A filosofia do pluralismo

Ajith Fernando*

A filosofia do pluralismo acha-se no âmago do pensamento do movimento da Nova Era e também dalgumas das teologias alegadamente cristãs. Encaixa-se bem, também, com o pensamento budista e hinduísta.

Aqui, não estamos falando do pluralismo que permite a existência de diferenças políticas, étnicas e culturais, numa sociedade ou igreja. Creio que aquele tipo de pluralismo seja saudável tanto para a igreja quanto para a sociedade. Pelo contrário, estamos no referindo aqui a “um posicionamento filosófico” que reconhece mais que um princípio ulterior e que, portanto, alega que não nos é possível dizer que qualquer sistema individual de pensamento é a verdade absoluta. Donald Carson o descreve como “um posicionamento que insiste que a tolerância é obrigatória, posto que nenhuma correnteza no mar da diversidade tem o direito de assumir a precedência sobre todas as demais correntezas.” Diz que “na esfera religiosa, nenhuma religião tem o direito de se declarar certa a si mesma, e as outras, falsas. O único credo absoluto é o credo do pluralismo.”

Talvez o pluralista moderno mais conhecido seja o teólogo presbiteriano britânico, João Hick, que agora está na Escola Pós-graduada Claremont, na Califórnia. Na década de 1970 conclamou a uma revolução copernicana na nossa teologia das religiões. Diz: “Copérnico reconhecia que é o Sol, e não a Terra, que está no centro, e que todos os corpos celestes, inclusive nossa própria Terra, giram em torno dele.” Aplica essa analogia à nossa abordagem às religiões. Diz que os cristãos têm conservado Cristo ou o cristianismo no centro, e considerado as demais religiões no seu relacionamento com o cristianismo. Pelo contrário, diz Hick: “Precisamos nos dar conta de que o universo das religiões centralizase em Deus, e não no cristianismo nem em qualquer outra religião. Ele é o Sol, a fonte originária da luz e da vida, a quem todas as religiões refletem das suas próprias maneiras diferentes.”

Nos seus escritos posteriores, Hick tem modificado um pouco essa posição. Agora, não é mais a Deus que coloca no centro, mas aquilo que chama de “o Real.” Assim, Hick se permite incluir no seu “sistema solar” das religiões os budistas Theravada que não levam em conta o divino no seu sistema religioso. Segundo essa idéia, os muçulmanos apreenderiam o Real como pessoal, ao passo que os hindus o apreenderiam como impessoal.

Por contraste com esse tipo de pluralismo, existe o inclusivismo. Essa opinião, que tem sido proposta por teólogos católicos romanos, tais como Karl Rahner, Hans Küng, e Raimundo Panikkar, está conquistando popularidade também nos círculos protestantes. Nesse sistema, a salvação é considerada como sendo somente por meio de Cristo. Entretanto, Cristo podia empregar outros meios para salvar, e não apenas aqueles que exigem que o Evangelho seja ouvido. Exemplos de semelhantes meios são chamados, segundo a linguagem católica romana típica, os sacramentos doutras religiões. Rahner descreveu os membros salvos doutras religiões como “cristãos anônimos.” Küng se refere às religiões não-cristãs como o modo “usual” da salvação, ao passo que o cristianismo é um modo “muito especial e extraordinário” da salvação.

Pensadores evangélicos tais como Sir Norman Anderson e, mais radicalmente, Clark Pinnock e John Sanders também vêem a possibilidade da salvação à parte do conhecimento explícito do Evangelho de Cristo. Entendem que nossa atitude de arrependimento e de fé é um meio que medeia a salvação através da graça de Deus, em Cristo.

A opinião cristã tradicional a respeito das religiões do mundo é chamada exclusivismo. Nesse caso, o Evangelho cristão é considerado a única verdade ulterior, e a aceitação desse Evangelho é a única maneira pela qual as pessoas possam ser salvas.

FERNANDO, Ajith. A supremacia de Cristo. São Paulo: Shedd Publicações.

3 comentários:

  1. Muito interessasnte, Clóvis, e complexo, preciso dizer. Mas vem de encontro com aquilo que venho escrevendo, sem dúvida.
    Saudações,
    Roger

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  2. Essa semana li um texto que fala "todas as religiões tem pigmentos da verdade, bom... penso que é possível pois assim que nascemos entramos em contato com a revelação de Deus, Paulo fala em Romanos 1.20-21 que somos indesculpaveis se não o glorificamos Deus como Deus pois a propria criação o revela, mas com respeito a salvação fica muito claro que só o cristianismo(através Cristo)pode-se chegar a salvação, a biblia como sendo revelação de Deus não deixa erro,, e é muito clara, se isso fosse verdade( que Deus usa outros meios de salvação), não precisariamos nos preocupar com pregar a Jesus como único meio, mas deixar que Deus trabalhe, salvando usando outros meios que não sejam a pregação de Jesus Cristo como salvador através de seus servos.( não seria necessario a grande comissão)

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"Se amássemos mais a glória de Deus, se nos importássemos mais com o bem eterno das almas dos homens, não nos recusaríamos a nos engajar em uma controvérsia necessária, quando a verdade do evangelho estivesse em jogo. A ordenança apostólica é clara. Devemos “manter a verdade em amor", não sendo nem desleais no nosso amor, nem sem amor na nossa verdade, mas mantendo os dois em equilíbrio (...) A atividade apropriada aos cristãos professos que discordam uns dos outros não é a de ignorar, nem de esconder, nem mesmo minimizar suas diferenças, mas discuti-las." John Stott

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