O problema de Mateus 11:12

A salvação é pela graça ou depende do esforço pessoal? Boa parte dos cristãos responderiam com um enfático "Sola Gratia!". Alguns, porém, diriam que é pela graça cooperando com esforço humano. E ainda alguns poucos afirmariam que depende fundamentalmente do empenho pessoal. Nestes dois últimos casos, pode-se buscar apoio em Mateus 11:12 onde Jesus diz que “desde os dias de João Batista até agora, o reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele” (Mt 11.12). Entretanto, este texto é de difícil tradução e representa um desafio considerável de interpretação.

Algumas traduções existentes em português dizem que "o reino dos céus é tomado à força" (NVI, 2000; TB, 2010), que "o reino dos céus é tomado por esforço" (ARA, 1993), que "se faz violência ao Reino dos céus" (ARC, 1968; ARC, 1969; ARC, 1995), que "o reino dos céus tem sido assaltado com violência" (APC, 1991) e que "o Reino do Céu tem sido atacado com violência" (NTLH, 2000). Sobre a identidade dos que tomam o reino é dito que são “os que usam de força” (NVI, 2000), "os que se esforçam" (ARA, 1993; TB, 2010) ou ainda "os violentos" (APC, 1991; NTLH, 2000). Há boas razões para se optar por uma ou outra tradução, mas obviamente não podem todas estar igualmente corretas.

O termo traduzido para a expressão "tomado por esforço” e suas alternativas é biazetai, derivado de biazo, que significa "usar a violência, aplicar a força; forçar, infligir violência em". O termo só ocorre aqui e em Lc 16:16, mas cognatos de biazetai são usados na Septuaginta. Exatamente na mesma forma encontrada em Mt 11:12, o verbo só ocorre no apócrifo 4Macabeus 2.8, com o significado de “aprisionar, tornar subserviente, dominar, forçar, violentar, subjugar, dominar, pisar”. O verbo está na voz passiva. A expressão “os que se esforçam” é tradução de biastai, substantivo que significa “forte, impetuoso, que faz uso da força, violento”, “o que emprega a violência, pessoa impetuosa” ou “uma pessoa que apela para a violência para alcançar os seus objetivos”.

Uma questão que surge na análise de biazetai e biastai é se são usados de uma forma favorável ou desfavorável, ou seja, se denotam algo bom ou mau. Como vimos, biazetai está na voz passiva, o que significa literalmente que o reino “é forçado, vencido, superado, tomado pela tormenta”. A voz passiva de biazo só ocorre no sentido de uma subjugação hostil ou violenta, portanto, mau. No grego extra-bíblico biastes ocorre em Filo sempre num mau sentido. Uma vez que o termo biazetai na voz passiva implica o uso de força e até mesmo de violência, o sentido de que o reino sofre violência de natureza desfavorável parece-nos a mais provável.

Isto tudo considerado, entendemos que a leitura mais natural do texto é a que diz que desde o tempo de João o reino de Deus e seus trabalhadores sofrem violência da parte de seus inimigos, que tentam evitar ou usurpar o governo divino. O grego indica que o reino está sendo atacado e que homens violentos estão tratando de impedir que outros entrem. A prisão de João e a rejeição e execução de Jesus a acontecer logo em seguida corroboram essa interpretação. Sendo assim, os biastai (violentos) são os líderes religiosos dos dias de Jesus, que reclamavam por conta próprio um direito sobre o reino ou os grupos revolucionários que pretendiam um reino terreno, como os zelotes e outros ativistas, mas não os discípulos de Jesus. Herodes pode ser incluído nessa lista pois prendeu e iria executar João.

