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As probabilidades de Deus

Você está jogando pôquer com seus amigos e um deles, o Fred, tira Ás, Rei, Dama, Valete e Dez de espadas – um Royal Flush, a mão mais alta do jogo – cujas chances são de 650 mil para 1. Como esse Fred é sortudo! Na próxima rodada, ele tira as mesmas cinco cartas. Certo, isso é pouco comum, mas vocês se conhecem desde a infância. Mas aí ele tira de novo, e depois mais uma vez. Certo, vocês foram padrinhos um do outro em seus casamentos, mas isso não evita seus sentimentos homicidas. Quando ele tira as mesmas cartas novamente, você vai atrás de uma arma.

Quando algo incrivelmente improvável ocorre, é muito difícil acreditar que é por acaso. Fred está roubando, é óbvio. Ele vai jurar que não está, mas é quase impossível acreditar. Mas vamos pensar. Há algumas propriedades físicas básicas do Universo, como a carga dos elétrons, a força precisa da gravidade, a velocidade da luz etc., e cada uma poderia ter um número infinito de valores. A gravidade (por exemplo) poderia ser um pouco mais forte, muito mais forte, ou um pouco mais fraca. Se alguma dessas propriedades fosse mesmo só um pouco diferente, então nosso Universo poderia não ter existido – com seus planetas, estrelas, vida e nós, seres conscientes, racionais e morais.

As chances contra todas essas propriedades terem ao mesmo tempo o valor necessário preciso para esse Universo existir são literalmente astronômicas. Mesmo assim, aqui estamos. Se você pegou seu revólver quando Fred tirou seu quinto Royal Flush, talvez devesse pegá-lo agora também, porque, quando algo incrivelmente improvável ocorre, é muito difícil acreditar que possa ocorrer por acaso. E não há nada tão incrivelmente improvável como o próprio Universo, entre todos os possíveis universos que poderiam ter existido.

Haveria obviamente só um ser capaz de embaralhar essas cartas. Se é provável que Fred esteja roubando, então é mais do que provável que Deus exista e seja responsável por este Universo.

Andrew Pessin
In: Filosofia em 60 Segundos

Jacó Armínio fala sobre a palestra de Augustus Nicodemus na CPAD

O blog Cinco Solas procurou saber a opinião de Jacó Armínio sobre a polêmica envolvendo uma palestra que seria proferida por Augustus Nicodemus numa loja da CPAD, principalmente sobre a atitude e a forma como as diferenças entre calvinistas e pentecostais tem sido tratadas. As respostas do famoso teólogo não foram editadas, apenas arranjadas na ordem em que as perguntas foram feitas.

Cinco Solas: Recentemente, a MegaStore da CPAD, convidou o Rev. Augustus Nicodemus Lopes para uma palestra. Houve uma grande agitação e a CPAD voltou atrás, cancelando de última hora o evento. O episódio pôs em realce a divisão entre calvinistas e pentecostais. Como o senhor vê toda essa situação?

Jacó Armínio: Não consigo dispersar a intensa tristeza que sinto em meu coração, devido àquela discórdia religiosa que tem irrompido, como uma gangrena. Deste sentimento verdadeiro de profunda angústia, penso que todos os que amam a Cristo e à sua Igreja compartilharão comigo. Este foi o motivo que me incitou a apresentar algumas observações a respeito das dissensões religiosas no mundo cristão.

CS: Alguns que defendem a separação comemoraram o cancelamento como uma vitória. O senhor compartilha desse sentimento?

JA: Nenhuma discórdia é mais chocante e odiosa que a discórdia na religião. A união da verdadeira religião é, portanto, da maior excelência.

CS: Parece, então, o senhor não compartilha do entusiasmo dos que comemoram em seu nome?

JA: Inimizades e dissensões do coração e dos sentimentos se disseminam e se tornam cismas, facções e separações em diferentes grupos. Pois da mesma maneira como o amor é um sentimento de união, o ódio é um sentimento de separação. Assim, sinagogas são erigidas, consagradas e cheias de pessoas, em oposição a outras sinagogas; igrejas, contra outras igrejas; e altares contra altares, quando nenhum dos grupos deseja ter qualquer relacionamento com o outro. Esta também é a razão por que com frequência ouvimos expressões completamente similares àquelas que ecoavam, clamorosamente, em meio à multidão congregada dos filhos de Israel, quando estavam se separando em grupos — "Que parte temos nós com Davi? Não há para nós herança no filho de Jessé. Às tuas tendas, ó Israel!" (1 RS 12.16), como se tivessem concluído anteriormente que o nome de Israel, por meio do qual Deus se dirige, de uma maneira extremamente misericordiosa, a toda a sua Igreja, não pudesse abranger, em seu abraço, pessoas que divirjam, em qualquer ponto, dos seus irmãos.

CS: O senhor tomou conhecimento dos ataques sofridos pelo jovem assembleiano, Gutierrez Fernandes, que se manifestou em favor da unidade? 

JA: Na verdade, a luta acontece com uma obstinação tão determinada, que mal se consegue suportar aquele que, por um momento, suspende as mútuas animosidades com uma menção de paz, a menos que tenha colocado uma corda ao redor de seu pescoço e esteja preparado para ser suspendido, por essa corda, em uma forca, caso as suas palavras sobre este tema desagradem aos demais. Pois esse amigo da paz seria estigmatizado como um desertor da causa comum, e considerado culpado de heresia, um favorecedor de hereges, um apóstata e um traidor.

CS: Havia uma ameaça real ao pentecostalismo ou fizeram tempestade em copo d’água?

JA: Os males que enumeramos não apenas procedem de dissensões reais, em que alguma verdade fundamental é o assunto de discussão, mas também das que são imaginárias, quando coisas afetam a mente, não como são, na realidade, mas como parecem ser. Eu as chamo de dissensões imaginárias, porque existem entre grupos que têm apenas uma religião fabulosa, que está tão distante do Verdadeiro como o céu está distante da terra, ou como os seguidores de tal fantasma estão distantes do próprio Deus. Os grupos discordantes imaginam que essas diferenças imaginárias estão na essência da verdadeira doutrina, quando não têm nenhuma existência. Esta é a natureza da discórdia, ou seja, dispersar e destruir assuntos da maior consequência.

CS: A polêmica toda ocorreu num fórum público. Em que isso pode afetar um observador de fora, que está se interessando pela fé cristã?

JA: Da força dessa dissensão na mente dos homens, surge certa incerteza duvidosa, a respeito da religião. O resultado pode ser uma opinião muito perversa a respeito de toda a religião, uma total rejeição a todo tipo de religião, ou o ateísmo.

CS: Voltando à polêmica em si, pela sua experiência, quais são as causas desse sectarismo?

JA: À frente delas, aparece Satanás, aquele mais amargo inimigo da verdade e da paz, e o mais infame disseminador de falsidade e dissensão, que age como líder do grupo hostil. O próprio homem vem a seguir, nesse séquito destrutivo, e é facilmente persuadido a realizar qualquer serviço para Satanás, pois por mais perniciosa que a sua operação prove ser, para a sua própria destruição, e esse sutil inimigo, a serpente, encontra, no homem, vários instrumentos apropriadamente adequados para a realização de seus propósitos. Que o ódio apareça agora, e nos exiba seus atos, que, pela própria natureza da causa, têm uma tendência própria e direta de incitar discórdia. O primeiro de seus atores a aparecer no palco é o ódio pela verdade e pela doutrina verdadeira. A seguir, vem o ódio pela paz e pela concórdia. Pois há homens de certa descrição que não podem existir sem ter um inimigo. O último a aparecer é o ódio contra os que professam a verdadeira doutrina, que decai, rapidamente, a uma dissensão daquela doutrina que professam esses bons homens; porque é o desejo ansioso de cada pessoa que odeia outra, não ter nada em comum com o seu adversário.

