamos trazemos à nossa comunhão com Deus sérios prejuízos, porém, ao confessarmos nosso pecado, e arrependidos buscarmos o Seu perdão teremos restaurada a nossa comunhão com Ele.

Não permita que sua comunhão com Deus seja interrompida. Se porventura isso acontecer, corra para Deus, busque o Seu perdão e confesse o seu pecado a Ele, pois “…onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Romanos 5.20).

Rev. Olivar Alves Pereira

Por que não devo me tornar um calvinista?

Um artigo publicado pelo irmão Everton Edvaldo procura apresentar as razões pelas quais uma pessoa não deve se tornar calvinista. Depois de reconhecer que “o interesse pelo calvinismo tem crescido bastante”, causando um “aumento do número de adeptos inclusive por irmãos de igrejas pentecostais”, ele lista os motivos para se rejeitar “os cinco pontos da soteriologia reformada”. São eles:

1. Ele alega que o calvinismo não é uma doutrina bíblica. Mas ele começa esse ponto negando que “esteja afirmando que não haja nada no calvinismo que não seja bíblico” e dá como exemplo a doutrina bíblica da depravação total. Poucas linhas antes, porém, ele citou a depravação total como um dos pontos característicos da soteriologia reformada! Ele também diz que na defesa dos seus cinco pontos o calvinismo utiliza-se de “muitas passagens”, tanto no Antigo como no Novo Testamento. Em seguida ele se propõe demonstrar eleição incondicional como exemplo de falta de apoio bíblico. Ele admite que os calvinistas usam tanto passagens do Antigo como do Novo Testamento para apoiá-la. Ele diz que a maioria dos textos do Antigo Testamento que tratam de eleição não se refere a eleição para a salvação. Mas reconhece que “no Novo Testamento eles não encontram muita dificuldade para sustentar sua visão da eleição”.

Em resumo, ele admite que pelo menos num ponto os calvinistas são totalmente bíblicos e que para os outros contam com várias passagens bíblicas para apoiá-los, inclusive diz que na eleição incondicional não tem muita dificuldade em sustenta-la, ao contrário dos arminianos que precisam fazer uma exegese e interpretação de cada uma das muitas passagens. Agora, voltemos o argumento contra a posição dele. Que ele nos apresente uma lista de passagens bíblicas que declarem de forma expressa ou das quais se possa extrair, com boa exegese, a doutrina do livre-arbítrio, da graça preveniente, da fé como condição prevista para a eleição e da distinção entre salvo-eleito, precedida de uma clara definição de cada termo e então poderemos pesar o valor de seu motivo para rejeitar o calvinismo.

2. Ele afirma que o calvinismo não é conhecido pelos pais da igreja. A premissa do autor é que quanto mais antigo for um teólogo, mais pura é sua doutrina. Ledo engano. Apelar aos pais apostólicos, os mais antigos dos pais, é dar um tiro no pé. Quem de fato os leu percebe que distorceram a soteriologia paulina. Eu li, mas para que não fique somente a opinião de um calvinista, os arminianos Roger Olson e Justo González, para ficar apenas com dois deles, chegam a essa mesma conclusão.

Reconheço que os pais apostólicos e os pais apologistas não tomaram conhecimento do calvinismo. O mesmo ocorre em relação ao arminianismo. É anacrônico afirmar o contrário. Mas nada impede que os arminianos venham a endossar a soteriologia dos pais apostólicos, se ficam à vontade com desvios doutrinários. Que disputem com os católicos a posse dos pais apostólicos como precursores de sua teologia. Estamos bem servidos com Agostinho, a quem nenhum dos que o precederam faz sombra.

3. Ele acusa o calvinismo de ser historicamente propagador de intolerância. A acusação começa com Calvino, tendo como prova uma única citação de uma obra no mínimo questionável. E logo passa a acusar “os seus discípulos”, colocando Gomarus e Spurgeon no mesmo banco de réus. E fecha o caso com a “incontestável” prova de sua experiência, pela qual, afirma que de “cada dez calvinista que conheço, seis ou sete são intolerantes”. Abro mão de apresentar uma defesa das pessoas citadas, pois isso é irrelevante. O que o jovem afirma é que calvinismo leva à intolerância. Então, argumentos ad hominen à parte, quais das cinco doutrinas tem como implicação a intolerância? Se o autor afirma que o calvinismo propaga intolerância, então que apresente a lógica pela qual as doutrinas da graça produz intolerantes e, em contraposição, mostre como os pontos distintivos do arminismo contribuem para formar crentes mais tolerantes.