O contexto parece reforçar a ideia de que o reino é atacado por inimigos e que seus súditos são perseguidos. No capítulo anterior, quando Jesus enviou os doze dizendo “pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus” (Mt 10:7) avisou “eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos” (Mt 10:16) e acrescentou “acautelai-vos, porém, dos homens; porque eles vos entregarão aos sinédrios, e vos açoitarão nas suas sinagogas...” (Mt 10:17) “e odiados de todos sereis por causa do meu nome” (Mt 10:22). No capítulo 12 a perseguição anunciada no capítulo 10 e implícita no capítulo 11, começa a tornar-se explícita: “E os fariseus, vendo isto, disseram-lhe: Eis que os teus discípulos fazem o que não é lícito fazer num sábado” (Mt 12:2) e “os fariseus, tendo saído, formaram conselho contra ele, para o matarem” (Mt 12:14).

Os violentos, então, não seriam discípulos determinados, mas inimigos que tentam arrebatar o reino pela força, não entrando e tentando impedir que outros tomem parte dele. Os discípulos de Jesus são descritos no mesmo capítulo, não como homens violentos ou valentes, mas sim como pequeninos e oprimidos: “Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te aprouve. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11:25-27).

Se esta interpretação estiver correta, o uso de Mt 11:12 para defender o esforço humano na obtenção da salvação é impróprio. Aliás, advogar a interpretação de que o reino de Deus é conquistado por pessoas esforçadas levanta sérios problemas com o ensino claro e inequívoco de que salvação é unicamente pela graça e pelo poder de Deus.

Soli Deo Gloria

Nota: está é uma versão condensada e adaptada de um artigo mais completo, com as fontes consultadas, que pode ser obtido aqui: O problema de Mateus 11:12.

A eleição é uma fonte de piedade

É uma caricatura concluir  que a eleição leva a uma falta de preocupação com a busca da santidade. Ao contrário, é um impulso importante para tal. Muitas das passagens onde a eleição é mais claramente explicada leva o escritor bíblico a adorar, como um andarilho ao chegar ao cume do qual a vista torna-se irresistível em beleza.Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! (...) Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!(Romanos 11.33,36).
Paulo trata da eleição em Efésios 1 após louvar a Deus, como uma forma de especificar as bênçãos as quais Ele nos tem concedido nos lugares celestiais. Jesus ensina como uma forma de transferir os seus discípulos a partir de uma orientação centrada no ser humano para uma centrada em Cristo (Jo 15:16). A eleição ajuda a elevar os nossos olhos de nós mesmos para Deus. Como não há uma dádiva que podemos oferecer a Deus pelo Seu favor, tudo o que nos resta é admirar , o louvor e a vontade de compartilhar com outras pessoas os dons que Ele nos deu.

A certeza de que nossa salvação repousa inteiramente na misericórdia de Deus nos faz cheios de ação de graças. John Wesley disse que ele não podia aceitar essa doutrina porque prejudicaria a principal motivação para a santidade, que ele entendia ser o medo de punição e a esperança de recompensa (Works, 7:736-84). "Qual é o antídoto apropriado ao metodismo, a doutrina do coração santificado?", ele pergunta. "O calvinismo: todos os dispositivos de Satanás, para estes 50 anos, ter feito muito menos para parar esta obra de Deus, do que essa única doutrina. Ela ataca a raiz da salvação do pecado, para a glória anterior, colocando o assunto em questão diferente. [...] Seja diligente para evita-los, e para guardar essas mentes cheias de ternura contra o veneno da predestinação" (Works, 8:336). É difícil reconciliar a caricatura de Wesley com a preocupação óbvia de piedade entre os Puritanos, ou seus herdeiros entre os contemporâneos de Wesley, tais como Augustus Toplady, John Newton, a condessa de Huntington e muitos outros.

Mais importante que as avaliações históricas é o fato de que a eleição é tratada como um apoio vital para a santidade nas Escrituras. Paulo nos lembra: Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai. (Romanos 8.15). Como poderia o conhecimento de que Deus "nos predestinou para a adoção", como filhos (Efésios 1:5) levar a outra coisa senão a um desejo de abraçar todos os tesouros da casa de Deus? Quando nos damos conta de que somos parte da raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1Pedro 2.9), isso muda a nossa forma de pensar, sentir e agir no mundo.