CS: Receio que os promotores discordem disso. Eles afirmam que estão defendendo a fé histórica da igreja, conforme entendida pelos pioneiros e professores da denominação.

JA: A opinião pré-concebida que formamos a respeito de nossos pais e antepassados também impede a reconciliação, porque que seria improvável que eles pudessem ser culpados de erros, ou porque concebemos esperanças favoráveis de sua salvação, e parecemos questionar essas esperanças se, em uma opinião oposta à deles, reconhecermos qualquer porção da verdade a respeito da salvação, da qual eles tenham sido ignorantes ou tenham desaprovado. Além disso, o esplendor da Igreja, à qual nos ligamos, por um juramento, ofusca nossos olhos, de tal maneira, que não podemos admitir qualquer persuasão que nos leve a crer na possibilidade, em tempos antigos ou atuais, de que essa igreja tenha sido desviada, em algum ponto, do caminho correto. Por fim, os nossos pensamentos e sentimentos a respeito de nós mesmos e nossos professores são tão exaltados, que nossa mente mal consegue conceber ser possível que eles tenham sido ignorantes ou não tenham tido uma percepção suficientemente clara das coisas, ou que erremos em julgamento, quando aprovamos as opiniões deles.

CS: O pivô involuntário de toda essa barulheira foi o Rev. Augustus Nicodemus Lopes, pela sua posição cessacionista e calvinista. O que o senhor tem a dizer sobre a forma como ele foi tratado pelos que o consideram um adversário?

JA: Um adversário é tratado de uma maneira perversa quando é sobrecarregado de maldições e repreensões, atacado com difamações e calúnias, e quando é ameaçado com ameaças de violência. E aqueles que usam armas desse tipo revelam, abertamente, a fraqueza e a injustiça de sua causa; não é muito provável que essas pessoas sejam instruídas pelo Espírito da verdade.

CS: Interessante esse ponto. O que mais poderia acrescentar sobre esse modus operandi?

JA: A contenda é cruelmente instituída contra a opinião de um adversário, em primeiro lugar, quando ela não é proposta segundo a mente e a opinião daquele que a declara; em segundo lugar, quando é discutida além de todos os limites devidos e a sua deformidade é inoportunamente exagerada; e, por fim, quando a sua refutação é proposta por argumentos mal calculados para produzir esse efeito.

CS: Qual é o seu conselho para que episódios como esse não se repitam?

JA: Que sejam deixadas de lado aquelas causas que, como afirmamos anteriormente, têm a sua origem nos afetos e que não apenas instigam essa dissensão, como tendem a perpetuá-la e a mantê-la viva. Que a humildade vença a soberba; que a mente que esteja satisfeita com a sua condição se torne a sucessora da avareza; que o amor pelos deleites celestiais expulse todos os prazeres carnais; que a boa vontade e a benevolência ocupem o lugar da inveja; que a paciente tolerância subjugue a ira; que a sobriedade na aquisição da sabedoria prescreva limites para o desejo do conhecimento, e que a estudiosa aplicação ocupe o lugar da ignorância instruída. Que sejam deixados de lado todo o ódio e amargura; e, ao contrário, "nos revistamos de entranhas de misericórdia" (Cl 3.12), para com aqueles que diferem de nós e que parecem vagar pelos caminhos do erro ou espalhar as suas sementes repugnantes entre os outros.

CS: Algo mais?

JA: Que seja acrescentada uma consideração de todos aqueles artigos da religião, a cujo respeito existe, dos dois lados, uma perfeita concordância. Talvez descubramos que são tão numerosos e de tão grande importância que, quando for feita uma comparação entre eles e outros que podem se tornar tema de controvérsia, os últimos serão poucos em número, e de pouca consequência. E é meu desejo especial que haja entre nós, agora, uma cessação similar das asperezas da guerra religiosa, e que os dois grupos se abstenham de textos cheios de amargura, de sermões notáveis apenas pelas ofensas que contêm, e da prática nada cristã de excomungar e execrar. Em lugar de tudo isso, que os adeptos de controvérsias substituam os textos por escritos cheios de moderação, em que as questões controversas possam, sem acepção de pessoas, ser claramente explicadas e provadas, por argumentos convincentes.

Soli Deo Gloria

PS.: As falas de Jacó Armínio foram extraídas de seu discurso Sobre a Reconciliação de Dissensões Religiosas entre Cristãos, in Obras de Armínio, Volume I, CPAD.

O Desafio da Filosofia para um Cristão

A filosofia apresenta um desafio específico para o cristão, de modo tanto positivo quanto negativo. A filosofia é útil na construção do sistema cristão e na refutação de pontos de vista contrários. Há um texto crucial no Novo Testamento que corresponde a estas duas tarefas. Paulo disse: "Anulamos sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus [aspecto negativo], levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo [aspecto positivo]" (2Co 10: 5). Sem um conhecimento eficiente da filosofia, o cristão está à mercê do não-cristão na arena intelectual. O desafio, portanto, é para o cristão "superar no pensamento" o não-cristão tanto na edificação da igreja quanto em derrubar sistemas do erro.

Se esta é a tarefa do cristão na filosofia, como, pois se explica a advertência do apóstolo Paulo no sentido de "cuidar que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia" (Cl 2:8)? Infelizmente, alguns cristãos têm entendido este versículo como sendo uma injunção contra o estudo da filosofia. Esta ideia é incorreta por várias razões. Primeiramente, o versículo não é uma proibição contra a filosofia propriamente dita, mas, sim, contra a falsa filosofia, pois Paulo acrescenta: "e [cuidado com] as vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens." Na realidade, Paulo está advertindo contra uma filosofia falsa específica, um tipo de gnosticismo incipiente que tinha infiltrado a igreja em Colossos (o grego tem um artigo definido que indica uma filosofia específica). 

Finalmente, não podemos realmente "acautelar-nos" da falsa filosofia a não ser que primeiramente tenhamos consciência dela. Um cristão deve reconhecer o erro antes de poder ir contra ele, assim como um médico deve estudar a doença antes de poder tratá-la com o devido conhecimento. A igreja cristã tem sido ocasionalmente penetrada por falsos ensinos exatamente porque os cristãos não foram adequadamente treinados a detectar a "enfermidade" do erro. Uma boa falsificação ficará tão perto da verdade quanto possível. É por isto que as filosofias falsas, não-cristãs, que estão vestidas com roupagem cristã são especialmente perigosas. Realmente, o cristão que mais provavelmente se tornará presa da filosofia falsa é o cristão ignorante.

Norman Geisler & Paul Feinberg
In: Introdução à Filosofia

A solução está no altar, não nas urnas

Porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se fúteis e os seus corações insensatos se obscureceram. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis. Por isso Deus os entregou à impureza sexual, segundo os desejos pecaminosos dos seus corações, para a degradação dos seus corpos entre si. Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres criados, em lugar do Criador, que é bendito para sempre. Amém. Romanos 1:21-25
Nuvens negras ameaçam o horizonte do cristianismo no Brasil. E o atual cenário político não ajuda em nada para tornar o quadro menos ameaçador. Não é difícil identificar duas dessas nuvens: o secularismo e o paganismo. 

