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Luteranos e reformados

Apesar de toda a conformidade que há entre elas - que se estende até mesmo à confissão da predestinação — houve, desde o princípio, uma importante diferença entre a Reforma alemã e a suíça.

As diferenças nos países e nas pessoas em que Lutero e Zwínglio desempenharam seu papel, as diferenças entre os dois quanto à origem, formação, caráter e experiência contribuíram para separar seus caminhos. Não demorou muito para se tornar evidente que os dois reformadores tinham opiniões diferentes. Em 1529, em Marburg, um acordo tinha sido feito — mas somente no papel. E quando Zwínglio morreu e Calvmo, apesar de sua elevada consideração pela abordagem conciliatória de Lutero em relação à doutrina da Ceia do Senhor, basicamente se colocou ao lado de Zwinglio, a divisão entre o Protestantismo luterano e o reformado se aprofundou e se tornou um fato que não pôde mais ser negligenciado.

As pesquisas históricas sobre as diferenças características entre eles em anos recentes demonstraram claramente que, na base da separação, há uma diferença de princípio. Em épocas passadas, os eruditos simplesmente resumiam as diferenças dogmáticas sem reduzi-las a um princípio comum. Max Goebel, ao contrário, foi o primeiro a produzir uma explicação histórica e fundamental da diferença entre eles. Desde então, várias pessoas - Ullmann, Semisch, Hagenbach, Ebrard, Herzog, Schweizer, Baur, Schneckenburger, Guder, Schenkel, Schoeberlein, Stahl, Hundeshagen, para mencionar apenas alguns — continuaram essa pesquisa.

A diferença parece ser melhor comunicada dizendo que o cristão reformado pensa teologicamente, e o luterano, antropologicamente. A pessoa reformada não se contenta com um ponto de vista exclusivamente histórico, mas eleva seus olhos para a ideia, para o eterno decreto de Deus. Em contraste, o luterano toma sua posição no meio da história da redenção e não sente necessidade de entrar mais profundamente no conselho de Deus. Para o reformado, portanto, a eleição é o coração da igreja; para o luterano, a justificação é o artigo pelo qual a igreja fica de pé ou cai. Entre os reformados, a questão primária é: Como a glória de Deus pode ser promovida? Entre os luteranos, a questão é: Como o ser humano obtém a salvação? A luta dos reformados é, acima de tudo, contra o paganismo — idolatria; a dos luteranos, contra o Judaísmo — justificação pelas obras. O reformado só descansa quando consegue seguir o curso de todas as coisas retrospectivamente até chegar ao decreto de Deus, indo ao encalço do "motivo" das coisas, e, prospectivamente, fazer todas as coisas serem subservientes à glória de Deus; o luterano se contenta com o "o que" e desfruta a salvação da qual ele, pela fé, é um participante.

A partir dessa diferença de princípio, as controvérsias dogmáticas entre eles com respeito à imagem de Deus, pecado original, pessoa de Cristo, ordem da salvação, sacramentos, governo eclesiástico, ética, etc.) podem ser facilmente explicadas.

Herman Bavink
In: Dogmática Reformada

Os Pais da Igreja e a Expiação

Na tentativa de evitar a doutrina reformada da expiação limitada, ou da redenção eficaz, sem parecer que estão negando o ensino histórico da igreja, os arminianos recorrem aos chamados Pais da Igreja, aqueles que lideraram a igreja nos primeiros séculos depois dos apóstolos. É um recurso válido recorrer aos antigos, mas nem sempre é seguro e nunca é decisivo. Quero apresentar três razões para isso, aplicando ao caso da doutrina da expiação realizada por Cristo.

A primeira delas é que antiguidade não significa necessariamente ortodoxia. Provam isso heresias como gnosticismo que acometeu a igreja ainda na sua infância e que deixou sequelas que duram até hoje. Quando lemos o Novo Testamento e em seguida os escritos dos chamados pais apostólicos é impossível não perceber as diferenças. Embora citem Paulo e os demais apóstolos em profusão, percebemos que pelo menos a ênfase fui mudada. E práticas simples foram corrompidas por superstições no mínimo bizarras, como os rituais de exorcismo antes do batismo. Por isso, nem tudo que os Pais da Igreja fizeram e ensinaram deve ser aceito sob a premissa de que eles as receberam diretamente dos apóstolos e as conservaram inalteradas.

Os Pais da Igreja não desenvolveram uma doutrina ou teoria da expiação e o fato é que a posição de muitos deles permanece indeterminada. Até os dias de Anselmo, os pais da igreja não se preocuparam em apresentar um entendimento sistematizado da expiação . Suas referências à morte de Cristo se dão num contexto devocional, usando a linguagem da escritura, sem se preocupar em comentar e menos ainda oferecer uma explicação para os textos citados. 

Quando os Pais Apologistas mencionavam a morte de Cristo, sua ênfase era apresentá-la como cumprimento das profecias do Antigos Testamento. Já o interesse de Clemente de Roma era ético e prático. Pela Sua morte, Cristo nos deu um grande exemplo a ser seguido de humildade e deve nos constranger à gratidão a Deus, ao amor ao próximo e ao auto sacrifício. A apresentação de aspectos doutrinários da morte de Jesus era feito de forma débil e não era livre de distorções. A questão da extensão da expiação jamais foi levantada por eles. Afirmar que defenderam a expiação universal é impor a eles uma conclusão a que não chegaram, simplesmente por não refletirem sobre.

