Filipenses 2:13 está traduzido errado?

Um artigo recente procura mostrar que o entendimento calvinista de Filipenses 2:13 erra por se basear na interpretação incorreta do termo energon.  A palavra traduzida como “efetua” (ARA e NVI), “opera” (ARC e TB) e “age” (NTLH) deveria, segundo o artigo, ser traduzido como "energizar", "permitir agir" ou "empoderar".  Ele reconhece que em outras passagens (p. ex. Mt 14:2) o termo também é traduzido como "operar", mas aí o correto seria "estar presente" ou "dar condições". Finalmente, faz-se uma analogia com "um ambiente de trabalho harmonioso", o qual favorece que uma pessoa explosiva torne-se calma, mas não garante que isso aconteça.

Trata-se do mesmo erro identificado por Calvino já em seus dias: “E assim fazem uma divisão entre Deus e o homem: aquele, por seu poder, insufla a este um movimento pelo qual possa agir de conformidade com a natureza nele infundida; este, porém, governa suas ações por determinação da própria vontade. Em suma, querem que o universo, as coisas humanas e os próprios homens sejam governados pelo poder de Deus, porém não por sua determinação”.

Antes de prosseguir com uma defesa das traduções que temos, convém enfatizar que de forma alguma os calvinistas anulam a responsabilidade humana, deixando de lado o versículo 12, onde nos é dito “desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor” (Fp 2:12). Mantemos as duas verdades: Deus é quem opera o nosso querer e o nosso efetuar e nós somos responsáveis por desenvolver nossa salvação com temor e tremor. Mas o artigo dá a impressão que para enfatizar esta última é necessário enfraquecer a primeira, o que evidentemente não é o caso. Isto posto, façamos algumas considerações sobre a afirmação de que as traduções que temos são incorretas.

Consideremos, primeiro, que uma tradução falha não deve ser admitida tão facilmente, levando-se em conta que quase todas as versões e traduções concordam entre si. Além das anteriormente mencionadas, encontramos "realiza" (Católica), "operatur" (Vulgata), "obra" (Biblia del Oso, 1569; Reina-Valera, 1909; Latinoamericana de Hoy, Biblia de las Americas), "hace nacer" (Dios Habla Hoy),  "trabaja" (Nueva Traducion Viviente), "produce" (Siglo de Oro; Biblia Textual, Reina-Valera, 1995), "opera" (Giovanni Diodati, 1649; Riveduta) "produit" (Louis Segond), "worketh" (AV, 1873; KJV; Webster), "work" (Good News; RSV; NRSV; Lexham), "working" (CEV; New Century; Holman Christian; New Living; Darby) e "works" (NKJ; NIV; ESV). Parece improvável que traduções de tão variadas épocas, idiomas e tradições tenham sido tão unanimes em traduzir incorretamente um termo.

Em segundo lugar, o termo ocorre em diversos locais no texto sagrado, com o sentido usado na passagem em apreço. Inclui ocorrências do Antigo Testamento grego (LXX), do Novo Testamento e, para além das escrituras canônicas, nos Pais Apostólicos. Toca aos levitas adultos "fazerem o seu serviço" (Nm 8:24) e a mulher virtuosa "faz bem e não mal" ao seu marido (Pv 29:30).  O próprio Deus diz “Quem fez e executou tudo isso? Aquele que desde o princípio tem chamado as gerações à existência, eu, o SENHOR, o primeiro, e com os últimos eu mesmo.” (Is 41.4). Nessas passagens, a tradução grega usa energon. Do Novo Testamento já foi mencionado Mt 14:2, que com a passagem paralela de Mc 6:14 declaram que em João Batista "operam forças miraculosas". Em Rm 7:5 paixões pecaminosas "operavam em nossos membros" e em 1Co 12:6,11 "Deus opera tudo em todos" e o "Espírito realiza todas estas coisas". Na segunda carta, 2Co 1:6 e 2Co 4:12 a tradução traz "torna eficaz" e "opera", respectivamente. Nas duas ocorrências de Gálatas, Deus "opera milagres" (Gl 3:5) e a fé "atua" (Gl 5:6). Em Efésios Deus "faz todas as coisas" (Ef 1:11), "fazendo-O assentar à Sua direita" (Ef 1:20), e é "poderoso para fazer infinitamente mais" (Ef 3:20), enquanto que Satanás é "o espírito que agora atua nos filhos da desobediência" (Ef 2:20).  Em Cl 1:19 o apóstolo refere-se à "eficácia que opera eficientemente" nele, enquanto que a Palavra de Deus está "operando eficazmente" nos crentes da Tessalônica (1Ts 2:13). Na carta seguinte (2Ts 2:7), ele lembra que o "mistério da iniquidade já opera". Finalmente, Tiago 5:16 lembra da eficácia da oração do justo. Conclui-se que a Bíblia é consistente em traduzir energon como “operar” ou equivalente.