4. Ele informa que o calvinismo não é a única alternativa teológica para a mecânica da salvação. E isto e um fato. Aliás, sequer o cristianismo é a única alternativa. Há outros sistemas, cristãos e não cristãos, que se propõem a explicar como o homem pode ser salvo. Porém, os sistemas não podem estar todos certos, na verdade, a maioria deles descamba no inferno. O arminianismo é um sistema aceitável, ainda que falho. O calvinismo não é apenas uma alternativa, mas é a que reflete com mais fidelidade o evangelho de Jesus Cristo. Mesmo assim, ninguém precisa ser ou declarar-se calvinista. Basta que leia e creia no que a Bíblia diz. Esse é o conselho que tenho dado por vários anos.

Na sua conclusão, o autor diz que ninguém se torna calvinista lendo a Bíblia. A base de sua afirmação? Sua “longa e inquestionável” experiência. Eu conheço alguém creu na depravação total, na chamada eficaz, na segurança da salvação lendo apenas a Bíblia. E quando leu uma lição da escola dominical que explicava a doutrina da eleição, foi conferir na Bíblia e descobriu a eleição soberana. Isso antes de ter ouvido a palavra calvinismo, que aliás, quando ouviu foi de forma negativa e pensou que nunca seriam um.

Mas sim, há razões para você não ser um calvinista. A primeira delas é que terá que defender doutrinas desagradáveis aos ouvidos da maioria das pessoas. Um Deus que decide quem será salvo, que detém o controle de todas as coisas e que faz Sua vontade contra a vontade dos homens e que ainda assim pedirá contas de todas as suas criaturas não é algo que soe bem aos ouvidos delicados dos homens. A segunda delas é que você terá que mudar a visão otimista que tem das pessoas, a começar por você mesmo. Deverá reconhecer sua total incapacidade e absoluta dependência de Deus para cada detalhe de sua vida. A terceira, decorrente das primeiras, é que você nunca mais poderá se orgulhar de suas conquistas e vitórias, pois a glória por todas as suas realizações, grandes e pequenas, públicas ou particulares, deverá ser dada unicamente a Deus, além de ter que receber de bom grado todo mal que lhe ocorrer como vindo de Deus. Mas há uma única razão para que você seja um calvinista (embora jamais precise se denominar assim): o amor pela verdade.

Soli Deo Gloria

Luteranos e reformados

Apesar de toda a conformidade que há entre elas - que se estende até mesmo à confissão da predestinação — houve, desde o princípio, uma importante diferença entre a Reforma alemã e a suíça.

As diferenças nos países e nas pessoas em que Lutero e Zwínglio desempenharam seu papel, as diferenças entre os dois quanto à origem, formação, caráter e experiência contribuíram para separar seus caminhos. Não demorou muito para se tornar evidente que os dois reformadores tinham opiniões diferentes. Em 1529, em Marburg, um acordo tinha sido feito — mas somente no papel. E quando Zwínglio morreu e Calvmo, apesar de sua elevada consideração pela abordagem conciliatória de Lutero em relação à doutrina da Ceia do Senhor, basicamente se colocou ao lado de Zwinglio, a divisão entre o Protestantismo luterano e o reformado se aprofundou e se tornou um fato que não pôde mais ser negligenciado.

As pesquisas históricas sobre as diferenças características entre eles em anos recentes demonstraram claramente que, na base da separação, há uma diferença de princípio. Em épocas passadas, os eruditos simplesmente resumiam as diferenças dogmáticas sem reduzi-las a um princípio comum. Max Goebel, ao contrário, foi o primeiro a produzir uma explicação histórica e fundamental da diferença entre eles. Desde então, várias pessoas - Ullmann, Semisch, Hagenbach, Ebrard, Herzog, Schweizer, Baur, Schneckenburger, Guder, Schenkel, Schoeberlein, Stahl, Hundeshagen, para mencionar apenas alguns — continuaram essa pesquisa.

A diferença parece ser melhor comunicada dizendo que o cristão reformado pensa teologicamente, e o luterano, antropologicamente. A pessoa reformada não se contenta com um ponto de vista exclusivamente histórico, mas eleva seus olhos para a ideia, para o eterno decreto de Deus. Em contraste, o luterano toma sua posição no meio da história da redenção e não sente necessidade de entrar mais profundamente no conselho de Deus. Para o reformado, portanto, a eleição é o coração da igreja; para o luterano, a justificação é o artigo pelo qual a igreja fica de pé ou cai. Entre os reformados, a questão primária é: Como a glória de Deus pode ser promovida? Entre os luteranos, a questão é: Como o ser humano obtém a salvação? A luta dos reformados é, acima de tudo, contra o paganismo — idolatria; a dos luteranos, contra o Judaísmo — justificação pelas obras. O reformado só descansa quando consegue seguir o curso de todas as coisas retrospectivamente até chegar ao decreto de Deus, indo ao encalço do "motivo" das coisas, e, prospectivamente, fazer todas as coisas serem subservientes à glória de Deus; o luterano se contenta com o "o que" e desfruta a salvação da qual ele, pela fé, é um participante.