Os Pais da Igreja criam numa teoria fantasiosa da expiação. Mesmo não tendo elaborado um entendimento estruturado sobre a doutrina da expiação, e talvez por causa disso, os Pais da Igreja adotaram uma teoria muito estranha sobre a morte de Cristo. Esta teoria assume que por causa do pecado de Adão Satanás tinha o direito e a posse sobre os homens e que para libertá-los Deus deveria pagar uma indenização ao Diabo. 

Uma variação dessa teoria dizia que Deus enganou o Diabo, pois sua humanidade era uma isca e sua divindade um anzol. A implicação clara de Deus usar de um engodo foi justificada pelos pais com a explicação de que Satanás merecia ser enganado. Esta visão da expiação, em suas variações e nuanças, perdurou na igreja até os dias de Anselmo.

Como podemos ver, apelar aos antigos Pais para decidir a respeito de questões teológicas que foram desenvolvidas posteriormente pode não ser a melhor saída. Nenhum deles elaborou um sistema completo. Não se trata de desprezar seus ensinos ou ignorar seus exemplos de fé, e sim de compreendermos o contexto em que viveram e não esperar mais de suas obras do que eles pretendiam com elas.

Soli Deo Glória

Quem foi Arthur Walkington Pink?

Arthur Walkington Pink (01 de abril de 1886 – 15 de julho de 1952) foi um evangelista e teólogo inglês, conhecido por sua firme adesão aos ensinamentos calvinistas e puritanos. Nasceu em Nottingham, Inglaterra. Seus pais eram cristãos piedosos e ele tinha um irmão e duas irmãs. Aos 16 anos A. W. Pink encerrou os seus estudos e entrou para o ramo de negócios. Rapidamente obteve sucesso no que havia determinado fazer, mas, para a tristeza dos seus pais, ele abriu mão do Evangelho. Foi nesta época que ele se tornou um discípulo da Teosofia e do Espiritismo. Em 1908 ele já era conhecido como um teosofista e um espírita praticante. Neste mesmo ano, com 22 anos, ao chegar em casa após uma reunião teosófica, seu pai dirigiu-se a ele e citou este versículo da Bíblia: 

"Há caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte" (Provérbios 14:12) 

Pink foi para o seu quarto e ficou pensando nas palavras que seu pai lhe dissera. Em seguida resolveu orar e pedir uma orientação a Deus. Foi o suficiente para enxergar o seu erro. Esta experiência foi tão marcante que A.W. Pink encontrou o que tanto desejava: Jesus Cristo, Aquele que Lhe daria a Água Viva para saciar a sua sede, assim como prometera à mulher samaritana (Jo 4:14).

Cristo tornara-se real para ele! O mais interessante é que, na 6ª feira daquela mesma semana, Pink faria uma palestra para os adeptos da Teosofia (que ainda não sabiam de sua conversão). No dia e hora marcados, Pink dirigiu-se ao salão de Convenções da Teosofia. Quando subiu para falar, pregou o Evangelho em demonstração de Poder. A reação da turba foi imediata: retiram-lhe à força e lançaram-no à rua. Um episódio que serviu para abrir os olhos dele para o caminho que o esperava! 

Assim, Arthur Pink não tinha mais dúvidas sobre o seu chamado. Mas em qual Igreja? Havia tanto liberalismo nos ministérios. Então, ele foi recebido na Igreja dos Irmãos, onde ensinavam a Bíblia com muito amor. Depois, recomendaram que ele fosse estudar no Instituto Dwight L. Moody, em Chigago, Estados Unidos. Então, em 1910, ele foi para Chicago estudar. Mas logo abandou o Instituto, por discordar do que ali era ensinado. Nos anos que se seguiram esteve pastoreando Igrejas no Colorado e na Califórnia. Em 1916, casou-se em Kentucky, com uma mulher chamada Vera E. Russell. Em 1917 pastoreou uma Igreja Batista na Carolina do Sul. 

Foi nesta época que ele começou a ter problemas com o seu ensino. Começou a ler os puritanos e descobriu verdades que o perturbaram. Principalmente sobre a grande doutrina bíblica da Soberania de Deus, porém à medida que ele começou a pregar sobre isto, descobriu que não eram coisas populares. Em 1920, ele saiu da Igreja Batista na Carolina do Sul e começou um ministério itinerante em todos os EUA, para anunciar à Igreja esta visão da Soberania de Deus. Suas pregações eram firmes e bíblicas, mas, não eram populares, seus ouvintes não gostavam do que ele pregava. 

Em 1922, começou uma revista chamada Studies in the Scriptures (Estudo nas Escrituras). Mas poucas pessoas se interessaram pela leitura da Revista. Ele publicou 1000 revistas e, muitas delas, não foram sequer vendidas. Ainda neste ano, fizeram-lhe um convite para visitar a Austrália. Ele viu neste convite uma grande oportunidade de pregar o Evangelho e terminou por estabelecer-se na cidade de Sidney, à convite das Igrejas Batistas locais. Porém não obteve sucesso em seu ministério como pregador. 

Depois de 8 anos vivendo na Austrália, em 1928, Pink retornou à Inglaterra. Onde aconteceu uma surpreendente obra da Providência divina durante 8 anos ele procurou um lugar para pregar a Palavra e ajudar as pessoas, mas não conseguiu encontrar. Ninguém estava interessado em ouvir suas pregações. A sua fé foi duramente provada durante este período e, apesar de toda a luta, ele continuava a editar a revista “Estudo nas Escrituras”, embora somente uns poucos a liam. 

