A providência de Silas Malafaia

Da primeira parte de uma pregação do pastor Silas Malafaia, baseada em Is 46:13, extraio o seguinte trecho, que sintetiza o ponto de vista do pregador, sendo que no restante da pregação ele se dispõe a provar essa proposição:

"Deus está no controle. Daí você pergunta: de que? E eu respondo: de tudo. Deus está no controle de tudo. Mas para que não haja confusão, pois existe uma corrente, da teologia da predestinação fatalista, que pode querer deturpar a minha palavra, e eles se confundem, exatamente aí, porque Deus está no controle de tudo, então Deus determina tudo e você não tem vontade nenhuma. Mas eu queria dizer aqui duas coisas para começar, fazer duas afirmativas, que são importantes, para que a gente daqui prá frente desenvolva e prove que o Deus que nós servimos está no controle de todas as coisas. A primeira: estar no controle não significa manipular o processo 24 horas por dia, sete dias na semana, 30 dias no mês, 365 dias no ano e toda vida. Estar no controle, não significa manipular o processo o tempo todo. E a segunda afirmativa completa a primeira. Estar no controle é você ter o poder e a autoridade para intervir, na hora que você quer, do jeito que você quer e como você quiser."


Antes de entrar no assunto propriamente dito, como sempre são necessários alguns esclarecimentos quase se dispõe a comentar as posições defendidas por não calvinistas. A primeira é que a predestinação, conforme entendida pelos reformados, não é fatalista, mas planejada e realizada por um Deus justo, sábio e bom. Além do mais, o assunto é menos sobre predestinação e mais sobre providência divina, distinção teológica importante. A segunda é que a providência divina não implica, bíblica ou logicamente, em anulação da vontade humana. O calvinismo histórico não nega a vontade humana, nega apenas que nos caídos essa vontade seja boa e livre.


A posição do pastor Silas Malafaia sobre a providência é clara. Deus detém o controle sobre tudo, mas não o exerce plenamente, intervindo apenas em algumas situações. Ele poderia determinar tudo o que acontece, mas permite ao homem escrever sua história, sendo que apenas em algumas vezes Ele guia a mão do homem sobre o papel. Essa posição livra o pastor da acusação de deísmo, corrente filosófica que admite que Deus criou este mundo, estabeleceu leis físicas para regê-lo e depois de colocá-lo para funcionar se afastou e nele não intervém. Mas, apesar disso, não representa a providência divina conforme as Escrituras, como veremos.


Segundo a Bíblia e contrariamente ao que afirma o pastor, Deus controla todas as coisas, em todos os lugares e em todo o tempo. Deus não apenas supervisiona o trabalho humano olhando por sobre seus ombros e agindo apenas quando o homem erra. O controle providencial de Deus é absoluto e não existe um só átomo dissidente no Universo. Este é o ensino das Escrituras Sagradas.

O homem não tem uma existência autônoma de Deus, mas como reconheceu o salmista "Tu, Senhor, preservas os homens e os animais" (Sl 36:6). A igreja primitiva reconhecia isso ao dizer que "Ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais" (At 17:25) e que por isso "nEle vivemos, e nos movemos, e existimos" (At 17:28). E quando a Bíblia diz que Deus dá tudo o que o homem precisa para viver não está dizendo que Ele dotou a natureza de leis que permitem dela tirar alimentos, mas que Ele "prepara a chuva para a terra, faz brotar nos montes a erva" (Sl 147:7-8). Por isso Davi orou "em ti esperam os olhos de todos, e tu, a seu tempo, lhes dás o alimento" (Sl 145:15) e nós oramos "o pão nosso de cada dia dá-nos hoje" (Mt 6:11).


Deus controla, não apenas tudo o que acontece, mas o tempo em que cada coisa acontece. O sábio Pregador disse que "tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou" (Ec 3:1-2). Quem determinou o tempo de todas as coisas? Jó responde "visto que os seus dias estão contados, contigo está o número dos seus meses; tu ao homem puseste limites além dos quais não passará" (Jó 14:5). Davi pediu a Deus "dá-me a conhecer, Senhor, o meu fim e qual a soma dos meus dias" (Sl 39:4) porque entendia que Deus sabia e já havia determinado a duração de seus anos.


Mais, Deus controla o coração e os feitos dos homens. Salomão disse ao final da vida "deveras me apliquei a todas estas coisas para claramente entender tudo isto: que os justos, e os sábios, e os seus feitos estão nas mãos de Deus" (Ec 9:1). Ele já havia dito "como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do Senhor; este, segundo o seu querer, o inclina" (Pv 21:1) e "os passos do homem são dirigidos pelo Senhor; como, pois, poderá o homem entender o seu caminho?" (Pv 20:24). A verdade bíblica incontestável é que "todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?" (Dn 4:35).


Mesmo eventos por nós considerado fortuitos, casuais, são controlados por Deus. A Bíblia declara que "a sorte se lança no regaço, mas do Senhor procede toda decisão" (Pv 16:33). Por isso os discípulos oravam antes de lançar sortes: "E, orando, disseram: Tu, Senhor, que conheces o coração de todos, revela-nos qual destes dois tens escolhido para preencher a vaga neste ministério e apostolado, do qual Judas se transviou, indo para o seu próprio lugar. E os lançaram em sortes, vindo a sorte recair sobre Matias, sendo-lhe, então, votado lugar com os onze apóstolos" (At 1:24-25).