Terceiro, e sem desmerecer o conhecimento de grego do autor do artigo e sendo eu próprio deficiente nessa área, consultei o significado dado à palavra pelos mais entendidos. Strong diz que o termo significa "ser eficaz, atuar, produzir ou mostrar poder, efetuar e exibir a atividade de alguém, mostrar-se operativo". Moulton (M-M) diz que o termo traz a ideia de "trabalho efetivo". Para Swanson (DBL), na passagem em foco significa "produzir, fazer que exista".  Para Thomas (NASB), o termo indica "estar trabalhando, trabalhar, fazer".  Liddell (AIGEL) entende a palavra como "estar em ação, operar". O Lexham Analytical Lexicon traduz simplesmente "operar". Para Ortiz (CMDGE), significa "operar, agir, exercer atividade, mostrar poder". Tuggy (LGENT) lista como significados "atuar, operar, ser eficaz, produzir, realizar". Para Cremer (BTLNTG), o termo significa "efetuar, mostrar a própria força" e no caso específico em estudo, "a operação espiritual de Deus no indivíduo". Kittel (CNT) diz que o verbo significa "atuar, estar em ação". Pelo visto, as obras de referência consultadas concordam com o significado adotado pelas traduções e versões bíblicas.

A quarta consideração a ser feita é que o autor ignorou que a palavra energon ocorre duas vezes no mesmo versículo. Tanto a palavra "efetuar" como "realizar" são traduções do mesmo verbo. Assim, se o primeiro "efetuar" tem o mero sentido de "energizar", "permitir agir" ou "empoderar", sem nenhum sentido de orientação ou efetivação, o segundo “realizar” deve ter o mesmo sentido, uma vez que é o mesmo verbo em ambos os casos.

Em quinto lugar, podemos deixar que alguns comentaristas se pronunciem a respeito dessa passagem. Agostinho, citado por Vincent, diz que "nós queremos, mas Deus opera o querer em nós, nós realizamos, mas Deus operar o realizar em nós". O próprio Vincent entende que "o verbo significa operação eficaz".

Calvino comenta que "Deus não apenas assiste à vontade fraca, ou corrige à depravada, mas ainda opera em nós o querer". Noutro lugar ele diz que "a primeira parte de uma boa obra é a vontade; a segunda, o firme empenho em executá-la: Deus é o autor de ambos. Portanto, furtamos ao Senhor, se algo arrogamos para nós, seja na vontade, seja na execução". Para Armínio, "as Escrituras atribuem à graça divina aquilo que, nos regenerados, opera, não apenas para o querer, mas também para o fazer", e ainda "assim, em relação à capacidade de querer e à vontade propriamente dita: “Deus é o que opera em vós, etc.”

Endriksen diz que "esta palavra indica o exercício efetivo do poder". Ele faz um paralelo com o paralítico de João 5 que "não podia caminhar, mas que pela voz de Jesus se levantou, tomou seu leito e começou a andar" e conclui o pensamento citando os Cânones de Dort, que dizem que "a vontade, sendo então renovada, não só é movida e conduzida por Deus, mas também, como consequência dessa influência, chega a ser ativa ela mesma".

Barkley, por sua vez, diz que "a palavra grega traduzida efetuar e realizar é a mesma: energein. Sobre este verbo se têm que notar duas coisas importantes: sempre se usa com respeito à ação de Deus; e sempre se aplica a uma ação efetiva. Todo o processo da salvação é uma ação de Deus e esta ação é efetiva porque é sua ação. A ação de Deus não pode frustrar-se nem ficar inconclusa; deve ser plenamente efetiva". O pentecostal Elienai Cabral afirma que "a expressão “opera em vós” identifica a obra exclusiva de Deus. E Ele quem opera, quem realiza, quem efetua “tanto o querer como o efetuar”. Essa declaração descreve um propósito de Deus para com os cristãos. Ele efetua nos crentes o querer, a vontade de obedecer e desenvolver a salvação".

