Eleição corporativa

"[Deus]... nos escolheu nEle antes da fundação do mundo" Ef 1:4 
Baseada nessa passagem, minha amada irmã Dani Berti afirma que "não há fundamento para predestinação individual", observando que o pronome "nos" indica um grupo de pessoas e não indivíduos, o que é verdade. O ponto de vista de que a eleição não diz respeito a pessoas, mas à igreja como entidade, é uma variante popular do arminianismo, pois não é a posição clássica do mesmo, que advoga a eleição pela presciência. Mas será que Efésios dá sustentação à tese da eleição corporativa, popularizada com "a analogia da barca"?
A Gramática sintática do grego do Novo Testamento, de Willian Sanford LaSor diz, em sua página 34, que "Se o sujeito é coletivo, então se usa a forma singular do verbo para o grupo como um todo. Mas se o grupo é considerado segundo a individualidade dos seus membros, é usado o plural". Como exemplo, a GSGNT cita "Muitos sinais e prodígios eram feitos (singular)" (At 5:12) e "multidão de crentes... agregados (plural) ao Senhor" (At 5:14). Como fica a passagem acima sob essa regra?

Na passagem em questão não podemos verificar se o verbo estaria no singular ou no plural, pois o sujeito é Deus, e mesmo que passássemos a oração para a voz passiva (mudando o sujeito para "nós") poderíamos apenas sugerir o número do verbo. Mas podemos fazer essa análise com outro verbo, intimamente ligado ao verbo escolher, que é o verbo predestinar, que ocorre nos versículos 5 e 11 do mesmo capítulo. "Nos predestinou para Ele" (Ef 1:5) está na mesma forma que "nos escolheu nEle", o sujeito de ambas é Deus e o verbo está na voz ativa e no singular. Já em "fomos... predestinados" (Ef 1:11) o sujeito é nós e o verbo está na voz passiva e no plural. Considerando a regra gramatical mencionada, podemos afirmar que fomos predestinados por Deus individualmente. Então, se Paulo tivesse usado a voz passiva, escrevendo "fomos escolhidos", ele provavelmente utilizaria o plural do verbo, para indicar que o grupo dos eleitos foi "considerado segundo a individualidade de seus membros".

Concluimos então que o que não tem fundamento não é a eleição individual para a salvação, mas a tentativa do arminianismo popular de refugiar-se da verdade bíblica em invencionices descabidas.

Soli Deo Gloria

2 comentários:

  1. Não sabia que havia um post sobre a Eleição Corporativa. Estava me sentindo desconfortável estar falando deste assunto em outro lugar.

    Pois bem, a Eleição Corporativa não é nenhuma "invencionice descabida", muito menos de um "arminianismo popular". Esta noção tem sido aceita por arminianos e calvinistas e eu considero uma verdade das Escrituras.

    Como disse, plural ou singular, o que importa é que Paulo tratou a doutrina da eleição em termos de grupo, de coletividade, de participação, de comunidade. É sempre um grupo que foi eleito (sing.) ou pessoas que foram eleitas (pl.). Enfim, é um conceito coletivo. O uso do singular ou plural depende da forma gramatical utilizada, mas não diz nada sobre se a eleição desse grupo foi primariamente individual ou coletivo.

    É claro que a "amada irmã Dani Berti" está equivocada em dizer que "não há fundamento para predestinação individual". Há fundamento e Paulo o incorpora em sua doutrina da eleição. A eleição é tanto corporativa quanto individual, embora o aspecto corporativo prevaleça. É sempre em união com o grupo que alguém é visto como eleito.

    "[Deus] nos escolheu", ou seja, os cristãos como um corpo, "nEle", ou seja, em união com Cristo. Efésios dá amplas evidências da doutrina da Eleição Corporativa.

    O apóstolo Paulo desenvolve sua teologia da eleição, em Romanos 9-11, exatamente a partir desta perspectiva. A exclusão de alguns indivíduos do Israel eleito não anula a fidelidade de Deus a ele. Israel ainda pode ser visto na figura de um remanescente. Israel sempre foi e ainda é o canal salvífico de Deus. Somente em união com Israel alguém é eleito. Os gentios só são eleitos porque foram enxertados na boa oliveira, ainda que individualmente eles ainda podem ser cortados e os ramos originais reenxertados. Mesmo alguns tendo sido excluídos, ainda assim Paulo pode dizer que "todo o Israel será salvo", não numericamente, mas coletivamente. Ou seja, o aspecto individual sempre está "em segundo plano".

    Em resumo, a Eleição Corporativa perpassa toda a Escritura, do AT ao NT. Paulo não modificou a doutrina da eleição, ele apenas a desenvolveu.

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"Se amássemos mais a glória de Deus, se nos importássemos mais com o bem eterno das almas dos homens, não nos recusaríamos a nos engajar em uma controvérsia necessária, quando a verdade do evangelho estivesse em jogo. A ordenança apostólica é clara. Devemos “manter a verdade em amor", não sendo nem desleais no nosso amor, nem sem amor na nossa verdade, mas mantendo os dois em equilíbrio (...) A atividade apropriada aos cristãos professos que discordam uns dos outros não é a de ignorar, nem de esconder, nem mesmo minimizar suas diferenças, mas discuti-las." John Stott

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