O primeiro é patrocinado e promovido pelo Estado, procura minar valores cristãos tradicionais, como a família e a sacralidade da vida, promovendo o homossexualismo, o aborto e a legalização das drogas. O segundo visa atacar a singularidade de Cristo e a exclusividade do evangelho, promovendo um sincretismo religioso em que qualquer forma de expressão religiosa é aceitável, menos a fé cristã. Em ambos os casos, qualquer manifestação cristã é rotulada de discurso de ódio e sujeito à intolerância dos tolerantes. Este é o quadro, conforme vejo. A questão é como a Igreja reage diante dele?

Uma parte da igreja é se fecha em si mesma, esperando que a vinda de Cristo e o arrebatamento interrompa essa onda secularizante e paganizante. É claro que não há nada de errado em anelar pela volta do Senhor, quando Ele enfim estabelecerá seu reino na terra. Isto se constitui na bem aventurada esperança da igreja. Porém, o motivo para ansiarmos pela volta do Senhor deve ser menos a pressão do mundo e mais o desejo de estar com Cristo. Não devemos orar “ora vem Senhor Jesus” por covardia, mas de saudade. Além disso, enquanto esperamos a volta iminente do Senhor, devemos ser sal da terra e luz do mundo, e o sal não cumpre sua função no saleiro e a luz não ilumina posta sob a cama. Portanto, se colocar num casulo esperando a metamorfose na vinda do Senhor não é a melhor opção.

Outra reação da igreja tem sido o engajamento político, numa tentativa de devolver os valores cristãos ao Brasil através da influência política. Daí os discursos renovados a cada período eleitoral, de que devemos eleger representantes dos cristãos (nem estou falando de representantes evangélicos ou da "nossa igreja"). Há um erro e um risco, aqui. O erro é pensar que o país será cristão através de leis justas (embora elas sejam boas e necessárias). A própria lei de Deus é incapaz de salvar, antes agrava o pecado latente no coração do homem. Quanto menos as leis humanas, falhas que são, irão mudar a disposição má do coração dos homens. Na melhor das hipóteses, servirá como instrumento da graça comum, para restringir a plena materialização da maldade dos homens, se houver punição para os transgressores, realidade que, convenhamos, não é a do nosso país.

Além disso, a tentativa da igreja de mudar a sociedade através da influência política, especialmente nas casas de leis, traz em si um grande risco. Num sistema democrático, tanto a eleição como a aprovação das leis se dá pelo voto da maioria. Isto significa que concessões precisarão ser feitas e a primeira delas será uma redefinição do evangelho, para torná-lo palatável à essa maioria. A cruz será facilmente removida e a ênfase recairá numa das versões "bem vistas" do evangelho, que aliás não é evangelho de forma alguma (sem cruz, sem evangelho). Conseguida a vitória por essa via, o resultado não será um país cristianizado, e sim uma cultura que será religiosa na sua manifestação, mas pagã na sua essência.

A única saída para a igreja brasileira é um avivamento. Por avivamento quero significar um verdadeiro quebrantamento diante de Deus, seguido da pregação genuína do verdadeiro evangelho e uma firme determinação de arcar com as consequências da decisão de obedecer a Deus antes que os homens. Não há outra alternativa, a igreja verdadeira sempre será uma contra-cultura a corroer a cultura dominante por dentro. Isso porque viverá e pregará o evangelho da glória de Deus, que é o único poder capaz de salvar o homem do estado de perdição e rebelião que se encontra.

Se a igreja experimentar um verdadeiro avivamento, quando leis ímpias forem promulgadas, os cristãos as desobedecerão. Se o odiado evangelho for oficialmente proscrito, ainda assim os cristãos o proclamarão. Se por isso forem colocados em prisões, a casa de César ouvirá seu testemunho e muitos ali se converterão. Pois o evangelho não é “um poder”, é “o poder”, não do povo nem do magistrado, mas de Deus.

A ameaça ao cristianismo é real e inevitável. Se enclausurar não resolve. Votar bem não bastará. A saída é se humilhar, orar e confessar nossos pecados diante de Deus e proclamar o evangelho da cruz. Fora isso, o cristianismo brasileiro será engolido pelo secularismo e pelo paganismo.

Soli Deo Gloria

Um chamado à batalha


(...) No culto de abertura do curso, há quatro anos atrás, eu disse que pela graça de Deus chegaríamos a esta noite de formatura. Por isso, toda honra e toda glória deve ser dada a Ele, por este momento tão especial.

Dirijo-me aos agora formados. Tive o privilégio de estudar juntamente com vocês as 36 matérias do curso de teologia. Se alguma coisa ensinei, Deus o sabe. Sei que aprendi, e muito. E agora tenho a honra de me dirigir a vocês e faltam palavras para expressar minha alegria pelo convite para ser paraninfo da turma.

Procurei uma passagem bíblica que expressasse meu sentimento para esta noite, e me ocorreu a carta do pastor Judas, da qual lerei o verso 3:
“Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos”.
O momento é festivo e o que eu mais queria agora era discorrer sobre a nossa comum salvação. Falar sobre aquilo que eu e vocês temos experimentado em Cristo. De como o Senhor nos tirou de um charco de lodo, firmou os nossos pés sobre uma Rocha e pôs um novo cântico em nossos lábios. Seria ótimo relembrar de como o Senhor nos tem transportado das trevas para o reino do Seu amor. E de como Ele nos tem abençoado enquanto buscamos descobrir a sua boa vontade para conosco.

Mas, assim como aconteceu com Judas, também me vejo sob a obrigação de vos falar de algo menos agradável, porém mais urgente: a necessidade de batalhar pela fé uma vez entregue aos santos. 

Do que se trata essa fé? Não se trata da fé pessoal, salvadora. E sim, da verdade essencial do evangelho, o que em outras partes é chamado de sã doutrina. Refere-se ao fundamento dos apóstolos, a revelação contida no Novo Testamento. Essa fé foi entregue de uma vez por todas, o que significa que nenhuma nova revelação normativa será dada até a volta do Senhor. 

Essa verdade foi entregue aos cuidados dos santos, ou seja, da igreja. Cabe à igreja guardar o depósito da fé, por isso ela é chamada de coluna e baluarte da verdade. A linguagem de Judas e o contexto da epístola sugerem que essa fé sofrerá ataques de “indivíduos que se introduzirão de forma dissimulada” no exército do Senhor. E por isso a igreja deve batalhar diligentemente, defendendo com garra a fé que nos foi passada de mãos em mãos, desde os apóstolos até chegar a nós.

É neste ponto que os teólogos, chamados na Bíblia de mestres, provam seu valor para Cristo. Sabendo que os inimigos da nossa fé se introduzem na igreja dissimuladamente e que procuram fazer suas presas através de filosofias e vãs sutilezas, mas conhecendo a verdade do evangelho os teólogos servem como atalaias ao povo de Deus e no momento da luta, colocam-se na linha de frente da batalha, defendendo a verdade com amor, e o amor com a verdade.

Vocês foram chamados pelo Senhor. Foram preparados e equipados por Ele. Assumam suas posições. Sirvam à igreja com amor e aos seus pastores com humildade, mas combatam os inimigos da fé com coragem. E que Deus os abençoe!

Soli Deo Gloria

PS.: Discurso de Formatura da Turma de Teologia "Pastor Pedro Cortez", Toledo, PR.

Somos uma contracultura?

