Como os calvinistas explicam Tito 2:11?

Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” (Tito 2.11)  
Um dos recursos bíblicos mais utilizados contra o calvinismo é Tito 2:11. É tido como inexplicável à luz da soteriologia calvinista. Por isso é citado contra a doutrina da eleição incondicional, da graça irresistível e da expiação limitada. Mas será que é isso mesmo ou existe alguma explicação que harmonize esse versículo com as doutrinas da graça como entendidas pelos reformados? Comecemos considerando as palavras e expressões isoladas, depois as implicações da declaração como um todo e, finalmente, a interpretação à luz do contexto.

“Graça de Deus” refere a tudo aquilo que o Senhor faz para redimir o homem do pecado e leva-lo para o céu. Ela é livre - não devida a ninguém, e incondicional - não havendo nenhuma condição prévia e nenhum pagamento posterior. Essa graça se manifestou (apareceu, brilhou) na vinda de Jesus, pois se diz que “a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1:17). Sem dúvida, essa graça é salvífica, pois é qualificada como salvadora, no sentido de meio ou instrumento que produz a salvação. Nas outras quatro ocorrência do termo é traduzida simplesmente como salvação. “Todos os homens” é uma expressão comum na Bíblia, ora significando todos os homens sem exceção, ora todos os tipos ou classes de homens. Em cada caso, o sentido deve ser buscado no contexto.

A relação entre “a graça de Deus se manifestou salvadora” e “todos os homens” apresenta dificuldades, exceto que se advogue o universalismo. Em geral, tanto calvinistas como não calvinistas negam o universalismo, e para harmonizar “graça que salva” com “todos os homens” precisam ponderar os lados da equação. Os não calvinistas atacam a graça, seja tornando-a insuficiente e requerendo uma ação do homem para completa-la, seja diminuindo a sua eficácia, tornando-a apenas potencialmente salvadora, podendo ser resistida e frustrada pela vontade do homem. Os calvinistas, por sua vez, interpretam “todos os homens” à luz do contexto e chegam à conclusão que se refere a toda classe de homens, e não a todos os homens sem exceção.

Notemos, primeiramente, que o versículo começa com a palavra “porquanto”, que é uma conjunção exploratória lógica, ou seja, indica que o que segue é uma justificativa do que precede. Em Tt 2:11-14 Paulo está justificando os imperativos éticos dos primeiros versículos. Sendo assim, “porquanto” indica que devemos ler o que vem antes, no caso, Tito 2:1-10. Ao ler esses versos, notamos algumas coisas. Primeiro, que Paulo está se referindo a pessoas crentes, pois proclama uma ética que deriva da sã doutrina. Segundo, que se trata de pessoas de diversas classes (homens, mulheres, idosos, jovens, escravos). Terceiro, que são gentios, em sua maioria, pelo menos. Se fossem judeus, estariam familiarizados com uma ética derivada da doutrina e não precisariam da justificativa de Paulo. Portanto, “todos os homens” é uma referência à toda classe de homens salvos pela graça, ou seja, independente de etnia, sexo, idade, classe social, todos os que são salvos pela graça devem adornar à sã doutrina com um modo de vida digno.

Mas não são apenas os versos anteriores a Tt 2:11 que limitam a referência paulina aos crentes de diversas classes. O verso 12 continua dizendo que a graça se manifestou “educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente” (Tt 2.12). A graça não se manifesta passivamente, potencialmente salvadora apenas. Tampouco vem, nos salva e vai embora. Mas permanece conosco e efetivamente nos educa quanto à maneira de viver neste mundo. A referência aqui, é óbviamente às classes de crentes referida na parte inicial do capítulo, como os pronomes indicam. O verso 13, “aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus” (Tt 2.13), também limita a referência de Paulo aos crentes, únicos para os quais a volta de Cristo se constitui numa “bendita esperança”. E, finalmente, o verso 14 declara “o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras” (Tt 2.14). O pronome “nos” e a expressão “um povo exclusivamente seu” deixam claro que Paulo tem em mente os crentes, tão somente.