Em 1936, ele entendeu que Deus, de alguma forma, havia fechado as portas da pregação para ele. Então ele entregou-se totalmente a escrever e expor as Escrituras Sagradas. Esta era a sua chamada. 

Quando começou a 2ª Guerra Mundial, A. W. Pink vivia no sul da Inglaterra, região que sofreu fortes ataques aéreos. Então, em 1940, ele e a sua esposa, Vera, mudaram-se para o norte da Escócia, em uma pequenina ilha chamada Luis. 12 anos depois, em 1952, A.W. Pink faleceu vítima de anemia. Ian Murray, seu biógrafo, relata que, além de sua esposa, apenas oito pessoas apareceram em seu enterro. 

Com certeza, A. W. Pink (como assinava em suas cartas e artigos) nunca imaginaria que, no final do século 20 e ao longo do século 21, dificilmente seria necessário explicar quem é Pink quando nos dirigindo às pessoas que consideram a Bíblia como Palavra de Deus e se empenham em compreendê-la, entre outras coisas, utilizando bons livros. Vivendo quase em completo anonimato, salvo por aqueles poucos que assinavam sua revista publicada mensalmente, o valor de Arthur Pink foi descoberto pelo mundo apenas após sua morte, quando seus artigos passaram a ser reunidos e publicados na forma de livros. Ian Murray afirma que, mediante a ampla circulação de seus escritos após a sua morte, ele se tornou um dos autores evangélicos mais influentes na segunda metade do século 20. Foi D. Martyn Lloyd-Jones quem disse: "Não desperdice o seu tempo lendo Barth e Brunner. Você não receberá nada deles que o ajude na pregação. Leia Pink!"

Richard Belcher tem escrito alguns livros sobre a vida e obra do nosso autor, disse o seguinte: 

"Nós não o idolatramos. Mas o reconhecemos como um homem de Deus ímpar, que pode nos ensinar por meio da sua caneta. Ele verdadeiramente 'nasceu para escrever’, e todas as circunstâncias de sua vida, mesmo as negativas que ele não entendeu, levaram-no ao cumprimento desse propósito ordenado por Deus"

John Thornbury, autor de vários livros, inclusive uma excelente biografia sobre David Brainerd, disse o seguinte: "Sua influência abrange o mundo todo e hoje um exército poderoso de pregadores de várias denominações está usando seus materiais e pregando à congregações, grandes e pequenas, as verdades que ele extraiu da Palavra de Deus. Eu o honro por sua coragem, discernimento, perspicuidade, equilíbrio, e acima de tudo por seu amor apaixonado pelo Deus trino"

As últimas palavras de Pink antes de morrer, ao lado de sua esposa, foram: "As Escrituras explicam a si mesmas". Que declaração final apropriada para um homem que dedicou sua vida ao entendimento e explicação da Palavra de Deus!

Fonte: Ebook O Chamado de Cristo, publicado pelo site O Estandarte de Cristo

Todos os reformadores eram predestinistas

Todos os reformadores do século XVI, seguindo o exemplo de Agostinho e do apóstolo Paulo, - como eles o entenderam - adotaram, sob o senso controlador da depravação humana e da graça salvadora, e em antagonismo à auto-justificação legalista, a doutrina da dupla predestinação que decide o destino eterno de todo homem. Também não parece ser possível, logicamente, fugir da conclusão se admitirmos as duas premissas do catolicismo romano e do protestantismo ortodoxo, a saber, a condenação de todos os homens em Adão e a limitação da graça salvadora na presente vida. Todas as confissões ortodoxas rejeitam o universalismo e ensinam que alguns homens são salvos e alguns são perdidos e que não há salvação além túmulo. Os predestinarianos mantém que esse duplo resultado resultado decorre de um duplo decreto, que a história deve harmonizar-se com a vontade divina e não pode derrotá-la. Eles raciocinam do efeito para a causa, do fim para o começo.

No entanto, houve algumas diferenças características nas visões dos líderes reformadores sobre este assunto. Lutero, como Agostinho, partiu da total inabilidade moral ou do servum arbitrium; Zwinglio, da ideia de uma toda-inclusiva providentia; Calvino do eterno decretum absolutum

O predestinismo agostiano e luterano é moderado pelo tornar-se membro da igreja e o princípio sacramental da regeneração batismal. O predestinismo calvinista confina a eficácia sacremental ao eleitos e torna o batismo dos não eleitos numa forma vazia; mas, por outro lado, abre a porta para a extensão da graça eletiva para além dos limites da igreja visível. A posição de Zwinglio é peculiar: por um lado, ele foi tão longe em seu supralapsarianismo a ponto de fazer Deus o autor sem pecado do pecado (como o magistrado ao infligir a pena capital ou o soldado na batalha que são inocentemente culpados de morte); mas, por outro lado, ele minou a própria fundação do sistema agostiniano, ou seja, a condenação de todos pelo pecado de um; ele admitiu o pecado hereditário, mas negou a culpa herdada; e ele incluiu todos os infantes e pagãos piedosos no reino dos céus. Tal ponto de vista foi universalmente abominado, como perigoso e herético.