Concluindo, afirmamos que a tradução operar ou efetuar não é incorreta, pois é adotada por quase todas as versões e traduções e de forma consistente nas várias ocorrências do termo, tanto no Antigo como no Novo Testamento, tendo a concordância de lexicógrafos e comentaristas de diversas tradições teológicas.

Soli Deo Gloria

Livre-arbítrio: um guia para iniciantes

Antes da queda de Adão, o homem era sem pecado e capaz de não pecar. Pois, “viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gênesis 1.31). Mas o homem também era capaz de pecar. Porque Deus disse: “no dia em que dela [da árvore] comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2.17).

Assim que Adão caiu em pecado, a natureza humana foi profundamente alterada. Agora o homem era incapaz de não pecar. Na queda, a natureza humana perdeu a sua liberdade para não pecar.

Por que o homem é incapaz de não pecar? Porque após a queda “o que é nascido da carne é carne” (João 3.6), e “a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus; na verdade, ela não pode ser, e aqueles que estão na carne não podem agradar a Deus” (Romanos 8.7-8, tradução minha). Ou, como Paulo diz em 1Coríntios 2.14: “Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente”.

Observe o termo não pode que aparece duas vezes em Romanos 8.7-8 e outra vez em 1Coríntios 2.14. Esta é a natureza de todos os seres humanos quando nascemos — o que Paulo chama de “homem natural”, e Jesus chama de “nascido da carne”.

Rebelde demais para se submeter a Deus

Paulo diz que isso significa que nesta condição nós “não podemos agradar a Deus”, ou, dito de outra forma, “não somos capazes de não pecar”. A razão básica é que o homem natural prefere a sua própria autonomia e sua própria glória acima da soberania e da glória de Deus. Isto é o que Paulo intenciona quando diz: “a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita…”.

A submissão alegre à autoridade de Deus, e ao superior valor e beleza de Deus, é algo que não somos capazes de fazer. Isto não acontece porque somos impedidos de fazer o que gostaríamos. É porque nós preferimos a nossa própria autoridade, e estimamos o nosso próprio valor, acima de Deus. Não podemos preferir a Deus como extremamente valioso enquanto preferimos supremamente a nós mesmos.

A razão para esta preferência idólatra é que somos moralmente cegos para a glória de Cristo, de modo que não podemos valorizar a sua glória como superior à nossa. Satanás está empenhado para nos confirmar nesta preferência ofuscante. “O deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo” (2Coríntios 4.4). Assim, quando o homem natural olha para a glória de Deus, seja na natureza ou no evangelho, ele não vê beleza e valor supremos.

Para crermos, nós precisamos ver beleza

Esta é a razão fundamental pela qual o homem natural não pode crer em Cristo. Crer não é apenas afirmar a verdade sobre Jesus, mas também é ver a beleza e o valor de Jesus, de tal maneira que nós o recebemos como nosso tesouro supremo. A forma como Jesus expressou isso foi dizer: “Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim” (Mateus 10.37). Não existe uma relação salvífica com Jesus onde a fé não consiste em valorizar Jesus acima de seus mais queridos tesouros terrenos.

Onde esse despertamento para a glória e valor supremos de Jesus (chamado de “novo nascimento”) não aconteceu, o coração humano caído é incapaz de crer em Jesus. É por isso que Jesus disse aos que se opunham a ele: “Como podeis crer, vós os que aceitais glória uns dos outros e, contudo, não procurais a glória que vem do Deus único?” (João 5.44). Em outras palavras, você não pode crer em Jesus, enquanto você tem maior estima pela glória humana do que pela dele. Pois, crer é exatamente o oposto. Crer em Jesus significa recebê-lo como supremamente glorioso e valioso (João 1.12).

É por isso que o homem natural não pode agradar a Deus. Pois, ele não pode crer em Deus desta maneira. Ele não pode receber a Deus e seu Filho como extremamente valiosos. Mas a Bíblia diz: “sem fé é impossível agradar a Deus” (Hebreus 11.6). Ou, como Paulo diz, ainda mais enfaticamente, em Romanos 14.23: “tudo o que não provém de fé é pecado”.