Como vimos, advogar que “todos os homens” refere-se a todos os homens que viveram em todos os tempos e lugares implica numa graça “salvadora que não salva” todos aqueles a quem é manifestada. Por outro lado, o capítulo inteiro está falando de crentes, primeiro prescrevendo um comportamento ético como resultado da sã doutrina, depois justificando esse comportamento frente à manifestação da graça salvadora e finalmente apontando para os resultados presentes e futuros de se viver de acordo com esses mandamentos. Tomar “todos os homens” no sentido da humanidade inteira, sem excluir nenhuma pessoa, é tirar a frase do contexto em que está inserida e dar-lhe um sentido baseado em nossos pressupostos.

Resta-nos observar o que diz o verso 15: “Dize estas coisas; exorta e repreende também com toda a autoridade. Ninguém te despreze.” (Tt 2.15)

Soli Deo Gloria

11 comentários:

  1. Os calvinistas eu não sei, mas Agostinho explica desta forma a referência a TODOS: "Assim como, ao nos referir a um único professor de letras da cidade, corretamente dizemos: ELE ENSINA A TODOS A LITERATURA, não porque todos recebem dele o ensinamento, mas porque toda pessoa que nesta cidade aprender literatura, certamente só poderá aprender com ele.
    Da mesma forma, nós dizemos com exatidão que "A GRAÇA DE DEUS TRAZ SALVAÇÃO A TODOS OS HOMENS, NÃO PORQUE TODOS SERÃO SALVOS, MAS PORQUE NINGUÉM SERÁ SALVO A NÃO SER ATRAVÉS DESTA GRAÇA". OUTRA FORMA"
    Espero ter colaborado.
    Abraços.
    .

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    1. Fábio,

      Desconhecia essa explicação de Agostinho. Não conflita com a explicação que eu apresentei no texto e é de fato interessante.

      Obrigado pela colaboração,

      Em Cristo,

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    2. Pegando a carona sobre a observação aí de Agostinho, como conciliar a palavra TODO e a palavra MUNDO em João 3:16? Deus não teria amado de fato ao mundo (= todos do mundo)? Ele não é infinitamente amor? Bem, e como conciliar 1 Timóteo 2:4 com a explicação dada pela matéria postada se "TODOS" aqui se referir somente a salvos? Não já são salvos, e por que a vontade de Deus ainda é "... que TODOS os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade."? Percebe-se que Agostinho não desatou o nó tão fácil assim!

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    3. Oi Paulo,

      Obrigado pelas sua leitura e comentários.

      Tanto a palavra "todos" como a "palavra" mundo tem uma variedade de sentidos, que deve ser determinado pelo contexto em que ocorre. No artigo acima, a palavra todos foi interpretada de acordo com o contexto de Tito 2.

      Aqui no blog você encontra artigos que tratam de Jo 3:16 e 1Tm 2:4, utilize a ferramenta de busca e se tiver dificuldade, dê um toque.

      Em Cristo,

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  2. Excelente explicação.Clóvis vc já alguma vez explicou Atos 10:48 à um arminiano?

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    1. Obrigado por sua avaliação. No artigo Dispostos ou destinados? eu analisei At 13:48.

      Em Cristo,

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  3. Eu sou calvinista, mas não consigo achar uma outra interpretação pra João 3:16, pra mim o texto diz aquilo que o texto quer dizer, não creio que esteja tratando de um amor comum de Deus para suas criaturas, como muitos calvinistas fazem usando passagens como a de Mateus 5:45, que fala que Deus faz com que a chuva venha sobre justos e injustos, e o sol se levante sobre maus e bons.

    Mas é claro que existem passagens na Bíblia que a palavra todos não significa todas as pessoas individualmente.

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  4. Os não calvinistas atacam a graça, seja tornando-a insuficiente e requerendo uma ação do homem para completa-la,

    Não exatamente. Mesmo porque graça não é sinônimo de salvação. A graça em si é completa, e ela não deixa de ser completa acaso o homem a recuse.

    Aliás, eu não encontro base para esta definição de "sucesso da graça" anexada à "taxa de aceitação humana".

    seja diminuindo a sua eficácia, tornando-a apenas potencialmente salvadora, podendo ser resistida e frustrada pela vontade do homem.

    O que cai no mesmo caso acima. A graça não é menos eficaz só porque foi resistida. Se permite a analogia, uma escavadeira não deixa de ser uma ferramenta eficaz para cavar só porque ela foi preterida ou recusada em favor das mãos nuas (ou de uma colher de café :D).
    O mesmo cabe na analogia de Agostinho: o professor não é menos competente para ensinar se os alunos resistem ao Seu ensino.