A cultura pós-moderna é uma cultura fragmentada justamente porque não reconhece uma verdade absoluta, nem valores absolutos. Nesta quadra estão os que creem em X, naquela esquina estão os que creem em Y. Aqui estão os que praticam tal rito, ali estão os que já não praticam nenhum rito. "Naqueles dias não havia rei em Israel; cada um fazia o que bem lhe parecia" (Jz 21:25). E isto se dá muito mais ainda no mundo da religião - aquele campo que desde o Iluminismo tem sido visto como o campo das opiniões privadas, em contraste com o campo da verdade pública: a filosofia e a ciência. E a verdade é que como cristãos temos nos acomodado muito bem a esta realidade fragmentada. Não participamos dos debates públicos. Seria atrevimento nos pronunciarmos sobre temas da filosofia, da cultura, da economia. Na política nos metemos um pouquinho, mas é apenas pelos votos que como evangélicos podíamos mobilizar, não porque tínhamos um discurso cristão própria para o campo da política.

Parece que na América Latina as igrejas evangélicas tem abandonado a tarefa de serem contracultura, de ser resposta e alternativa à cultura imperante, e nos temos conformados em ser subcultura, uma fragmento a mais, uma opção a mais no supermercado de filosofias, seitas e religiões.

Nas últimas décadas tem se falado muito nos Estados Unidos da "guerra de culturas", uma guerra entre evangélicos conservadores e humanistas seculares sobre temas como o aborto, a educação pública e a religião, a homossexualidade e outra quantidade de temas controvertidos. Um autor cristão, ao comentar sobre esta guerra de culturas, faz a observação perspicaz de que os evangélicos perderam essa guerra faz tempo. Observa que os evangélicos nos EUA tem criado sua própria subcultura, com os mesmos valores da cultura dominante! Tem seus próprios programas e canais de televisão, sua diversão e entretenimento, sua publicidade paga, seus noticiários, revistas e ofertas especiais. Claro que ainda tem valores e princípios especiais, mas na realidade representam uma cópia da cultura que atacam. Tornaram-se uma subcultura e tem perdido a possibilidade de ser verdadeiramente uma contra-cultura.

Está é, também, a nossa realidade?

Theo G. Donner.
In: Fe y posmodernidad: Una cosmovisión cristiana para un mundo fragmentado.

Evangelho de Cristo ou de Paulo?

"Lembra-te de Jesus Cristo, ressuscitado de entre os mortos, descendente de Davi, segundo o meu evangelho" 2Tm 2:8
Inimigos da fé tem acusado Paulo de distorcer o evangelho de Jesus Cristo, alegando que o cristianismo é uma invenção paulina e que não corresponde aos ensinamentos originais de Jesus Cristo. Por vezes insinua-se que o próprio apóstolo dos gentios tinha consciência desse fato e que ele distinguia seu evangelho daquele pregado pelos outros apóstolos de Cristo.

As passagens citadas como evidência de que Paulo intencionalmente modificou o evangelho de Jesus são as passagens nas quais ele se refere ao "meu evangelho" (Rm 2:16; 16:25; 2Tm 2:8), "nosso evangelho" (2Co 4:3; 1Ts 1:5; 2Ts 2:14) e "evangelho por mim anunciado" (Gl 1:11). Mas será que tais expressões implicam que Paulo anunciava, de forma consciente, um evangelho distinto do entregue por Cristo e pregado pelos demais apóstolos? A resposta é um sonoro não, e isto fica claro examinando as próprias cartas das quais foram tiradas essas declarações.

Paulo apresenta-se aos Romanos como "servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus" (Rm 1:1) e que prega o "evangelho de Deus" (Rm 15:16) e o "evangelho de seu Filho" (Rm 1:9, cf. 15:19; 1Co 9:12; 15:1). Na segunda carta aos Coríntios, imediatamente após dizer "nosso evangelho" (2Co 4:3) ele acentua que se trata "do evangelho da glória de Cristo" (2Co 4:4), o qual também é tanto "o evangelho de Cristo" (2Co 9:13; 10:14) como "o evangelho de Deus" (2Co 11:7). Da mesma forma, quando se dirige aos crentes da Galácia, o apóstolo refere-se ao seu evangelho como sendo o mesmo "evangelho de Cristo" (Gl 1:7). Nesta carta, Paulo usa uma linguagem bastante forte contra os que pregam "outro evangelho" (Gl 1:6), dizendo que o mesmo deve ser anatematizado, mesmo que seja pregado por ele próprio ou "um anjo vindo do céu" (Gl 1:8). Para ele, alguém pregar um outro evangelho é perverter o de Jesus e incorrer em maldição. Certamente ele não pensava isso de si mesmo. À jovem igreja dos tessalonicenses, Paulo recorda que lhes anunciou "o evangelho de Deus" (1Ts 2:2,8-9), ou seja, "o evangelho de Cristo" (1Ts 3:2, cf. 2Ts 1:8). E ao  pastor de Éfeso ele diz que seu evangelho é o próprio "evangelho da glória do Deus bendito" (1Tm 1:11). É evidente que Paulo usa "meu/nosso evangelho" de forma intercambiável com "evangelho de Deus/Cristo".

Se ele não está dizendo que prega um evangelho diferente daquele de Jesus, por que usa essas expressões? O que ele está dizendo aos seus leitores é que ele e seus companheiros foram "aprovados por Deus, a ponto de nos confiar ele o evangelho, assim falamos" (1Ts 2:4), que "do evangelho que ouvistes e que foi pregado a toda criatura debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, me tornei ministro" (Cl 1:23), "do qual fui encarregado" (1Tm 1:11). Tendo sido pessoalmente enviado por Cristo "para pregar o evangelho" (1Co 1:17) e tudo fazendo "por causa do evangelho, com o fim de me tornar cooperador com ele" (1Co 9:23), podia dizer que se tratava do seu evangelho, sem  significar que se tratava de um evangelho diferente do evangelho de Jesus Cristo.

Portanto, o ataque dos inimigos do evangelho não tem o apoio que eles esperam encontrar nas cartas do apóstolo dos gentios.

Soli Deo Gloria

O que você crê sobre Jesus define seu destino eterno


Qualquer grupo que alegue que Jesus não tenha dito ser Deus, que alegue que as profecias não foram cumpridas Nele e que afirmem que discípulos não adoraram Jesus como Deus, trata-se de um grupo que perverteu a ortodoxia cristã e que, através dos falsos ensinos estão levando os seus seguidores por caminhos tortuosos que conduzirão a perdição eterna. Muitos destes grupos tem utilizado a Bíblia de maneira distorcida e negado algo que está mais que provado em suas páginas: a plena divindade de Jesus.

O Cristianismo tem o seu centro, o seu coração em Jesus Cristo e prega a comunhão com Ele como o único meio de alcançar a salvação. Colocar nossa fé em Jesus e entregar nossas vidas à Ele resulta em plena comunhão com Deus; resulta em vida. A fé em Jesus produz no cristão o pleno sentimento de realização, já que Ele é o tudo em quem crê Nele. Isso não é fruto de alienação, mas de uma fé muito bem fundamentada nos ensinamentos de Jesus, que leva aquele que crê a aceita-lo em plenitude como Senhor e Salvador (Cl 1.27; Jo 14.20; 15.4). Desta forma, aceitar doutrinas estranhas quanto a quem é Jesus, implica em compremeter o relacionamento com Ele.

As implicações da nossa crença em Jesus são eternas. Portanto, fica aqui o desafio aos que professam a fé em Jesus para que não desfaleçam de sua crença Naquele que é o Verbo encarnado, que examinem as Escrituras e estejam preparados para defender a sua fé. E para aqueles que tem abraçado um Jesus alternativo, fica o apelo de rever os conceitos de suas crenças.

Abraçar um outro Jesus pode trazer consequências que não são meramente temporais, mas sim eternas. Conheça o verdadeiro Jesus e tenha sua vida transformada.