A grande renovação por meio de Cristo

Portanto, a dura realidade é que os seres humanos, como nós nascemos — com uma comum natureza humana caída — não somos capazes de não pecar. Somos, como Paulo e Jesus afirmam: “escravos do pecado” (João 8.34; Romanos 6.20). O remédio para esta condição é a livre e soberana graça de Deus operando uma mudança na essência de nossa natureza caída.

Esta mudança miraculosa, comprada pelo sangue, operada pelo Espírito a partir da qual nós percebemos e preferimos é descrita de diversas formas no Novo Testamento. Por exemplo:

Deus iluminando nossos corações: “Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo” (2Corinthians 4.6).

Deus fazendo com que nasçamos de novo: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos” (1Pedro 1.3).

Deus nos ressuscitando dentre os mortos: “Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo” (Efésios 2.4-5).

O dom divino do arrependimento: “que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, mas também o retorno à sensatez, livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por ele para cumprirem a sua vontade” (2Timóteo 2.25-26).

O dom divino da fé: “Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele” (Filipenses 1.29).

O efeito dessa mudança miraculosa, operada Espírito é que nós já não somos cegos para a beleza e glória supremas de Cristo; já não preferimos a nossa própria autonomia em vez do governo soberano de Deus; já não amamos a criação de Deus mais do que o Criador; apegamo-nos a Cristo como extremamente valioso; nós confiamos em suas promessas; somos libertos da nossa escravidão à incredulidade e ao pecado, e finalmente, somos capazes de não pecar. “Porque o pecado não terá domínio sobre vós” (Romanos 6.14).

Uma definição de “livre-arbítrio”

Agora, onde o “livre-arbítrio” se encaixa nesta descrição bíblica da nossa condição no mundo?

Para responder a essa pergunta, precisamos de uma definição clara de “livre-arbítrio”. Pode ser útil oferecer três definições: Uma a partir do uso popular, uma a partir do uso bíblico comum e uma proveniente de uma discussão mais técnica.

Uma definição popular

Popularmente, o que a maioria das pessoas querem dizer quando perguntam sobre o livre-arbítrio? Eu penso que a maioria das pessoas quer dizer algo como isto: A nossa vontade é livre se as nossas preferências e nossas escolhas são realmente nossas, de tal forma que possamos ser justamente considerados responsáveis, sejam elas boas ou más. O oposto seria que as nossas preferências e escolhas não são nossas, mas que somos robôs ou fantoches não possuindo quaisquer atos significativos de preferência ou escolha.

Por essa definição, o livre-arbítrio existe tanto em seres humanos caídos quanto nos redimidos. Pois, o que a queda provocou não foi que deixamos de ser pessoas autênticas que preferem e escolhem, mas que a nossa rebelião nos inclina a preferir e escolher o mal. Todos preferem e escolhem de acordo com a sua natureza. Se a natureza é rebelde e insubordinada, como Paulo descreve em Romanos 8.7-8, nós preferimos e escolhemos de acordo com isso. Se a nossa natureza for libertada da rebelião, ela começa a preferir e escolher o que é verdadeiramente belo. Em ambos os casos, a nossa preferência e escolha é “nossa”, e somos “responsáveis” sejam elas boas ou más.

Uma definição bíblica

A segunda definição de livre-arbítrio, expressa na linguagem de Jesus e Paulo, é esta: A vontade humana é livre quando não está sob a escravidão de preferir e escolher irracionalmente. Ela é livre quando é libertada de preferir o que é infinitamente menos preferível do que Deus e de escolher o que levará à destruição. O oposto dessa visão seria que tais preferências e escolhas irracionais e suicidas devem ser chamadas de “liberdade”.

Com base nesta definição, somente aqueles que nasceram de novo têm livre-arbítrio. Esta é a forma que Jesus definiu a noção de liberdade em João 8.32: “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. E esta é a maneira como Paulo fala sobre liberdade em Romanos 6: “Mas graças a Deus porque, outrora, escravos do pecado, contudo, viestes a obedecer de coração à forma de doutrina a que fostes entregues; e, uma vez libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” (Romanos 6.17-18).

Uma definição técnica

A definição mais técnica de livre-arbítrio que algumas pessoas usam é esta: Nós temos livre-arbítrio, se em última instância ou decisivamente nos autodeterminamos, e as únicas preferências e escolhas pelas quais podemos ser responsabilizados são aqueles nas quais, finalmente ou decisivamente, nos autodeterminamos. A palavra-chave aqui é finalmente ou decisivamente. A questão não é apenas que as escolhas são autodeterminadas, mas que o eu é o final ou decisivo determinador de si mesmo. O oposto desta definição seria que Deus é o único ser que, em última análise, determina a si mesmo, e ele mesmo é, finalmente, o ordenador de todas as coisas, incluindo todas as escolhas, embora existam muitas ou diversas outras causas intervenientes.