A partir dessa diferença de princípio, as controvérsias dogmáticas entre eles com respeito à imagem de Deus, pecado original, pessoa de Cristo, ordem da salvação, sacramentos, governo eclesiástico, ética, etc.) podem ser facilmente explicadas.

Herman Bavink
In: Dogmática Reformada

Filipenses 2:13 está traduzido errado?

Um artigo recente procura mostrar que o entendimento calvinista de Filipenses 2:13 erra por se basear na interpretação incorreta do termo energon.  A palavra traduzida como “efetua” (ARA e NVI), “opera” (ARC e TB) e “age” (NTLH) deveria, segundo o artigo, ser traduzido como "energizar", "permitir agir" ou "empoderar".  Ele reconhece que em outras passagens (p. ex. Mt 14:2) o termo também é traduzido como "operar", mas aí o correto seria "estar presente" ou "dar condições". Finalmente, faz-se uma analogia com "um ambiente de trabalho harmonioso", o qual favorece que uma pessoa explosiva torne-se calma, mas não garante que isso aconteça.

Trata-se do mesmo erro identificado por Calvino já em seus dias: “E assim fazem uma divisão entre Deus e o homem: aquele, por seu poder, insufla a este um movimento pelo qual possa agir de conformidade com a natureza nele infundida; este, porém, governa suas ações por determinação da própria vontade. Em suma, querem que o universo, as coisas humanas e os próprios homens sejam governados pelo poder de Deus, porém não por sua determinação”.

Antes de prosseguir com uma defesa das traduções que temos, convém enfatizar que de forma alguma os calvinistas anulam a responsabilidade humana, deixando de lado o versículo 12, onde nos é dito “desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor” (Fp 2:12). Mantemos as duas verdades: Deus é quem opera o nosso querer e o nosso efetuar e nós somos responsáveis por desenvolver nossa salvação com temor e tremor. Mas o artigo dá a impressão que para enfatizar esta última é necessário enfraquecer a primeira, o que evidentemente não é o caso. Isto posto, façamos algumas considerações sobre a afirmação de que as traduções que temos são incorretas.

Consideremos, primeiro, que uma tradução falha não deve ser admitida tão facilmente, levando-se em conta que quase todas as versões e traduções concordam entre si. Além das anteriormente mencionadas, encontramos "realiza" (Católica), "operatur" (Vulgata), "obra" (Biblia del Oso, 1569; Reina-Valera, 1909; Latinoamericana de Hoy, Biblia de las Americas), "hace nacer" (Dios Habla Hoy),  "trabaja" (Nueva Traducion Viviente), "produce" (Siglo de Oro; Biblia Textual, Reina-Valera, 1995), "opera" (Giovanni Diodati, 1649; Riveduta) "produit" (Louis Segond), "worketh" (AV, 1873; KJV; Webster), "work" (Good News; RSV; NRSV; Lexham), "working" (CEV; New Century; Holman Christian; New Living; Darby) e "works" (NKJ; NIV; ESV). Parece improvável que traduções de tão variadas épocas, idiomas e tradições tenham sido tão unanimes em traduzir incorretamente um termo.

Em segundo lugar, o termo ocorre em diversos locais no texto sagrado, com o sentido usado na passagem em apreço. Inclui ocorrências do Antigo Testamento grego (LXX), do Novo Testamento e, para além das escrituras canônicas, nos Pais Apostólicos. Toca aos levitas adultos "fazerem o seu serviço" (Nm 8:24) e a mulher virtuosa "faz bem e não mal" ao seu marido (Pv 29:30).  O próprio Deus diz “Quem fez e executou tudo isso? Aquele que desde o princípio tem chamado as gerações à existência, eu, o SENHOR, o primeiro, e com os últimos eu mesmo.” (Is 41.4). Nessas passagens, a tradução grega usa energon. Do Novo Testamento já foi mencionado Mt 14:2, que com a passagem paralela de Mc 6:14 declaram que em João Batista "operam forças miraculosas". Em Rm 7:5 paixões pecaminosas "operavam em nossos membros" e em 1Co 12:6,11 "Deus opera tudo em todos" e o "Espírito realiza todas estas coisas". Na segunda carta, 2Co 1:6 e 2Co 4:12 a tradução traz "torna eficaz" e "opera", respectivamente. Nas duas ocorrências de Gálatas, Deus "opera milagres" (Gl 3:5) e a fé "atua" (Gl 5:6). Em Efésios Deus "faz todas as coisas" (Ef 1:11), "fazendo-O assentar à Sua direita" (Ef 1:20), e é "poderoso para fazer infinitamente mais" (Ef 3:20), enquanto que Satanás é "o espírito que agora atua nos filhos da desobediência" (Ef 2:20).  Em Cl 1:19 o apóstolo refere-se à "eficácia que opera eficientemente" nele, enquanto que a Palavra de Deus está "operando eficazmente" nos crentes da Tessalônica (1Ts 2:13). Na carta seguinte (2Ts 2:7), ele lembra que o "mistério da iniquidade já opera". Finalmente, Tiago 5:16 lembra da eficácia da oração do justo. Conclui-se que a Bíblia é consistente em traduzir energon como “operar” ou equivalente.