Por que devemos andar em obras de amor para com o nosso próximo? Porque Deus de antemão preparou para que andássemos nelas (Efésios 2.10). Nós não fomos escolhidos por boas obras, mas para as boas obras. Somos quem predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho (Romanos 8.29). Deus nos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade (2Tessalonicenses 2.13). Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade (Colossenses 3.12).

Não há, portanto, nada na doutrina em si que iria levar à complacência, orgulho ou indolência na vida cristã.

Michael Horton
In: A favor do calvinismo

Igreja visível e invisível ou quem será salvo?

61. Serão salvos todos os que ouvem o Evangelho e pertencem à Igreja? 

Nem todos os que ouvem o Evangelho e pertencem à Igreja visível serão salvos, mas unicamente aqueles que são membros verdadeiros da Igreja invisível. 

Rm 9:6; Mt 7:21. 

62. Que é a Igreja visível? 

A Igreja visível é uma sociedade composta de todos quantos, em todos os tempos e lugares do mundo, professam a verdadeira religião, juntamente com seus filhos. 

1Co 1:2; Gn 17:7; At 2:39; 1Co 7:14. 

63. Quais são os privilégios da Igreja visível? 

A Igreja visível tem o privilégio de estar sob o cuidado e governo especial de Deus; de ser protegida e preservada em todos os tempos, não obstante a oposição de todos os inimigos; e de gozar da comunhão dos santos, dos meios ordinários de salvação e das ofertas da graça por Cristo a todos os membros dela, no ministério do Evangelho, testificando que todo o que crer nEle será salvo, não excluindo a ninguém que queira vir a Ele. 

Is 4:5-6; Mt 16:18; At 2:42; Sl 147:19-20; Ef 4:11-12; Rm 8:9; Jo 6:37. 

64. Que é a Igreja invisível? 

A Igreja invisível é o número completo dos eleitos, que têm sido e que hão de ser reunidos em um corpo sob Cristo, a cabeça. 

Ef 1:10; 22-23; Jo 11:52; 10:16. 

65. Quais são os benefícios especiais de que gozam por Cristo os membros da Igreja invisível? 

Os membros da igreja invisível gozam por Cristo da união e comunhão com Ele em graça e gloria. 

Jo 17:21,24; 1Jo 1:3.

Catecismo Maior de Westminster
Semana 18

Os benefícios da Mediação de Cristo

57. Quais são os benefícios que Cristo adquiriu pela sua mediação? 

Cristo, pela sua mediação, adquiriu a redenção, juntamente com todos os mais benefícios do pacto da graça. 

Hb 9:12; 1Co 1:20. 

58. Como nos tornamos participantes dos benefícios que Cristo adquiriu? 

Tornamo-nos participantes dos benefícios que Cristo adquiriu, pela aplicação deles, a nós, que é especialmente a obra do Espírito Santo. 

Jo 1:12; Tt 3:5-6; Jo 16:14-15. 

59. Quem são feitos participantes da redenção mediante Cristo? 

A redenção é aplicada e eficazmente comunicada a todos aqueles para quem Cristo a adquiriu, os quais são nesta vida habilitados pelo Espírito Santo a crer em Cristo conforme o Evangelho. 

Jo 6:37,39; 10:15-16; Ef 2:8; Jo 3:5. 

60. Poderão ser salvos por viver segundo a luz da natureza aqueles que nunca ouviram o Evangelho e por conseguinte não conhecem a Jesus Cristo, nem nEle creem? 

Aqueles que nunca ouviram o Evangelho e não conhecem a Jesus Cristo, nem nEle creem, não poderão se salvar, por mais diligentes que sejam em conformar as suas vidas à luz da natureza, ou às leis da religião que professam; nem há salvação em nenhum outro, senão em Cristo, que é o único Salvador do seu corpo, a Igreja. 

Rm 10:14; 2Ts 1:8-9; Ef 2:12: Jo 3:18; 8:24; 1Co 1:21; Rm 3:20; 2:14-15; Jo 4:22: At 4:12; Ef 5:23. 

Catecismo Maior de Westminster
Semana 17