Nesta definição, nenhum ser humano tem livre-arbítrio, em tempo algum. Em última análise, nem antes ou após a queda, ou no céu, as criaturas determinam a si mesmas. Há grandes níveis de autodeterminação, como a Bíblia evidencia frequentemente, mas o homem nunca é a causa final ou decisiva de suas preferências e escolhas. Quando a agência do homem e a agência de Deus são comparadas, ambas são reais, mas a de Deus é decisiva. Todavia — e aqui está o mistério que faz com que muitos tropecem — Deus é sempre decisivo de tal forma que a agência do homem é real, e a sua responsabilidade permanece.

Mas, isso não é inconcebível?

Eu digo que muitos tropeçam nisso porque eles o consideram como inconcebível. A minha perspectiva é que a Bíblia ensina a compatibilidade entre a decisiva soberania de Deus e a responsabilidade do homem. Se isso parece inconcebível para você, eu pediria que você não permita que isso o impeça de crer no que a Bíblia ensina.

Mas pode ser útil fazer uma tentativa de ajudar a dar sentido a isso. Os atos de uma pessoa podem ser justamente considerados louváveis ou condenáveis se eles fluem de uma natureza boa ou má que o inclina a apenas um caminho?

Aqui está parte da resposta de João Calvino a essa objeção:

A bondade de Deus é tão entrelaçada à sua divindade, que não é mais necessário ser Deus do que ser bom; enquanto que o diabo, por sua queda, tanto se alienou da bondade que nada pode fazer, senão o mal.

Se alguém mencionar a zombaria profana de que pouco louvor é devido a Deus por uma bondade a que ele é compelido, não é óbvio que cada homem responda: “Não é devido à forçosa compulsão, mas à sua bondade infinita, que ele não pode fazer o mal”?

Portanto, se o livre-arbítrio de Deus em fazer o bem não é impedido porque ele necessariamente deve fazer o bem; e se o diabo, que nada pode fazer, senão o mal, mesmo assim peca voluntariamente; pode ser dito que o homem peca menos voluntariamente, porque ele está sob uma necessidade de pecar? (Institutas, II.3.5).

Muito mais poderia ser dito. Questionamentos não faltam. Meu apelo é que você se concentre no verdadeiro ensino das Escrituras. Tente não levar pressupostos filosóficos ao texto (pressupostos como: a responsabilidade humana não pode coexistir com Deus decisivamente fazer “todas as coisas conforme o conselho da sua vontade”, Efésios 1.11). Deixe que a Bíblia fale plena e profundamente. Confie que um dia não veremos em espelho, obscuramente, mas face a face (1Coríntios 13.12).

Por: John Piper. © 2016 Desiring God. Original: A Beginner’s Guide to ‘Free Will’
Tradução: Camila Rebeca Almeida. Revisão: William Teixeira. © 2016 Ministério Fiel. 
Todos os direitos reservados. Website: MinisterioFiel.com.br. Original:  “Livre-arbítrio”: Um guia para iniciantes 
Permissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que informe o autor, seu ministério e o tradutor, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.

O valor do conhecimento

Quando Paulo chama a sabedoria do mundo de loucura diante de Deus (1Co 3:19), e quando ele em outro lugar nos adverte contra a filosofia (Cl 2:8), ele tem em mente a falsa e inútil suposta sabedoria que não reconhece a sabedoria de Deus em sua revelação geral e em sua revelação especial (1Co 1:21) e que se tornou nula em seus próprios raciocínios (Rm 1:21).

Mas no restante, Paulo e as Sagradas Escrituras, em sua totalidade, colocam o conhecimento e a sabedoria em um plano de grande importância. E não poderia ser de outra forma, pois a Bíblia afirma que Deus é sábio, que Ele tem conhecimento perfeito de Si mesmo e de todas as coisas, que pela Sua sabedoria Ele estabeleceu o mundo, que Ele manifesta Sua multiforme sabedoria à Igreja, que em Cristo estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento, e que o Espírito é o Espírito da sabedoria e do conhecimento, que perscruta até mesmo as profundezas de Deus (Pv 3:19; Rm 11:33; 1Co 2:10; Ef 3:10; Cl 2:3). Um livro do qual procedem mensagens como essas não pode subestimar o conhecimento nem pode desprezar a filosofia. Pelo contrário, nele aprendemos que a sabedoria é mais preciosa do que as pérolas, e tudo o que podemos desejar não pode ser comparado a ela (Pv 3:15); ela é um dom daquele que é o Deus do conhecimento (Pv 2:16; 1Sm 2:3).