Terceiro, e sem desmerecer o conhecimento de grego do autor do artigo e sendo eu próprio deficiente nessa área, consultei o significado dado à palavra pelos mais entendidos. Strong diz que o termo significa "ser eficaz, atuar, produzir ou mostrar poder, efetuar e exibir a atividade de alguém, mostrar-se operativo". Moulton (M-M) diz que o termo traz a ideia de "trabalho efetivo". Para Swanson (DBL), na passagem em foco significa "produzir, fazer que exista".  Para Thomas (NASB), o termo indica "estar trabalhando, trabalhar, fazer".  Liddell (AIGEL) entende a palavra como "estar em ação, operar". O Lexham Analytical Lexicon traduz simplesmente "operar". Para Ortiz (CMDGE), significa "operar, agir, exercer atividade, mostrar poder". Tuggy (LGENT) lista como significados "atuar, operar, ser eficaz, produzir, realizar". Para Cremer (BTLNTG), o termo significa "efetuar, mostrar a própria força" e no caso específico em estudo, "a operação espiritual de Deus no indivíduo". Kittel (CNT) diz que o verbo significa "atuar, estar em ação". Pelo visto, as obras de referência consultadas concordam com o significado adotado pelas traduções e versões bíblicas.

A quarta consideração a ser feita é que o autor ignorou que a palavra energon ocorre duas vezes no mesmo versículo. Tanto a palavra "efetuar" como "realizar" são traduções do mesmo verbo. Assim, se o primeiro "efetuar" tem o mero sentido de "energizar", "permitir agir" ou "empoderar", sem nenhum sentido de orientação ou efetivação, o segundo “realizar” deve ter o mesmo sentido, uma vez que é o mesmo verbo em ambos os casos.

Em quinto lugar, podemos deixar que alguns comentaristas se pronunciem a respeito dessa passagem. Agostinho, citado por Vincent, diz que "nós queremos, mas Deus opera o querer em nós, nós realizamos, mas Deus operar o realizar em nós". O próprio Vincent entende que "o verbo significa operação eficaz".

Calvino comenta que "Deus não apenas assiste à vontade fraca, ou corrige à depravada, mas ainda opera em nós o querer". Noutro lugar ele diz que "a primeira parte de uma boa obra é a vontade; a segunda, o firme empenho em executá-la: Deus é o autor de ambos. Portanto, furtamos ao Senhor, se algo arrogamos para nós, seja na vontade, seja na execução". Para Armínio, "as Escrituras atribuem à graça divina aquilo que, nos regenerados, opera, não apenas para o querer, mas também para o fazer", e ainda "assim, em relação à capacidade de querer e à vontade propriamente dita: “Deus é o que opera em vós, etc.”

Endriksen diz que "esta palavra indica o exercício efetivo do poder". Ele faz um paralelo com o paralítico de João 5 que "não podia caminhar, mas que pela voz de Jesus se levantou, tomou seu leito e começou a andar" e conclui o pensamento citando os Cânones de Dort, que dizem que "a vontade, sendo então renovada, não só é movida e conduzida por Deus, mas também, como consequência dessa influência, chega a ser ativa ela mesma".

Barkley, por sua vez, diz que "a palavra grega traduzida efetuar e realizar é a mesma: energein. Sobre este verbo se têm que notar duas coisas importantes: sempre se usa com respeito à ação de Deus; e sempre se aplica a uma ação efetiva. Todo o processo da salvação é uma ação de Deus e esta ação é efetiva porque é sua ação. A ação de Deus não pode frustrar-se nem ficar inconclusa; deve ser plenamente efetiva". O pentecostal Elienai Cabral afirma que "a expressão “opera em vós” identifica a obra exclusiva de Deus. E Ele quem opera, quem realiza, quem efetua “tanto o querer como o efetuar”. Essa declaração descreve um propósito de Deus para com os cristãos. Ele efetua nos crentes o querer, a vontade de obedecer e desenvolver a salvação".

Concluindo, afirmamos que a tradução operar ou efetuar não é incorreta, pois é adotada por quase todas as versões e traduções e de forma consistente nas várias ocorrências do termo, tanto no Antigo como no Novo Testamento, tendo a concordância de lexicógrafos e comentaristas de diversas tradições teológicas.

Soli Deo Gloria