João R. Weronka
In: Apologia da divindade de Cristo

Carta a um irmão inquieto - 3


Meu irmão Rick,

Esta é a terceira carta que lhe escrevo (leia a primeira e a segunda) sobre o assunto que lhe causa inquietação. Espero que a demora em dar continuidade no assunto não aparente descaso. Na verdade, ao mesmo tempo que desejo lhe dar tempo para refletir e orar sobre o assunto, não quero que pense que estou afoito para convencê-lo. Você já crê em Jesus Cristo, e isto é o que há de mais urgente. Quanto ao nosso assunto, podemos ir com prudente vagar.

Lembra-se que na sua segunda carta você disse que predestinação “não era bem assim” e apresentou algumas razões que, segundo você, mostrava que a predestinação não poderia ser entendida como um decreto eterno de Deus, que implica na salvação dos objetos de sua eleição soberana. Vou procurar responder rapidamente às suas objeções. Espero conseguir transferir para as letras o amor com que lhe escrevo mais esta resposta.

Você disse que não é justo Deus escolher alguns e não todos. Ao falar da eleição, Paulo antecipou essa objeção: “Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum! Pois ele diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão” (Rm 9:14-15). Basicamente, o apóstolo está dizendo que a eleição está baseada na misericórdia, e esta não pode ser injusta, uma vez que não é devida a ninguém. Assim, se Ele não salvasse nenhuma pessoa, não seria injusto, se salvasse a todos, não seria mais justo por isso. Logo, salvar a uns e não a todos não o torna injusto.

A este argumento você emendou que Deus não faz acepção de pessoas. Na verdade, há algumas passagens que afirmam isso textualmente. Por outro lado, Deus diz “Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú” (Rm 9:13). E esse amor discriminador não dependeu do que eles fizeram, pois está registrado que isso se deu quando “ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal” (Rm 9.11). Como resolver a aparente contradição? Deus realmente não faz acepção baseado naquilo que as pessoas são, tem ou na posição que ocupam, uma vez que as razões de Sua escolha encontram-se Nele mesmo e não nos escolhidos.

Outros questionamentos seus tem a ver com a redenção e a aplicação da salvação. Você diz que se Deus já escolheu a quem salvar, não tinha porque Jesus morrer na cruz. Na verdade, não há dificuldade aqui. A eleição tem a ver com o propósito divino, a morte de Jesus é o meio para isso. Em outras palavras, na eleição decide salvar, na expiação Deus torna isso possível. Deus tanto “nos predestinou para ele” (Ef 1:5) e enviou seu Filho “no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados” (Ef 1.7). Também questiona a necessidade de pregar o evangelho, se já existem pessoas escolhidas para a salvação. A resposta vai na mesma linha. Deus escolheu a quem salvar e determinou o meio pelo qual eles serão salvos: a pregação do evangelho. Primeiro vem “nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados...” (Ef 1.11) e em seguida “em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa” (Ef 1.13).

Como você pode ver, suas objeções foram antecipadas e respondidas pela própria Escritura. Assim temos que a Bíblia firma textualmente que Deus predestina soberana e graciosamente para a salvação, e isto não o torna injusto ou arbitrário, nem anula a necessidade da morte de Jesus, nem a pregação do evangelho. Pelo contrário, Jesus morreu porque Deus havia determinado salvar os seus eleitos e a pregação visa alcançar tais eleitos com os benefícios da morte de Jesus. Pense nisso, leia a Bíblia e ore a respeito.

Seu irmão em Cristo,

Clóvis

SGD

O impacto da história da morte e ressurreição


O maior dos descrentes não pode negar o efeito que o Cristianismo produziu no gênero humano. O mundo antes e o mundo depois do Cristianismo são tão diferentes como a luz da escuridão, como a noite e o dia. Foi o Cristianismo que arruinou a idolatria pagã e esvaziou seus templos, que deteve os combates dos gladiadores, elevou a posição da mulher e melhorou as condições das crianças e dos pobres. Esses são fatos que com certeza podem desafiar os inimigos da fé cristã. São fatos que constituem uma dificuldade enorme para a filosofia ateísta. E o que possibilitou todas essas conquistas? Não foi - como dizem alguns - a mera difusão de um código moral elevado, uma espécie de platonismo melhorado. Não! Foi a simples história da Cruz do Calvário e do sepulcro vazio no jardim, a maravilhosa morte de Alguém "contado entre os transgressores" (Is 53.12) e o assombroso milagre da Sua ressurreição. Foi relatando fielmente como o Filho de Deus morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para a nossa justificação que os Apóstolos mudaram a face do mundo, fundaram igrejas e transformaram um incontável número de pecadores em santos.

J. C. Ryle
In: Verdades Fundamentais

Ateísmo simplista, dualismo ilógico ou cristianismo complicado?

C. S. Lewis
Pois bem, então o ateísmo é simplista. E vou lhes falar de outro ponto de vista igualmente simplista que chamo de "cristianismo água-com-açúcar". De acordo com ele, existe um bom Deus no Céu e tudo o mais vai muito bem, obrigado - o que deixa completamente de lado as doutrinas difíceis e terríveis a respeito do pecado, do inferno, do diabo e da redenção. 

Os dois pontos de vista são filosofias pueris. Não convém exigir uma religião simples. Afinal de contas, as coisas no mundo real são complexas. Parecem simples, mas não são. A mesa à qual estou sentado parece simples, mas peça a um cientista que diga do que ela é realmente feita: você ouvirá uma longa história a respeito dos átomos e de como as ondas luminosas refletem-se neles e chegam ao nervo óptico, provocando um efeito no cérebro. Assim, o que chamamos de "enxergar a mesa" nos leva a mistérios e complicações aparentemente inesgotáveis. Uma criança que faz uma oração infantil é algo singelo. Se você estiver disposto a parar por aí, ótimo. Mas, se você não se contentar com isso (coisa que acontece bastante no mundo moderno) e quiser levar avante o questionamento sobre o que realmente acontece, tem de estar preparado para enfrentar dificuldades. Se exigimos algo que vá além da simplicidade, é tolice nos queixarmos de que esse algo a mais não é simples. 

Com muita freqüência, entretanto, esse procedimento tolo é adotado por pessoas que não têm nada de tolas, mas que, consciente ou inconscientemente, querem destruir o cristianismo. Essas pessoas apresentam uma versão da religião cristã própria para crianças de seis anos e fazem dela o objeto de seu ataque. Quando tentamos explicar a doutrina cristã tal como é entendida por um adulto instruído, elas se queixam de que estamos dando um nó na cabeça delas, de que tudo o que dizemos é complicado demais e de que, se Deus realmente existisse, teria feiro a "religião" simples, pois a simplicidade é bela, etc. Esteja sempre em guarda contra este tipo de gente, sujeitos que trocam de argumento a cada minuto e só nos fazem perder tempo. 

Note o absurdo da ideia de um Deus que "faz uma religião simples": como se a "religião" fosse algo inventado por Deus, e não a sua afirmação de certos fatos inalteráveis a respeito de sua própria natureza. A experiência me diz que a realidade, além de complicada, é quase sempre estranha. Não é precisa, nem óbvia, nem previsível. Por exemplo, quando você descobre que a Terra e os outros planetas giram em torno do Sol, pensa naturalmente que todos os planetas devem se comportar da mesma maneira, que são separados por distâncias iguais ou distâncias que aumentam proporcionalmente, ou que devem aumentar ou diminuir de tamanho à medida que se afastam do Sol. No entanto, não encontramos nem métrica nem método (que possamos compreender) nos tamanhos ou nas distâncias. Além disso, alguns planetas possuem uma lua; outros, quatro; alguns, nenhuma; e um planeta tem um anel. 