O que a Escritura exige é um conhecimento cuja origem seja o temor do Senhor (Pv 1:7). Quando essa conexão com o temor do Senhor é rompida, o nome de conhecimento é mantido, embora sob falsas pretensões, mas ele vai se degenerando gradualmente até se transformar em uma sabedoria mundana, que é loucura diante de Deus. Qualquer ciência, filosofia ou conhecimento que pense poder se manter sobre suas próprias pressuposições e que pode tirar Deus de consideração, transforma-se em seu próprio oposto, e qualquer pessoa que construa suas expectativas sobre isso ficará desiludida.
Isso é fácil de ser entendido. Em primeiro lugar, a ciência e a filosofia sempre possuem um caráter especial e podem tornar-se acessíveis a poucas pessoas. Essas pessoas privilegiadas, que podem dedicar toda a sua vida à disciplina do aprendizado, podem conhecer apenas uma pequena parte do todo, permanecendo, assim, estranhos ao restante. Qualquer que seja a satisfação que o conhecimento possa dar, todavia, ele nunca poderá, devido ao seu caráter especial e limitado, satisfazer as necessidades profundas que foram plantadas na natureza humana na criação, e que estão presentes em todas as pessoas.

Em segundo lugar, a filosofia, que depois de um período de decadência entra em período de fortalecimento, sempre cria uma expectativa extraordinária e exagerada. Nessas épocas ela vive a esperança de que através de uma séria investigação ela resolverá o enigma do mundo. Mas sempre depois dessa fervente expectativa chega a velha desilusão. Em vez de diminuir, os problemas aumentam com os estudos. O que parece estar resolvido vem a ser um novo mistério, e o fim de todo o conhecimento é então novamente a triste e às vezes desesperadora confissão de que o homem caminha sobre a terra em meio a enigmas, e que a vida e o destino são um mistério.

Em terceiro lugar, é bom lembrar que tanto a filosofia quanto a ciência, mesmo que pudessem chegar muito mais longe do que chegam agora, ainda assim não poderiam satisfazer o coração do homem, pois o conhecimento sem a virtude, sem a base moral, torna-se um instrumento nas mãos do pecado para conceber e executar grandes males, e assim a cabeça que está cheia de conhecimento passa a trabalhar para um coração depravado. Neste sentido o apóstolo escreve: Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; e ainda que eu tenha tamanha fé a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei (1Co 13:2).

Hermann Bavinck
In: Teologia Sistemática

Jacó Armínio fala sobre a palestra de Augustus Nicodemus na CPAD

O blog Cinco Solas procurou saber a opinião de Jacó Armínio sobre a polêmica envolvendo uma palestra que seria proferida por Augustus Nicodemus numa loja da CPAD, principalmente sobre a atitude e a forma como as diferenças entre calvinistas e pentecostais tem sido tratadas. As respostas do famoso teólogo não foram editadas, apenas arranjadas na ordem em que as perguntas foram feitas.

Cinco Solas: Recentemente, a MegaStore da CPAD, convidou o Rev. Augustus Nicodemus Lopes para uma palestra. Houve uma grande agitação e a CPAD voltou atrás, cancelando de última hora o evento. O episódio pôs em realce a divisão entre calvinistas e pentecostais. Como o senhor vê toda essa situação?

Jacó Armínio: Não consigo dispersar a intensa tristeza que sinto em meu coração, devido àquela discórdia religiosa que tem irrompido, como uma gangrena. Deste sentimento verdadeiro de profunda angústia, penso que todos os que amam a Cristo e à sua Igreja compartilharão comigo. Este foi o motivo que me incitou a apresentar algumas observações a respeito das dissensões religiosas no mundo cristão.

CS: Alguns que defendem a separação comemoraram o cancelamento como uma vitória. O senhor compartilha desse sentimento?

JA: Nenhuma discórdia é mais chocante e odiosa que a discórdia na religião. A união da verdadeira religião é, portanto, da maior excelência.