Melâncton, depois de mais estudos e reflexões, recuou na direção semi-pelagiana, e preparou o caminho para o arminianismo, o qual surgiu, independentemente, no coração do calvinismo no começo do século XVII. Ele abandonou sua visão anterior, a qual ele caracterizou como fatalismo estóico, e propôs um esquema sinergístico, o qual é um compromisso entre agostianismo e semipelagianismo, e fez a vontade humana cooperadora com a precedente graça divina, mas negou o mérito.

A fórmula de Concórdia (1577) rejeitou tanto o calvinismo como o sinergismo, e ensinou ainda, por uma inconsistência lógica, a inabilidade total e a eleição incondicional, bem como a vocação universal.

Schaff, P., & Schaff, D. S. (1910). History of the Christian church.
Tradução livre: CincoSolas
* Críticas e sugestões que melhorem a tradução são mais que bem-vindas

A continuidade dos dons espirituais

No decurso da história do Cristianismo, sempre houve pessoas que buscaram "algo mais" em sua peregrinação espiritual, e que, ocasionalmente, eram levadas a indagar acerca do significado do batismo no Espírito Santo e dos dons espirituais. A erudição recente tem lançado mais luz sobre os movimentos carismáticos, demonstrando que o interesse pela obra do Espírito Santo tem perdurado através da história da Igreja.

Pelo menos dois reavivamentos no século XIX podem ser considerados precursores do moderno pentecostalismo. O primeiro ocorreu na Inglaterra, em torno de 1830, durante o ministério de Edward Irving; o segundo, no extremo sul da índia, por volta de 1860, mediante a influência da teologia dos Irmãos de Plymouth e sob a liderança do leigo indiano J. C. Aroolappen. Documentos contemporâneos a respeito de ambos os movimentos incluíam referências ao falar noutras línguas e à profecia.

As conclusões dessa pesquisa corrigem, em parte, a crença existente em alguns círculos teológicos de que os dons espirituais cessaram na Era Apostólica. Opinião esta, aliás, proposta enfaticamente por Benjamin B. Warfield em Counterfeit Miracles (1918). Warfield argumentava que a autoridade escrita e objetiva das Escrituras, que são inspiradas pelo Espírito Santo, seria inevitavelmente subvertida por aqueles que ensinassem um conceito subjetivo do mesmo Espírito. Nos últimos anos, essa perspectiva vem perdendo terreno nos círculos evangélicos.

Com a chegada do reavivalismo, no fim do século XVII e início do século XVIII, na Europa e na América do Norte, os pregadores calvinistas, luteranos e arminianos passaram a enfatizar o arrependimento e a piedade na vida cristã. Qualquer estudo do Pentecostalismo tem de se ater aos eventos desse período, especialmente à doutrina da perfeição cristã ensinada por João Wesley, o pai do Metodismo, e pelo seu assistente, João Fletcher. A publicação por Wesley de A Short Account of Christian Perfection (1760) conclama seus seguidores a buscarem uma nova dimensão espiritual. Essa segunda obra da graça, posterior à conversão, libertaria os crentes de sua natureza moral imperfeita, que os tem induzido ao comportamento pecaminoso.

Essa doutrina chegou à América do Norte, e inspirou o crescimento do Movimento da Santidade. A ênfase voltada à vida santificada, mas sem mencionar o falar noutras línguas, registrado nas Escrituras ("derramamento do Espírito", "batismo no Espírito Santo", "línguas de fogo"), tornou-se "marca registrada" da literatura e hinódia do Movimento da Santidade. Uma das principais líderes da ala metodista do movimento, Phoebe Palmer, editou o Guide to Holiness e escreveu, entre outros livros, The Promise of the Father (1859). Outro escritor popular, William Arthur, escreveu Tongue ofFire (1856), um grande sucesso literário.

Aos que procuravam receber a "segunda bênção" era ensinado que cada cristão precisa "esperar" (Lc 24-49) pela promessa do batismo no Espírito Santo. E, assim, seria que¬brado o poder do pecado que domina a pessoa desde o seu nascimento, levando-a a viver cheia do Espírito. Além disso, Joel profetizou que, como resultado do derramamento do Espírito de Deus, "vossos filhos e vossas filhas profetizarão" nos últimos dias (Jl 2.28).

A crença numa segunda obra da graça não ficou confinada ao círculo metodista. Charles G. Finney, por exemplo, acreditava que o batismo no Espírito Santo provesse o revestimento do poder divino para se obter a perfeição cristã. Sua teologia, porém, não se encaixava nem na categoria wesleyana, nem na reformada. Embora a teologia da Reforma haja identificado o batismo no Espírito com a conversão, alguns reavivalistas, dentro dessa tradição, aceitavam o conceito de uma segunda obra da graça para revestir os cristãos do poder do alto. Entre eles se encontravam Dwight L. Moody e R. A. Torrey. Apesar desse revestimento de poder, acreditavam, a santificação mantinha-se em sua obra progressiva. Outro personagem-chave, um ex-presbiteriano, A. B. Simpson, fundador da Aliança Cristã e Missionária, cuja forma de pensar teve grande impacto na formação doutrinária das Assembleias de Deus, enfatizava nitidamente o batismo no Espírito Santo.

Semelhantemente, as conferências em Keswick, na Grã-Bretanha (que tiveram início em 1875), também influenciaram grandemente o Movimento da Santidade na América do Norte. Os conferencistas em Keswick acreditavam que o batismo no Espírito Santo produzia uma vida de contínua vitória (a vida "mais sublime" ou "mais profunda"), caracterizada pela "plenitude do Espírito". Esta veio a ser a interpretação preferida ao conceito wesleyano, que sustentava que o batismo no Espírito produzia a perfeição cristã.