    Os calvinistas, por sua vez, interpretam “todos os homens” à luz do contexto e chegam à conclusão que se refere a toda classe de homens, e não a todos os homens sem exceção.

    Na verdade, o máximo que se chega é a uma inconclusão. Dizer que a graça se manifestou a 'toda espécie de gente' não impede que isto se refira à massa completa da humanidade. Ainda se precisa de uma menção explícita que elimine de vez os "não-salvos" da jogada.

    Pondo de outra forma: Enquanto você tenta explicar que o texto diz "todos os homens, tanto pretos quanto brancos, tanto jovens quanto velhos, tanto meninos quanto meninas", você de fato não afastou a possibilidade de ele se referir. também, "tanto justos quanto ímpios" ou 'tanto eleito quanto preteridos".

    Talvez, e só talvez, isto poderia ser remediado com o apelo ao verso seguinte. Mas aqui eu tenho uma dúvida sobre as traduções.

    A NVI diz:
    Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens.
    Ela nos ensina a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver de maneira sensata, justa e piedosa nesta era presente,
    Tito 2:11-12


    Já a ACF:
    Porque a graça salvadora de Deus se há manifestado a todos os homens,
    Ensinando-nos que, renunciando à impiedade e às concupiscências mundanas, vivamos neste presente século sóbria, e justa, e piamente,
    Tito 2:11-12

    Não penso que nenhuma das traduções permita dizer que o efeito causal direto da graça é a iluminação do intelecto para a prática da piedade - como diz o velho refrão, ausência de evidência não evidencia ausência.

    Usando a analogia de Agostinho, o encaixe é perfeito. O professor veio ensinando, mas isto não quer dizer que só os que de fato aprenderam e puseram em prática é que foram matriculados, enquanto não havia vagas para os demais.

    De qualquer forma, a NVI parece mais favorável a mim, dado que a causalidade que falei acima é mais enfraquecida nela.

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    1. Credulo,

      Paz seja contigo. Vou numerar os pontos de nossa conversa.

      1. "Mesmo porque graça não é sinônimo de salvação. A graça em si é completa, e ela não deixa de ser completa acaso o homem a recuse. Aliás, eu não encontro base para esta definição de "sucesso da graça" anexada à "taxa de aceitação humana".

      R1. O lema "Sola Gratia" significa que a graça é suficiente para a salvação. Isso não a faz sinônimo de salvação, mas no verso em foco ela é "graça salvadora" ou "graça que salva".

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    2. Pax, Clóvis!

      Mas a graça é salvífica ainda que seja recusada. E não, não quero adentrar no porquê de ela ser recusada. Isto é de menor importância.

      O que me interessou foi o caso da gramática. Qual seria a melhor tradução? A NVI ou a ACF?

      Credulo.

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  5. Continuando:

    Mas, lendo o verso 3 e pensando em ordem dos decretos, a expiação é fortemente ligada não ao stotus de eleição, mas de redenção. Paulo enfatiza que a bondade de Deus se manifestou quando éramos pecadores - e não quando éramos eleitos.

    Neste sentido, a expiação é relacionada aos pecadores e não aos eleitos. E isto é um tanto incômodo, afinal tanto eleitos quanto não eleitos foram pecadores.

    SE permite o acréscimo, é sobre o tempo verbal. Paulo fala como se a manifestação tivesse ocorrido no passado. Matthew Henry compara isto com o surgimento das alianças, a mosaica que surgiu no Sinai e a cristã no Gólgota (http://calvinandcalvinism.com/?p=3460). Achei interessante, pois ele evoca isto como sendo uma evidência de maior expansão: a aliança mosaica para os judeus, e a aliança cristã para todos.

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"Se amássemos mais a glória de Deus, se nos importássemos mais com o bem eterno das almas dos homens, não nos recusaríamos a nos engajar em uma controvérsia necessária, quando a verdade do evangelho estivesse em jogo. A ordenança apostólica é clara. Devemos “manter a verdade em amor", não sendo nem desleais no nosso amor, nem sem amor na nossa verdade, mas mantendo os dois em equilíbrio (...) A atividade apropriada aos cristãos professos que discordam uns dos outros não é a de ignorar, nem de esconder, nem mesmo minimizar suas diferenças, mas discuti-las." John Stott

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