A realidade, com efeito, é algo que ninguém poderia adivinhar. Este é um dos motivos pelo qual acredito no cristianismo. E uma religião que ninguém poderia adivinhar. Se ela nos oferecesse o tipo de universo que esperaríamos encontrar, eu acharia que ela havia sido inventada pelo homem. Porém, a religião cristã não é nada daquilo que esperávamos; apresenta todas as mudanças inesperadas que as coisas reais possuem.

Deixemos de lado, portanto, todas as filosofias pueris e suas respostas simplistas. O problema não é nada simples, e a resposta tampouco. E qual é o problema? E um universo cheio de coisas evidentemente más e aparentemente sem sentido, mas que ao mesmo tempo contém criaturas como nós, que têm a consciência dessa maldade e desse absurdo. Existem só dois pontos de vista que conseguem contemplar todos esses fatos. Um deles é o cristianismo, segundo o qual estamos num mundo bom que se perdeu, mas que ainda assim conserva a memória de como deveria ser. O outro ponto de vista chama-se dualismo. 

Dualismo é a crença de que, na raiz de todas as coisas, há duas forças iguais e independentes, uma delas boa, a outra má. O universo é o campo de batalha no qual travam uma guerra sem fim. Creio que, ao lado do cristianismo, o dualismo é a crença mais viril e sensata existente no mercado. Porém, traz em si uma armadilha. Os dois poderes, ou espíritos, ou deuses - o bom e o mal - são tidos como independentes um do outro. Ambos existem eternamente. Nenhum deles gerou o outro, nenhum deles tem mais direito que o outro de chamar a si mesmo de "Deus". Cada um deles, presumivelmente, considera a si mesmo o Bem, e ao outro, o Mal. Um deles aprecia o ódio e a crueldade; o outro, o amor e a misericórdia; e cada qual sustenta sua própria visão das coisas. 

No entanto, o que temos em mente quando chamamos um deles de Poder Benigno, e o outro, de Poder Maligno? Talvez queiramos dizer simplesmente que preferimos um ao outro — como alguém pode preferir uma cerveja a um vinho doce; ou então queiramos dizer que o que quer que cada um deles pense a seu respeito, e independentemente de nossas preferências humanas imediatas, um deles está efetivamente errado, enganado ao se considerar benigno. Ora, se tudo o que queremos dizer é que preferimos o primeiro poder, temos de desistir definitivamente dessa conversa de Bem e de Mal, pois o Bem é aquilo que devemos preferir quaisquer que sejam os nossos sentimentos momentâneos. Se "ser bom" significasse apenas aderir ao lado que por acaso nos agrada, o Bem não mereceria ser chamado assim. Logo, o que queremos dizer é que um dos poderes está errado, enquanto o outro está certo. 

Mas no momento em que dizemos isto, insere-se no universo um terceiro fator, distinto dos outros dois poderes: uma lei, ou padrão, ou regra geral do Bem à qual o primeiro poder se submete, e o outro, não. Se os dois poderes são julgados por esse padrão, então o próprio padrão ou o Ser que o criou está além e acima de qualquer um dos poderes. E ele o Deus verdadeiro. Na realidade, quando dizemos que um poder é bom e o outro é mau, entendemos que um está em relação harmoniosa com o Deus verdadeiro e supremo, e o outro, não.

C. S. Lewis
Cristianismo puro e simples

Estamos perdendo nossos filhos


"Perdemos a cultura" e continuamos perdendo nossos filhos. A história trágica e repetitiva é que os jovens crentes, criados em lares cristãos, vão para a faculdade e abandonam a fé. Por que este padrão é tão comum? Em grande parte, porque eles não foram ensinados a desenvolver uma cosmovisão bíblica. Em vez disso, o cristianismo é restrito a uma área especializada de crença religiosa e devoção pessoal.

Recentemente li um exemplo notável. Em certa escola secundária cristã americana, um professor de teologia colocou-se à frente da sala de aula e, de um lado do quadro-negro, desenhou um coração e, do outro, um cérebro. Os dois desenhos ocupavam partes iguais do quadro. Virando-se para a classe, disse: O coração é o que usamos para a religião, ao passo que fazemos uso do cérebro para a ciência. Uma história apócrifa? Uma caricatura de anti-intelectualismo cristão? Não, a história foi narrada por uma jovem que naquele dia estava na sala. Pior, entre uns duzentos alunos, e ela foi a única que contestou. Pelo visto, os demais não acharam nada incomum restringir a religião ao domínio do "coração".

Na função de pais, pastores, professores e líderes cristãos de grupo de mocidade, vemos constantemente os jovens humilhados pela contracorrente de tendências culturais poderosas. Se tudo que lhes dermos for uma religião do "coração", não serão bastante fortes para se oporem à isca de idéias atraentes e perigosas. Os jovens crentes também precisam de uma religião do "cérebro" — educação em cosmovisão e apologética — para equipá-los na análise e crítica de cosmovisões concorrentes que eles encontrarão no mundo afora. Se estiverem prevenidos e armados, os jovens pelo menos terão a chance de lutar quando forem a minoria entre os companheiros de classe ou colegas de trabalho. Educar os jovens a desenvolver uma mente cristã já não é opção; é parte indispensável do equipamento de sobrevivência.

Nancy Pearcey
In: Verdade Absoluta, CPAD

Não é justo, clamava o relativista

Se há uma característica prevalecente na cultura moderna, é o relativismo moral. Contudo, este é um dos "ismos" mais fáceis de abater. Por quê? Porque, apesar do que a pessoa diga em que acredita, ninguém confrontado com a crueldade genuína continua sendo um relativista moral. 

Depois da Segunda Guerra Mundial, quando as atrocidades dos cam­pos de concentração nazistas vieram à tona, houve uma crise entre os indivíduos cultos. Imersos no cinismo e relativismo típico de sua classe, pela primeira vez perceberam de modo visceral que o mal é real. Contu­do, suas filosofias seculares não lhes deram base para fazer julgamentos morais objetivos e universais, visto que tais filosofias reduziram os julga­mentos morais a meras preferências pessoais ou convenções culturais. As­sim, eles se acharam presos em contradição prática, o que gerou tremenda tensão interna. 

O dilema é que os seres humanos de forma irresistível e inevitável fazem julgamentos morais. No entanto, as cosmovisões não-bíblicas não fornecem base para eles. Quando os não-crentes agem de acordo com a natureza moral intrínseca e pronunciam que algo é certo ou errado de modo verdadeiro, eles estão sendo incoerentes com a filosofia que profes­sam. Desta forma, a condenam por suas ações. "Sempre que você encon­trar alguém que diz que não acredita em certo ou errado, no momento seguinte esse indivíduo voltará ao que disse", escreve C. S. Lewis. "Ele pode quebrar a promessa que lhe fez, mas se você quebrar a promessa que fez para ele, num abrir e fechar de olhos ele reclama:'Não é justo'". 

"Pelo visto, somos forçados a acreditar em certo e errado", conclui Lewis. "Às vezes, as pessoas se equivocam a esse respeito, da mesma ma­neira que as pessoas às vezes erram ao fazer contas de somar; mas não é questão de mero gosto e opinião mais do que tabuada". Qual é a base lógica para esta crença inevitável sobre certo e errado? A única base para uma moralidade objetiva é a existência de um Deus santo, cujo caráter fornece o fundamento básico para os padrões morais. O cristianismo ex­plica por que somos criaturas morais, e estabelece a validade de nosso senso moral.