No século XIX, a ciência médica avançava lentamente e pouca ajuda oferecia aos que se achavam gravemente enfermos. A fé no poder miraculoso de Deus para a cura física era acolhida em alguns círculos. Na Alemanha do século XIX, os ministérios que ressaltavam a oração pelos enfermos (especialmente os de Dorothea Trudel, Johann Cristoph Blumhardt e Otto Stockmayer) chamavam a atenção dos norte-americanos. A teologia da Santidade, com sua crença na purificação instantânea do pecado ou no revestimento de poder do Espírito Santo, produziu um ambiente receptivo aos ensinos da cura imediata através da fé.

Para muitos cristãos, o batismo no Espírito restaura plenamente o relacionamento espiritual que Adão e Eva tinham com Deus no jardim do Éden. De modo significante, a vida mais sublime em Cristo podia, também, inverter os efeitos físicos da queda, capacitando os cristãos a adquirir autoridade sobre as enfermidades do corpo. Os defensores da cura divina, tais como Charles C. Cullis, A. B. Simpson, A. J. Gordon, Carrie Judd Montgomery, Maria B. Woodworth-Etter e John Alexander Dowie, baseavam boa parte dessa crença em Isaías 53.4,5, bem como nas promessas neotestamentárias de cura divina. Posto que Cristo não somente perdoava os pecados, mas também curava as enfermidades, os que viviam pela fé na promessa de Deus (Ex 15.26) já não precisavam de assistência médica. Caso lançassem mão desta, estariam demonstrando falta de fé.

As características cada vez mais "pentecostais" do movimento da Santidade deixavam seus adeptos dispostos a considerar os dons do Espírito na vida da Igreja. Embora a maioria deles cresse que o falar noutras línguas tivesse cessado na Igreja primitiva, os demais dons, inclusive a cura miraculosa, estavam à disposição dos cristãos. A partir daí, somente a incredulidade poderia impedir fosse a Igreja do Novo Testamento restabelecida em santidade e poder.

Quando, porém, o pregador wesleyano radical da Santidade, Benjamin Hardin Irwin, começou, em 1895, a ensinar sobre as três obras da graça, os problemas começaram a surgir. Segundo Irwin, a segunda bênção iniciava a santificação, e a terceira trazia o "batismo do amor ardente" (o batismo no Espírito Santo). A maior parte do movimento da Santidade condenava essa "terceira bênção", classificando-a como heresia (a qual, entre outras coisas, criava o problema das evidências distintivas entre a segunda e a terceira bênçãos). Não obstante, a noção que Irwin possuía de uma terceira obra da graça - o revestimento do poder no serviço cristão - firmou-se como alicerce do Movimento Pentecostal.

Gary B. Mc Gee
In: Teologia sistemática: uma perspectiva pentecostal

Avivamento verdadeiramente enviado pelo Espírito


Talvez, a minha maior proximidade com um verdadeiro avivamento tenha acontecido na Romênia. Eu comecei a viajar para lá nos anos 80. Eu era um pastor na Alemanha quando fui para a Romênia e vi algo que nunca havia vistro antes. Eu fui para a cidade de Oradea. Lá, estavam alguns crentes que tinham sido aprisionados pela fé. Eu fui pregar numa igreja lá e Deus operou. Eu tinha um grupo de cantores comigo e nós chegamos cerca de duas horas antes do culto começar para arrumarmos o som. Por toda a igreja havia pessoas orando, clamando e chorando baixinho nos bancos. Conforme eu entrei na igreja, eu tive a nítida sensação de que Deus estava ali! Quando o culto começou, não havia espaço para todo mundo. Eles ficaram ao redor do púlpito e fora da igreja para ouvir a Palavra de Deus.


Em 1984, eu voltei para a mesma igreja e preguei lá. O lugar estava lotado; pessoas sentando nos corredores. Muitos conheceram a Cristo naquela noite. Após o culto terminar, um dos líderes da igreja veio a mim e disse: "Irmão Sammy, o Senhor operou?" Eu perguntei: "O que você quer dizer com ‘o Senhor operou’? Por que você está me perguntando isso? Você não viu quantas pessoas estavam na igreja? Você não viu o que aconteceu? Muitos vieram a Cristo! Por que você está perguntando se o Senhor operou?" Ele disse: "Ah, você não sabe. Eu não estava no templo. Eu estava numa outra sala com 100 homens e nós estávamos orando por todo o tempo que você estava pregando. Havia uma outra sala com 100 mulheres e elas também estavam orando enquanto você pregava." Até aquele momento, eu nunca tinha estado em nenhum lugar onde houvesse 100 homens e 100 mulheres orando enquanto eu pregava. 

Ele disse que houve um pastor que foi naquela igreja e ensinou o povo a orar. Ele fez duas coisas: ele ensinou as pessoas a orarem e pediu por arrependimento. Na Romênia, Europa Oriental, os crentes são chamados de "arrependedores". A mensagem do pastor foi: "Os arrependedores devem se arrepender!". A igreja, na verdade, fez uma aliança de arrependimento. Eles se arrependeram pelos pecados que haviam na vida deles e por pecados da igreja. Eles foram quebrantados perante Deus e fizeram uma aliança de arrependimento. 

