Por que não devo me tornar um calvinista?

Um artigo publicado pelo irmão Everton Edvaldo procura apresentar as razões pelas quais uma pessoa não deve se tornar calvinista. Depois de reconhecer que “o interesse pelo calvinismo tem crescido bastante”, causando um “aumento do número de adeptos inclusive por irmãos de igrejas pentecostais”, ele lista os motivos para se rejeitar “os cinco pontos da soteriologia reformada”. São eles:

1. Ele alega que o calvinismo não é uma doutrina bíblica. Mas ele começa esse ponto negando que “esteja afirmando que não haja nada no calvinismo que não seja bíblico” e dá como exemplo a doutrina bíblica da depravação total. Poucas linhas antes, porém, ele citou a depravação total como um dos pontos característicos da soteriologia reformada! Ele também diz que na defesa dos seus cinco pontos o calvinismo utiliza-se de “muitas passagens”, tanto no Antigo como no Novo Testamento. Em seguida ele se propõe demonstrar eleição incondicional como exemplo de falta de apoio bíblico. Ele admite que os calvinistas usam tanto passagens do Antigo como do Novo Testamento para apoiá-la. Ele diz que a maioria dos textos do Antigo Testamento que tratam de eleição não se refere a eleição para a salvação. Mas reconhece que “no Novo Testamento eles não encontram muita dificuldade para sustentar sua visão da eleição”.

Em resumo, ele admite que pelo menos num ponto os calvinistas são totalmente bíblicos e que para os outros contam com várias passagens bíblicas para apoiá-los, inclusive diz que na eleição incondicional não tem muita dificuldade em sustenta-la, ao contrário dos arminianos que precisam fazer uma exegese e interpretação de cada uma das muitas passagens. Agora, voltemos o argumento contra a posição dele. Que ele nos apresente uma lista de passagens bíblicas que declarem de forma expressa ou das quais se possa extrair, com boa exegese, a doutrina do livre-arbítrio, da graça preveniente, da fé como condição prevista para a eleição e da distinção entre salvo-eleito, precedida de uma clara definição de cada termo e então poderemos pesar o valor de seu motivo para rejeitar o calvinismo.

2. Ele afirma que o calvinismo não é conhecido pelos pais da igreja. A premissa do autor é que quanto mais antigo for um teólogo, mais pura é sua doutrina. Ledo engano. Apelar aos pais apostólicos, os mais antigos dos pais, é dar um tiro no pé. Quem de fato os leu percebe que distorceram a soteriologia paulina. Eu li, mas para que não fique somente a opinião de um calvinista, os arminianos Roger Olson e Justo González, para ficar apenas com dois deles, chegam a essa mesma conclusão.

Reconheço que os pais apostólicos e os pais apologistas não tomaram conhecimento do calvinismo. O mesmo ocorre em relação ao arminianismo. É anacrônico afirmar o contrário. Mas nada impede que os arminianos venham a endossar a soteriologia dos pais apostólicos, se ficam à vontade com desvios doutrinários. Que disputem com os católicos a posse dos pais apostólicos como precursores de sua teologia. Estamos bem servidos com Agostinho, a quem nenhum dos que o precederam faz sombra.

3. Ele acusa o calvinismo de ser historicamente propagador de intolerância. A acusação começa com Calvino, tendo como prova uma única citação de uma obra no mínimo questionável. E logo passa a acusar “os seus discípulos”, colocando Gomarus e Spurgeon no mesmo banco de réus. E fecha o caso com a “incontestável” prova de sua experiência, pela qual, afirma que de “cada dez calvinista que conheço, seis ou sete são intolerantes”. Abro mão de apresentar uma defesa das pessoas citadas, pois isso é irrelevante. O que o jovem afirma é que calvinismo leva à intolerância. Então, argumentos ad hominen à parte, quais das cinco doutrinas tem como implicação a intolerância? Se o autor afirma que o calvinismo propaga intolerância, então que apresente a lógica pela qual as doutrinas da graça produz intolerantes e, em contraposição, mostre como os pontos distintivos do arminismo contribuem para formar crentes mais tolerantes.

4. Ele informa que o calvinismo não é a única alternativa teológica para a mecânica da salvação. E isto e um fato. Aliás, sequer o cristianismo é a única alternativa. Há outros sistemas, cristãos e não cristãos, que se propõem a explicar como o homem pode ser salvo. Porém, os sistemas não podem estar todos certos, na verdade, a maioria deles descamba no inferno. O arminianismo é um sistema aceitável, ainda que falho. O calvinismo não é apenas uma alternativa, mas é a que reflete com mais fidelidade o evangelho de Jesus Cristo. Mesmo assim, ninguém precisa ser ou declarar-se calvinista. Basta que leia e creia no que a Bíblia diz. Esse é o conselho que tenho dado por vários anos.

Na sua conclusão, o autor diz que ninguém se torna calvinista lendo a Bíblia. A base de sua afirmação? Sua “longa e inquestionável” experiência. Eu conheço alguém creu na depravação total, na chamada eficaz, na segurança da salvação lendo apenas a Bíblia. E quando leu uma lição da escola dominical que explicava a doutrina da eleição, foi conferir na Bíblia e descobriu a eleição soberana. Isso antes de ter ouvido a palavra calvinismo, que aliás, quando ouviu foi de forma negativa e pensou que nunca seriam um.

Mas sim, há razões para você não ser um calvinista. A primeira delas é que terá que defender doutrinas desagradáveis aos ouvidos da maioria das pessoas. Um Deus que decide quem será salvo, que detém o controle de todas as coisas e que faz Sua vontade contra a vontade dos homens e que ainda assim pedirá contas de todas as suas criaturas não é algo que soe bem aos ouvidos delicados dos homens. A segunda delas é que você terá que mudar a visão otimista que tem das pessoas, a começar por você mesmo. Deverá reconhecer sua total incapacidade e absoluta dependência de Deus para cada detalhe de sua vida. A terceira, decorrente das primeiras, é que você nunca mais poderá se orgulhar de suas conquistas e vitórias, pois a glória por todas as suas realizações, grandes e pequenas, públicas ou particulares, deverá ser dada unicamente a Deus, além de ter que receber de bom grado todo mal que lhe ocorrer como vindo de Deus. Mas há uma única razão para que você seja um calvinista (embora jamais precise se denominar assim): o amor pela verdade.

Soli Deo Gloria

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"Se amássemos mais a glória de Deus, se nos importássemos mais com o bem eterno das almas dos homens, não nos recusaríamos a nos engajar em uma controvérsia necessária, quando a verdade do evangelho estivesse em jogo. A ordenança apostólica é clara. Devemos “manter a verdade em amor", não sendo nem desleais no nosso amor, nem sem amor na nossa verdade, mas mantendo os dois em equilíbrio (...) A atividade apropriada aos cristãos professos que discordam uns dos outros não é a de ignorar, nem de esconder, nem mesmo minimizar suas diferenças, mas discuti-las." John Stott

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