CS: Parece, então, o senhor não compartilha do entusiasmo dos que comemoram em seu nome?

JA: Inimizades e dissensões do coração e dos sentimentos se disseminam e se tornam cismas, facções e separações em diferentes grupos. Pois da mesma maneira como o amor é um sentimento de união, o ódio é um sentimento de separação. Assim, sinagogas são erigidas, consagradas e cheias de pessoas, em oposição a outras sinagogas; igrejas, contra outras igrejas; e altares contra altares, quando nenhum dos grupos deseja ter qualquer relacionamento com o outro. Esta também é a razão por que com frequência ouvimos expressões completamente similares àquelas que ecoavam, clamorosamente, em meio à multidão congregada dos filhos de Israel, quando estavam se separando em grupos — "Que parte temos nós com Davi? Não há para nós herança no filho de Jessé. Às tuas tendas, ó Israel!" (1 RS 12.16), como se tivessem concluído anteriormente que o nome de Israel, por meio do qual Deus se dirige, de uma maneira extremamente misericordiosa, a toda a sua Igreja, não pudesse abranger, em seu abraço, pessoas que divirjam, em qualquer ponto, dos seus irmãos.

CS: O senhor tomou conhecimento dos ataques sofridos pelo jovem assembleiano, Gutierrez Fernandes, que se manifestou em favor da unidade? 

JA: Na verdade, a luta acontece com uma obstinação tão determinada, que mal se consegue suportar aquele que, por um momento, suspende as mútuas animosidades com uma menção de paz, a menos que tenha colocado uma corda ao redor de seu pescoço e esteja preparado para ser suspendido, por essa corda, em uma forca, caso as suas palavras sobre este tema desagradem aos demais. Pois esse amigo da paz seria estigmatizado como um desertor da causa comum, e considerado culpado de heresia, um favorecedor de hereges, um apóstata e um traidor.

CS: Havia uma ameaça real ao pentecostalismo ou fizeram tempestade em copo d’água?

JA: Os males que enumeramos não apenas procedem de dissensões reais, em que alguma verdade fundamental é o assunto de discussão, mas também das que são imaginárias, quando coisas afetam a mente, não como são, na realidade, mas como parecem ser. Eu as chamo de dissensões imaginárias, porque existem entre grupos que têm apenas uma religião fabulosa, que está tão distante do Verdadeiro como o céu está distante da terra, ou como os seguidores de tal fantasma estão distantes do próprio Deus. Os grupos discordantes imaginam que essas diferenças imaginárias estão na essência da verdadeira doutrina, quando não têm nenhuma existência. Esta é a natureza da discórdia, ou seja, dispersar e destruir assuntos da maior consequência.

CS: A polêmica toda ocorreu num fórum público. Em que isso pode afetar um observador de fora, que está se interessando pela fé cristã?

JA: Da força dessa dissensão na mente dos homens, surge certa incerteza duvidosa, a respeito da religião. O resultado pode ser uma opinião muito perversa a respeito de toda a religião, uma total rejeição a todo tipo de religião, ou o ateísmo.

CS: Voltando à polêmica em si, pela sua experiência, quais são as causas desse sectarismo?

JA: À frente delas, aparece Satanás, aquele mais amargo inimigo da verdade e da paz, e o mais infame disseminador de falsidade e dissensão, que age como líder do grupo hostil. O próprio homem vem a seguir, nesse séquito destrutivo, e é facilmente persuadido a realizar qualquer serviço para Satanás, pois por mais perniciosa que a sua operação prove ser, para a sua própria destruição, e esse sutil inimigo, a serpente, encontra, no homem, vários instrumentos apropriadamente adequados para a realização de seus propósitos. Que o ódio apareça agora, e nos exiba seus atos, que, pela própria natureza da causa, têm uma tendência própria e direta de incitar discórdia. O primeiro de seus atores a aparecer no palco é o ódio pela verdade e pela doutrina verdadeira. A seguir, vem o ódio pela paz e pela concórdia. Pois há homens de certa descrição que não podem existir sem ter um inimigo. O último a aparecer é o ódio contra os que professam a verdadeira doutrina, que decai, rapidamente, a uma dissensão daquela doutrina que professam esses bons homens; porque é o desejo ansioso de cada pessoa que odeia outra, não ter nada em comum com o seu adversário.