Então, eles começaram a orar e houve uma explosão; uma ‘dunamis’ dominou o lugar. Dentro de 6 meses, 200 foram batizados. Na Europa Oriental, nos dias do comunismo, ser batizado era muito perigoso. Quando Deus começou a mover, a igreja começou a crescer. Um grande avivamento aconteceu. Ele se espalhou por todo o quadrante nordeste da Romênia. 

O pastor ensinou aquelas pessoas a orarem de uma maneira incomum. Ele disse para orarem para que um dia eles fossem para os grandes estádios da Romênia e proclamassem o Evangelho de Jesus Cristo. Disse para orarem para que um dia, através do rádio e de todos jornais, eles proclamassem o Evangelho de Jesus Cristo. Orem, orem, orem. E eles oraram, oraram, oraram. E, quanto mais eles oraram, mais tenebroso ficou e pior se tornou. Deus estava preparando as pessoas. 

Em 1988, eu estava indo para a Romênia. O trem parou e uns soldados vieram e me tiraram do trem. Me mantiveram sob guarda. Eu fui deportado do país e eles disseram que eu nunca mais colocaria meus pés em solo romeno novamente. 

Meu coração se quebrou, porque eu amo os romenos. Eu tinha um relacionamento tão maravilhoso com eles! Mas, eu sabia que, apesar dos comunistas terem me deportado, eles não podiam deportar o Espírito Santo e, também, não podiam deportar as orações do povo de Deus. Eu recebi uma mensagem, de um dos meus amigos, que simplesmente dizia: "Sammy, continue orando. Lembre-se: a glória de Deus vem do sofrimento. Continue orando". 

Em dezembro de 1989, eu estava visitando minha mãe, na época do Natal, e meu filho veio de onde ele estava assistindo tv e disse: "Pai, você precisa ver o que está passando. Alguma coisa está acontecendo na Romênia". Ao de investigarmos, soubemos que um pastor evangélico havia sido preso. Os crentes de todas as igrejas foram ao apartamento dele e fizeram um círculo ao redor, tentando evitar que o pastor fosse preso pela polícia secreta. A polícia secreta começou a incendiar a multidão, matando homens, mulheres e crianças inocentes. 

Quando o sangue dos mártires começou a correr nas ruas de Timisoara, houve um derramamento da ira de Deus sobre o maligno regime de Ceausescu e um derramamento da glória de Deus sobre Seu povo. Cerca de 200.000 pessoas reuniram-se na praça principal. Eles eram todos ateístas. Eles foram ensinados no ateísmo científico desde o jardim de infância até o doutorado universitário. Eles foram ensinados de que não havia Deus. O pastor da Primeira Igreja Batista ficou de pé perante a multidão e começou a pregar. Conforme ele pregava sobre a cruz de Jesus Cristo, uma dunamis tomou conta do lugar. 

Um amigo meu de Ohio ficou discando 16 horas, tentando falar com Titus, um amigo meu na Romênia. Finalmente, ele conseguiu falar com Titus e ele perguntou: "Titus, você está bem? E sua família? O que está acontecendo?" 

A única coisa que Titus falava era: "A glória de Deus veio sobre meu povo! A glória de Deus veio sobre meu povo! Diga ao Sammy que o que ele vinha orando a tanto tempo finalmente aconteceu! Diga que ele deve voltar!" 

Eu larguei tudo que estava fazendo, peguei um avião e fui para Viena, na Áustria. Uns amigos me buscaram lá e dirigimos pela Hungria até a fronteira romena. Oramos por todo o trajeto, porque sabíamos que meu nome estava no computador. Antes da revolução, a primeira pergunta que eles faziam na fronteira era: "você está trazendo Bíblias? E, se você tivesse carregando Bíblias, estaria com sérios problemas. 

Chegamos na fronteira naquela noite. A revolução ainda estava em processo. Estava frio, escuro e nevando. Nós éramos o único carro no local. Os soldados vieram até o carro. Eles disseram: "Saiam". Nós saímos. Eles fizeram a seguinte pergunta: "Vocês são cristãos?" Meu coração começou a disparar. Eu olhei para aquele soldado e disse: "Sim, senhor, somos cristãos". 

Meu amigo Titus estava esperando no prédio da alfândega. Ele ?. Ele veio e me abraçou e, no mesmo lugar onde me disseram que eu nunca, nunca mais, iria colocar meus pés em solo romeno, nós ajoelhamos e demos a glória, honra e louvor a Jesus Cristo! 

Nós entramos na Romênia e meus olhos viram coisas que eu nunca sonhei que iriam ver. A última vez que estive lá, quando nós íamos na casa de um cristão, nós tínhamos que estacionar o carro longe, bem tarde da noite, e dar uma boa volta, para despistar o lugar para onde estávamos indo para comer. 

Ao caminhar pelas ruas, pessoas que não me conheciam, mas viam que eu era do ocidente, muitas dessas pessoas (não pessoas da igreja, mas pessoas na rua), se juntavam ao meu redor e começavam a gritar: "Deus existe! Deus existe! Deus existe!" O hino dos dias da revolução era uma canção sobre a segunda vinda de Jesus Cristo. Não que todo país tinha se convertido, mas houve uma visita de Deus sobre a nação na qual o espírito do ateísmo, em um momento divino, foi lançado fora do país. 