Nancy Pearsey
In: Verdade Absoluta

Fatos que corroboram a ressurreição de Cristo

Primeiro, existe o fato da Igreja Cristã. Ela tem um alcance mundial. Sua história pode ser traçada desde a Palestina, lá pelo ano 32 d.C. Ela simplesmente surgiu, ou existiu uma causa para isso? Essa gente que foi chamada de cristãos pela primeira vez em Antioquia virou de cabeça para baixo o mundo do seu tempo. Eles se referiam constantemente à Ressurreição como a base do seu ensino, da sua pregação, da sua vida e — o que é mais significativo — da sua morte. 

Em seguida vem o fato do Dia Cristão. O domingo é o dia de culto para os cristãos. Sua história também pode remontar ao ano 32 d.C. Esta alteração no calendário foi monumental, e algo semelhante a um cataclismo deve ter acontecido para mudar o dia de culto do sábado judaico, o sétima dia da semana, para o domingo, o primeiro. Os cristãos diziam que esta alteração ocorreu por causa do seu desejo de comemorar a ressurreição de Jesus dentre os mortos. Esta mudança é tanto mais notável quanto nos lembramos de que os primeiros cristãos eram judeus. Se a Ressurreição não explica esta monumental reviravolta, que é o que a explica, então?

Vem depois o Livro Cristão, o Novo Testamento. Suas páginas encerram seis testemunhas independentes do fato da Ressurreição. Três deles são de testemunhas oculares: João, Pedro e Mateus. Paulo, escrevendo às igrejas numa data antiga, refere-se à Ressurreição de tal maneira que se torna óbvio que, tanto para ele como para seus leitores, o acontecimento era bem conhecido e aceito sem discussão. Esses homens, que contribuíram para transformar a estrutura moral da sociedade, são mentirosos consumados, ou tolos enganados? Estas alternativas são mais difíceis de crer do que o fato da Ressurreição, e não há nem uma sombra de prova para apoiá-las.

Paul Little
In: Você pode defender sua fé?

Carta a um irmão inquieto - 2

Caro Rick,

Espero que esteja bem de saúde e principalmente gozando de plena comunhão com Cristo. Recebi a resposta à minha primeira carta enviada por email, e após um tempo digerindo-a concluí ser o momento de enviar-lhe uma resposta. Espero que não a tome como uma disposição para a contenda, mas perceba em minhas palavras um sincero interesse na verdade e reconheça que assim como se preocupa com que eu ande nela, tenho a mesma preocupação em relação à você.

Em sua resposta, você reconheceu que a Bíblia até fala de predestinação, mas disse que “não é bem assim”. Alegou que predestinar não significa que Deus decide antes da pessoa nascer se ela vai para o céu ou para o inferno. Que é cada pessoa, quando aceita Jesus, que predestina a si mesmo e que Deus apenas predestinou que quem aceitar a Jesus será salvo. Se uma pessoa quiser, mesmo depois de ter aceitado Jesus pode recusar ser predestinado para o céu. Confesso que suas explicações soaram confusas para mim, além de me parecerem tentativas de fugir do significado do termo predestinar na Bíblia.

O verbo predestinar vem do grego proorizo e significa “decidir de antemão”, ou seja, destinar antecipadamente. Todo verbo de ação tem um sujeito, aquele que realiza a ação, e é indicado pela voz ativa. Em Rm 8:28-29, o sujeito da predestinação é Deus, pois diz que “Deus... os predestinou”. Em Ef 1:3,5 é “Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” que “em amor nos predestinou”. Os objetos da ação são os que sofrem a ação e isto é indicado pela voz passiva, como no verso 11 de Efésios 5, onde está dito que “fomos predestinados”. A análise simples dos verbos demonstra que é Deus que predestina e que o homem é predestinado sem influir nisso.

Também não é correta sua suposição de que o homem se predestina ao crer em Jesus. A palavra predestinação, como já dissemos, significa “destinar de antemão”. Em Romanos 8:30, diz que “aos que predestinou... a estes também chamou”. A predestinação ocorre antes de ouvirmos o chamado do Senhor. Em Atos 13:48 temos um relato esclarecedor sobre a relação entre predestinação e fé: “...e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna” (At 13:48). A ordem dos eventos é bem clara: a predestinação antecede a fé e não se baseia nela. 

Levemos isso em consideração enquanto analisamos sua afirmação de que a pessoa pode recusar ser predestinada, mesmo depois de ter crido em Jesus. Sendo Deus quem predestina, a predestinação tem que ser infalível. Veja que em Romanos há uma corrente inquebrável: os que conheceu são os mesmos que predestinou, que por sua vez são os mesmos que chamou, que são os mesmos que justificou e que são os mesmos que glorificou. Não há margem para concluir que algum predestinado não chegará finalmente à glória. Não seria o caso se fosse o homem que predestinasse a si mesmo, mas não pode ser de outra forma sendo Deus quem predestina, pois fomos “predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1:11). O autor sagrado acrescenta que fomos “selados com o Santo Espírito da promessa o qual é o penhor da nossa herança, ao resgate da sua propriedade” (Ef 1:13-14). Sendo a predestinação um decreto divino, é tão infalível quanto qualquer decreto de Deus.

Rick, não sei se consegui ser suficientemente claro, seja na interpretação de seu pensamento, seja na transmissão do meu. Mas tenho certeza de que se você examinar o que eu disse, numa atitude de aceitação do que a Bíblia afirma, a verdade irá aflorar. Você chegará à conclusão que predestinar significa decidir o destino desde a eternidade, que é Deus e não o homem que predestina e que sendo a predestinação divina e eterna, ninguém pode mudar essa predestinação pela sua própria vontade.

Quanto às razões que você apresentou, pelas quais “a predestinação não pode ser verdade”, irei lhe escrever oportunamente. Darei um tempo para que reflita sobre o que escrevi e para que tenha tempo de perguntar algo que eventualmente não consegui deixar claro ou firme o suficiente.

Seu sempre irmão em Cristo,

Leia a Carta a um irmão inquieto - 3

Destruindo o "Teorema do Macaco Infinito"

Todos os sonetos são do mesmo comprimento. São, por definição, compostos de catorze versos. Escolhi aquele do qual decorei o primeiro verso, que diz: "Devo comparar-te a um dia de verão?". Contei o nú­mero de letras. Há 488 letras nesse soneto. Qual é a probabilidade de, digitando a esmo, conseguirmos todas essas letras na exata seqüência em todos os ver­sos? Conseguiremos o número 26 multiplicado por ele mesmo, 488 vezes, ou seja, 26 elevado à 488ª potência. Ou, em outras palavras, com base no 10, 10 elevado à 690ª potência.

Agora, o número de partículas no universo — não grãos de areia, estou falando de prótons, elétrons e nêutrons — é de 10 à 80ª. Dez elevado à octagésima potência é 1 com 80 zeros à direita. Dez elevado à 690ª é 1 com 690 zeros à direita. Não há partículas suficien­tes no universo com que anotarmos as tentativas. Se­ríamos derrotados por um fator de 10 à 600ª. Se tomássemos o universo inteiro e o convertêssemos em chips de computador — esqueçam os macacos —, cada chip pesando um milionésimo de grama e sendo capaz de processar 488 tentativas a, digamos, um mi­lhão de vezes por segundo, produzindo letras ao aca­so, o número de tentativas que conseguiríamos seria de 10 à 90ª. Mais uma vez, seríamos derrotados por um fator de 10 à 600ª. Nunca criaríamos um soneto por acaso. O universo teria de ser maior, na propor­ção de 10 elevado à 600ª potência. No entanto, o mun­do acredita que um bando de macacos pode fazer isso todas as vezes.