Deus controla todas as coisas. E Ele as controla de forma completa e absoluta. Isto não deve ser visto como uma ameaça para nós, pelo contrário, deve ser um motivo de conforto, pois somente assim "todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (Rm 8:28).

4 comentários:

  1. Pois é nosso Deus é Soberano.
    BEM Soberano.


    No Amor e na Verdade que nos une,
    Vini
    (-V-)

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  2. Clóvis,

    Apesar de sempre passar por aqui pelo Cinco Solas, hoje tirei um tempo especial para me deleitar em artigos antigos e recentes, navegando "di cum força" no seu blog. A qualidade deste blog é incrível, e a criação dele foi providencial.

    Sobre a predestinação e a providência divina, entendo que o maior obstáculo para a sua aceitação não é teológico, e talvez nem intelectual, mas EMOCIONAL: chama-se "Problema do Mal". O homem simplesmente não consegue conceber como um Deus bom pode permitir que o mal atue no mundo, e menos ainda como Deus pode ser a causa primária de tudo que existe, inclusive do mal.

    Infelizmente não tenho a resposta para este paradoxo. Perguntas como estas mantém o meu coração suspenso, apreensivo. Não entendo o porque de muitas coisas. Não conheço a mente de Deus; não fui seu conselheiro... Eu não estava lá no momento da fundação do mundo, quando os nomes dos salvos eram inscritos no livro da vida.

    Apesar de amar a apologética (sobretudo o evidencialismo) vejo-a como uma ferramenta, mas não como "resposta". Ora, nenhum argumento humano, por mais bem articulado que seja, é capaz de convencer um homem cuja vontade é inclinada e má. Os mortos jamais poderão crer de modo salvífico. Ainda que venham a compreender intelectualmente, eles jamais virão a Cristo a menos que o Pai inicie o processo (Rm 3.10-11; Jo 6.44).

    Quando entendemos isso, quando enfim compreendemos que a salvação é obra de Deus (monérgica, infalível e eterna), temos a nossa inteligência humilhada. Aliás, a doutrina da Depravação Total é de todas a mais humilhante, pois massacra o nosso ego, tira as rédeas das nossas mãos. Ela recolhe o piso de sob os nossos pés, e coloca tudo, absolutamente tudo, nas mãos de Deus. Isto é o "Soli Deo Gloria".

    Contudo, apesar de não entender as minúcias deste plano, e mesmo sendo atormentada pelas mesmas questões emocionais-volitivas que envolvem a maldade humana, resigno-me a posição de servo e aguardo o desdobramento desta história pré-conhecida. No presente, vemos o aparente sucesso do mal, porém mesmo o mal está sujeito à soberania daquele que tudo governa. Além disso, se até mesmo o maior crime da história do mundo, o Deicídio (a morte do Filho de Deus) pode ser "redimida" pelo plano soberano de Deus e convertida na maior de todas as conquistas: a redenção da humanidade; quanto mais as nossas mazelas diárias não contribuirão para a glória de Deus, segundo a sua providência?

    "E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados por seu decreto"

    Diante do paradoxo, eu apenas exclamo:

    "Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!

    Porque quem compreendeu o intento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro para que lhe seja retribuído?

    Porque dele, por ele e para ele são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém!"

    Fraternalmente,

    Leonardo.

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  3. Gecy Soares de Macedo4 de agosto de 2009 16:54

    Não conhecia este Blog dos Cinco Solas. Hoje pesquisando sobre o livre-arbítrio para atender ao de uma ovelha jovem que desejar estudar sobre o assunto acessei esse Blog e, inclusive, estou anexando a resposta que o irmão dá a um desconhecido que defende o livre-arbítrio com bíblico, chegando ao exagero de dizer o assunto é central nas Escrituras, demonstrando um total desconhecimento das verdades centrais das Escrituras que o irmão demonstrou com muito propriedade. Fico feliz por saber que há estudiosos que gastam tempo escrevendo, esclarecendo e tirando dúvidas de irmãos que são salvos em Cristo, mas equivocados quanto à maneira de se processar essa salvação.
    Obrigado.
    Rev. Gecy Soares de Macedo. Pastor da Igreja Presbiteriana do Jabaquara (SP).

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  4. Rev. Gecy,

    Seja bem vindo ao Cinco Solas. Apesar de dedicar algum tempo a este blog, estou muito longe de ser considerado um estudioso. Na verdade, sou um aprendiz bastante lento.

    Que Deus o abençõe, use e abuse do 5Solas.

    Em Cristo,

    Clovis

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"Se amássemos mais a glória de Deus, se nos importássemos mais com o bem eterno das almas dos homens, não nos recusaríamos a nos engajar em uma controvérsia necessária, quando a verdade do evangelho estivesse em jogo. A ordenança apostólica é clara. Devemos “manter a verdade em amor", não sendo nem desleais no nosso amor, nem sem amor na nossa verdade, mas mantendo os dois em equilíbrio (...) A atividade apropriada aos cristãos professos que discordam uns dos outros não é a de ignorar, nem de esconder, nem mesmo minimizar suas diferenças, mas discuti-las." John Stott

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