Sammy Tippit

Sobre jejuns e abstinências

Jejum. Ora, quanto mais seriamente a Igreja de Cristo condena a gula, a embriaguez e toda a espécie de lascívia e intemperança, tanto mais e com insistência, recomenda-nos o jejum cristão. Pois, jejuar nada mais é do que a abstinência e moderação dos piedosos e uma disciplina, cuidado e castigo de nossa carne, exercitados segundo a necessidade do momento, pelos quais nos humilhamos diante de Deus, privando nossa carne de seu combustível, de modo que possa mais espontânea e facilmente obedecer ao Espírito. Portanto, aqueles que não dão atenção a tais coisas não jejuam, mas imaginam que o fazem se abarrotam o estômago uma vez por dia e a certa hora ou em horário prescrito abstêm-se de certos alimentos, pensando que, pelo fato de terem praticado essa obra agradam a Deus e estão fazendo algo de bom. O jejum vem a ser um auxílio para as orações dos santos e para todas as virtudes. Mas, como se vê nos livros dos profetas, o jejum dos judeus, que se abstinham de alimento, não porém da iniqüidade, não agradava a Deus.

Jejum público e particular. Há jejum público e pessoal. Nos tempos antigos celebravam-se jejuns públicos, em tempos de calamidade ou em situações difíceis da Igreja. Abstendo-se totalmente de alimento até o anoitecer, dedicavam-se todo o tempo a santas orações, ao culto a Deus e ao arrependimento. Eles diferiam pouco do luto, havendo freqüente menção do mesmo nos Profetas, especialmente em Joel, cap. 2. Tal jejum deve ser observado ainda hoje, sempre que a Igreja se encontre em situação difícil. Os jejuns particulares podem ser praticados por qualquer um de nós, quando se sente afastado do Espírito. Pois, dessa maneira, priva-se a carne de seu combustível.

Características do jejum. Todo jejum deve partir de um espírito livre, espontâneo e realmente humilde, e não simulado, só para conquistar o aplauso ou favor dos homens, e muito menos para que por meio dele pretenda o homem ser merecedor de justiça. Mas, que cada um jejue para este fim - não dar lugar aos desejos da carne e servir a Deus mais fervorosamente.

Quaresma. O jejum da Quaresma tem o testemunho dos antigos, mas não dos escritos apostólicos, pelo que não deve e não pode ser imposto aos fiéis. É certo que no princípio havia várias formas ou costumes de jejum. Por isso, diz Irineu, escritor muito antigo: “Uns pensam que se deve observar o jejum somente um dia, outros, dois dias, outros mais dias, e alguns, quarenta dias. Tal diversidade na observância do jejum não começou em nossos tempos, porém, muito antes de nós por aqueles, suponho, que não se apegavam simplesmente ao que lhes havia sido entregue desde o princípio, mas passaram a outro costume por negligência ou ignorância” (Fragm. 3, ed. Stieren, I, 824 s). Além disso, Sócrates*, o historiador, diz: “Visto que não se encontra nenhum texto antigo acerca deste assunto, penso que os apóstolos o deixaram à opinião de cada pessoa, de modo que cada qual pudesse fazer o que é bom, sem temor ou constrangimento” (Hist. ecclesiast, V. 22,40).

A escolha dos alimentos. Quanto à escolha dos alimentos, julgamos que no jejum se deve negar à carne tudo o que possa torná-la mais arrogante e deleitá-la mais, aguçando-lhe o desejo de peixe, ou carne, ou condimentos, ou de guloseimas e bons vinhos. Além do mais, sabemos que todas as criaturas de Deus foram feitas para o uso e serviço dos homens. Tudo o que Deus fez é bom, devendo ser usado no temor de Deus e com moderação (Gen 2.15 s). Diz o apóstolo: “Todas as coisas são puras para os puros” (Tit I.15), e mais: “Comei de tudo o que se vende no mercado, sem nada perguntardes por motivo de consciência” (I Co 10.25). O mesmo apóstolo chama a doutrina daqueles que ensinam abstenção de carnes “doutrina de demônios”; pois “... alimentos, que Deus criou para serem recebidos, com ações de graças, pelos fiéis, e por quantos conhecem plenamente a verdade; pois, tudo o que Deus criou é bom e, recebido com ações de graça, nada é recusável” (I Tim 4.1 ss).

Seitas. Portanto, condenamos inteiramente os tacianos e os encratitas, bem como todos os discípulos de Eustátio, contra quem foi convocado o Sinodo Gangrense.

* Penso que a referência é à Eusébio de Cesaréia. (NE)

Por que estudar teologia?

Muitos cristãos pensam que teologia é coisa de intelectual, de professor e de estudante de seminário. Além disso, muita gente na igreja se acha incapaz de entender a maior parte dos assuntos de que tratam os livros de teologia, mas elas acreditam que isso não importa, pois, afinal de contas, “essas coisas não têm aplicação alguma na vida real”.

O que essas pessoas não percebem é que elas também fazem teologia. A palavra teologia, por exemplo, vem de duas palavras gregas — theos, que significa “Deus”, e logos, que remete à “razão” ou à “palavra” e, portanto, significa “discurso acerca de”. Por conseguinte, quem quer que pense e fale a respeito de Deus está fazendo teologia.

Quem fala ou pensa muito sobre Deus cria uma estrutura na qual Deus é enquadrado. Essa estrutura é sua teologia. É a lente por meio da qual o indivíduo lê a Bíblia, ouve sermões, ora a Deus, lê livros e reflete a respeito dele. Quando lê algo sobre Deus, lê o pensamento teológico de alguém e usa o que lê para ajustar a própria teologia, quer se dê conta disso, quer não.