Garry Schroeder
Citado por Antony Few em "Um Ateu Garante: Deus Existe"
Nota: O "teorema do macaco infinito", apresentado sob diversas formas, defende a possibilidade de a vida ter surgido por acaso, usando a analogia de uma multidão de macacos batendo nas teclas de um computador e, em dado momento, acabarem por escrever um soneto digno de Shakespeare.


Fala, Schaeffer!


Essa declaração de Francis Schaeffer, em uma de suas cartas pessoais, é tão importante que decidi traduzi-la e postá-la aqui, enquanto estou às voltas com minha mudança para Natal. Boa leitura e boas reflexões!
"Acredito que, quando a Bíblia diz que Deus é o Deus da verdade, essa afirmação é muito mais profunda do que geralmente alcançamos. Está dito ali que Deus é a verdade no sentido de que é o Deus da realidade - que há apenas um Deus e uma realidade. E quem não conhece Deus nem a realidade que advém desse conhecimento (inclusive o mundo tal como Ele fez e tal como é agora debaixo do pecado) não tem Deus e vive em um universo que de fato não existe, um universo não verdadeiro no sentido profundo de não real. Creio que foi isso o que levou a filosofias como o existencialismo e o positivismo lógico. E mais, acredito que esse universo de 'não Deus' e de irrealidade é um produto da 'grande mentira' do pai da mentira, o Diabo: uma completa perversão."
Letters of Francis A. Schaeffer
Traduzido e publicado por Norma Braga

Examinando a prova de Wesley contra a eleição

“Por isso, tudo suporto por causa dos eleitos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus, com glória eterna.” 2Tm 2:10
John Wesley é um herói da fé. Isso se deve mais ao que ele fez do que ao que escreveu, embora ele tivesse escrito muito e bem. Mas especialmente no que discordava do calvinismo, ele poderia ter feito melhor. Um exemplo é a seguinte citação retirada de um sermão dele:
“Se existe a eleição, toda a pregação é vã. É desnecessária aos que são eleitos, pois, com ela ou sem ela eles serão infalivelmente salvos. Portanto, o fim da pregação - salvar as almas - é destituído de sentido em relação a eles; e é inútil àqueles que não são eleitos, pois, possivelmente, não poderão ser salvos. Estes, quer com a pregação ou sem ela, serão infalivelmente condenados... Portanto é esta uma prova simples de que a doutrina da predestinação não é uma doutrina de Deus, porque torna desnecessária a ordenança de Deus, e Deus não está dividido contra si mesmo” (A Livre Graça).
É muito fácil perceber a fragilidade da “prova simples” apresentada pelo grande evangelista. A prova consiste em dizer “se existe eleição, toda a pregação é vã”, pois ela seria “desnecessária aos que são eleitos” e “inútil aos que não são eleitos”, pois os primeiros serão “infalivelmente salvos” e os últimos “infalivelmente condenados”. Para invalidar a prova wesleyana basta demonstrar o seguinte:

1. A eleição é um fato bíblico incontestável. As palavras eleição, eleitos e escolhidos relacionada à salvação, ocorrem diversas vezes no Novo Testamento (Mt 22:14; 24:24; Mc 13:20,22; Rm 8:33; 9:11; 11:5; Ef 1:11; Cl 13:12; 1Tm 5:21; 2Tm 2:10; Tt 1:1; 1Pe 1:1-2,10; Ap 17:14). Paulo escreve que “Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença” (Ef 1:4). Dos tessalonicenses ele disse “sabemos, irmãos, amados de Deus, que ele os escolheu” (1Ts 1:4) e por isso reconhecia que devia “sempre dar graças a Deus por vocês, irmãos amados pelo Senhor, porque desde o princípio Deus os escolheu para serem salvos mediante a obra santificadora do Espírito e a fé na verdade” (2Ts 2:13). Nada mais precisaria ser dito, pois a premissa de John Wesley mostra-se falsa. Porém, vamos dar mais dois passos.

2. A pregação é necessária para o eleito ser salvo. A afirmação de que a pregação do evangelho é desnecessária para a salvação é falaciosa. Pois na mesma Bíblia que declara que Deus elege, Jesus ordena que o evangelho seja pregado. Sendo a eleição um fato, a pregação não pode ser vã, embora alguns prefiram considerá-la nula a reconhecer a eleição soberana e graciosa. A eleição não é a salvação, mas é para a salvação, “porque desde o princípio Deus os escolheu para serem salvos” (1Ts 2:13). E o meio que Deus escolheu para chamar os seus eleitos é a fé, e esta vem pela pregação do evangelho. Paulo foi feito “apóstolo de Jesus Cristo para levar os eleitos de Deus à fé e ao conhecimento da verdade que conduz à piedade, fé e conhecimento que se fundamentam na esperança da vida eterna, a qual o Deus que não mente prometeu antes dos tempos eternos” (Tt 1:1-2). É por causa disso que ele disse “tudo suporto por causa dos eleitos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus, com glória eterna” (2Tm 2:10). Portanto, longe de ser vã, a pregação é requerida para a salvação do eleito.

3. A pregação ao não eleito não é inútil. O propósito mais elevado da pregação do evangelho não é a salvação do homem, mas a glória de Deus. Daí a mensagem ser chamada de “o evangelho da glória do Deus bendito” (1Tm 1:11), embora seja fato que “o deus desta era cegou o entendimento dos descrentes, para que não vejam a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” (2Co 4:4), Deus é glorificado quando o evangelho é anunciado, ainda que nenhum ouvinte o aceite. Por isso devemos pregar a todos, indistintamente, sabendo que Cristo “por nosso intermédio exala em todo lugar a fragrância do seu conhecimento; porque para Deus somos o aroma de Cristo entre os que estão sendo salvos e os que estão perecendo. Para estes somos cheiro de morte; para aqueles fragrância de vida” (2Co 2:14-15). Se o Senhor tem Seus eleitos e nos ordena a pregar a todos, então há um propósito na pregação ao não eleito e Deus é glorificado nisso.

Isto considerado, vê-se que a argumentação de John Wesley contra a eleição graciosa e soberana não se sustenta.

Soli Deo Gloria

Vem aí o Congresso de Darwinismo

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O ateísmo é uma solução simplista


Meu argumento contra Deus era o de que o universo parecia injusto e cruel. No entanto, de onde eu tirara essa ideia de justo e injusto? Um homem não diz que uma linha é torta se não souber o que é uma linha reta. Com o que eu comparava o universo quando o chamava de injusto? Se o espetáculo inteiro era ruim do começo ao fim, como é que eu, fazendo parte dele, podia ter uma reação assim tão violenta? 

Um homem sente o corpo molhado quando entra na água porque não é um animal aquático; um peixe não se sente assim. E claro que eu poderia ter desistido da minha ideia de justiça dizendo que ela não passava de uma ideia particular minha. Se procedesse assim, porém, meu argumento contra Deus também desmoronaria - pois depende da premissa de que o mundo é realmente injusto, e não de que simplesmente não agrada aos meus caprichos pessoais. 

Assim, no próprio ato de tentar provar que Deus não existe - ou, por outra, que a realidade como um todo não tem sentido -, vi-me forçado a admitir que uma parte da realidade - a saber, minha ideia de justiça- tem sentido, sim. Ou seja, o ateísmo é uma solução simplista. Se o universo inteiro não tivesse sentido, nunca perceberíamos que ele não tem sentido - do mesmo modo que, se não existisse luz no universo e as criaturas não tivessem olhos, nunca nos saberíamos imersos na escuridão. A própria palavra escuridão não teria significado.

C. S. Lewis
Cristianismo puro e simples