CS: Receio que os promotores discordem disso. Eles afirmam que estão defendendo a fé histórica da igreja, conforme entendida pelos pioneiros e professores da denominação.

JA: A opinião pré-concebida que formamos a respeito de nossos pais e antepassados também impede a reconciliação, porque que seria improvável que eles pudessem ser culpados de erros, ou porque concebemos esperanças favoráveis de sua salvação, e parecemos questionar essas esperanças se, em uma opinião oposta à deles, reconhecermos qualquer porção da verdade a respeito da salvação, da qual eles tenham sido ignorantes ou tenham desaprovado. Além disso, o esplendor da Igreja, à qual nos ligamos, por um juramento, ofusca nossos olhos, de tal maneira, que não podemos admitir qualquer persuasão que nos leve a crer na possibilidade, em tempos antigos ou atuais, de que essa igreja tenha sido desviada, em algum ponto, do caminho correto. Por fim, os nossos pensamentos e sentimentos a respeito de nós mesmos e nossos professores são tão exaltados, que nossa mente mal consegue conceber ser possível que eles tenham sido ignorantes ou não tenham tido uma percepção suficientemente clara das coisas, ou que erremos em julgamento, quando aprovamos as opiniões deles.

CS: O pivô involuntário de toda essa barulheira foi o Rev. Augustus Nicodemus Lopes, pela sua posição cessacionista e calvinista. O que o senhor tem a dizer sobre a forma como ele foi tratado pelos que o consideram um adversário?

JA: Um adversário é tratado de uma maneira perversa quando é sobrecarregado de maldições e repreensões, atacado com difamações e calúnias, e quando é ameaçado com ameaças de violência. E aqueles que usam armas desse tipo revelam, abertamente, a fraqueza e a injustiça de sua causa; não é muito provável que essas pessoas sejam instruídas pelo Espírito da verdade.

CS: Interessante esse ponto. O que mais poderia acrescentar sobre esse modus operandi?

JA: A contenda é cruelmente instituída contra a opinião de um adversário, em primeiro lugar, quando ela não é proposta segundo a mente e a opinião daquele que a declara; em segundo lugar, quando é discutida além de todos os limites devidos e a sua deformidade é inoportunamente exagerada; e, por fim, quando a sua refutação é proposta por argumentos mal calculados para produzir esse efeito.

CS: Qual é o seu conselho para que episódios como esse não se repitam?

JA: Que sejam deixadas de lado aquelas causas que, como afirmamos anteriormente, têm a sua origem nos afetos e que não apenas instigam essa dissensão, como tendem a perpetuá-la e a mantê-la viva. Que a humildade vença a soberba; que a mente que esteja satisfeita com a sua condição se torne a sucessora da avareza; que o amor pelos deleites celestiais expulse todos os prazeres carnais; que a boa vontade e a benevolência ocupem o lugar da inveja; que a paciente tolerância subjugue a ira; que a sobriedade na aquisição da sabedoria prescreva limites para o desejo do conhecimento, e que a estudiosa aplicação ocupe o lugar da ignorância instruída. Que sejam deixados de lado todo o ódio e amargura; e, ao contrário, "nos revistamos de entranhas de misericórdia" (Cl 3.12), para com aqueles que diferem de nós e que parecem vagar pelos caminhos do erro ou espalhar as suas sementes repugnantes entre os outros.

CS: Algo mais?

JA: Que seja acrescentada uma consideração de todos aqueles artigos da religião, a cujo respeito existe, dos dois lados, uma perfeita concordância. Talvez descubramos que são tão numerosos e de tão grande importância que, quando for feita uma comparação entre eles e outros que podem se tornar tema de controvérsia, os últimos serão poucos em número, e de pouca consequência. E é meu desejo especial que haja entre nós, agora, uma cessação similar das asperezas da guerra religiosa, e que os dois grupos se abstenham de textos cheios de amargura, de sermões notáveis apenas pelas ofensas que contêm, e da prática nada cristã de excomungar e execrar. Em lugar de tudo isso, que os adeptos de controvérsias substituam os textos por escritos cheios de moderação, em que as questões controversas possam, sem acepção de pessoas, ser claramente explicadas e provadas, por argumentos convincentes.

Soli Deo Gloria

PS.: As falas de Jacó Armínio foram extraídas de seu discurso Sobre a Reconciliação de Dissensões Religiosas entre Cristãos, in Obras de Armínio, Volume I, CPAD.