Portanto, não há fé sem teologia. Não há quem leia a Bíblia sem recorrer — consciente ou inconscientemente — a uma teologia que a interprete. Ninguém ouve um sermão sem um referencial teológico que, de um lado, é modificado em alguma medida e, de outro, ajuda a interpretá-lo. Concluímos, então, que todo cristão que gosta de pensar traz consigo alguma teologia. A questão não é se fazemos teologia e a usamos, e sim qual teologia fazemos e usamos. Daí vem a pergunta: “Como sabemos se nossa teologia, isto é, a visão que temos de Deus, é a correta?”.

Vou tentar responder a essa pergunta com uma ilustração. Imagine que há uma grande mulher de Deus em sua igreja, que há quarenta anos lê a Bíblia e estuda teologia. Ela não só tem um conhecimento profundo da Escritura e sabe como interpretá-la para sua vida e cultura, mas também leva uma vida de santidade. Sua humildade e seu amor sempre deixam as pessoas admiradas. Suponhamos que, mesmo a conhecendo, você tivesse a seguinte atitude: “Vou construir sozinho minha teologia [lembre-se: sua teologia é a maneira em que você enxerga Deus], pela simples leitura da Bíblia e de livros de teologia”. Não seria uma atitude estranha, visto que há uma teóloga piedosa em sua igreja? Não seria esse um exemplo do pecado do orgulho? A advertência de Provérbios nos vem à mente: “Os insensatos desprezam a sabedoria e a instrução” (Pv 1.7).

Desconsiderar as mentes santas e grandiosas da igreja — que há milênios refletem sobre Deus — quando elas estão bem perto de nós, em livros e na internet, parece arrogância e presunção. Uma atitude assim despreza a admoestação bíblica de que há sabedoria “na multidão de conselheiros” (Pv 11.14). Essa atitude também desconsidera outra advertência bíblica segundo a qual aprender com outras mentes santas e comparar nosso pensamento com o delas é como afiar ferro com ferro (Pv 27.17), tornando nossos pensamentos sobre Deus mais afiados e claros. O resultado é um conhecimento mais profundo de Deus que, como disse Jesus, é a “vida eterna” ( Jo 17.3).

Esse é o começo da resposta à pergunta “Como posso saber qual teologia é a melhor?”. A melhor maneira é estudar as teologias das grandes mentes da igreja.

Gerald R. McDermott
In: Grandes Teólogos, Edições Vida Nova

João Calvino e as Artes


Segundo Calvino, nós devemos estas coisas preciosas da vida natural originalmente ao Espírito Santo. Em todas as Artes Liberais, tanto nas mais como nas menos importantes, o louvor e a glória de Deus devem ser acentuadas. As artes, diz ele, foram dadas para nosso conforto, nesse nosso estado deprimido de vida. Elas reagem contra a corrupção da vida e da natureza pela maldição. 

Quando seu colega, o Prof. Cop, levantou armas em Genebra contra a arte, Calvino propositadamente instituiu medidas, como ele escreve, para restaurar esse homem louco ao bom senso e a razão. Calvino declara ser indigno de refutação o preconceito cego contra a escultura com base no Segundo Mandamento. Ele exalta a música como um poder maravilhoso para comover corações e para dignificar tendências e princípios morais. Entre os excelentes favores de Deus para nossa recreação e prazer, ela ocupa em sua mente o posto mais alto. E mesmo quando a arte se rebaixa para tornar-se o instrumento de mero entretenimento para o povo, afirma que este tipo de prazer não lhe deveria ser negado. 

Em vista de tudo isto, podemos dizer que Calvino apreciava a arte em todas as suas ramificações como um dom de Deus, ou mais especialmente, como um dom do Espírito Santo; que ele entendeu plenamente os profundos efeitos produzidos pela arte sobre a vida das emoções; que ele apreciava o fim pelo qual a arte fora dada, a saber, que por ela poderíamos glorificar a Deus, dignificar a vida humana, e beber na mais alta fonte de prazeres, sim até mesmo no esporte comum; e, finalmente, que longe considerar a arte como simples imitação da natureza, ele lhe atribuiu a nobre vocação de desvendar para o homem uma realidade mais alta do que foi oferecida a nós pelo mundo pecaminoso e corrupto.

Kuyper, Abraham
In: Calvinismo.

A mãe de Agostinho

Educada assim na modéstia e na temperança, mais sujeita a seus pais pela tua mão que por seus pais a ti, logo que chegou à idade núbil, foi dada em matrimônio a um homem, a quem serviu como a senhor. Procurou conquistá-lo para ti, falando-lhe de ti com suas virtudes, com as quais tu a tornavas bela e reverentemente amável e admirável ante seus olhos. Suportou suas infidelidades conjugais com tanta paciência, que jamais teve com ele a menor briga por isso, pois esperava que tua misericórdia viria sobre ele, e que lhe trouxesse, com a fé, a castidade.

Seu marido, se de um lado era sumamente afetuoso, por outro era extremamente colérico, mas ela tinha o cuidado de não contrariá-lo nem com ações, nem com palavras, se o visse irado. Logo que o via calmo e sossegado, oportunamente, mostrava-lhe o que havia feito, se por acaso se tivesse irritado desmedidamente.

Muitas senhoras, embora tendo maridos mais calmos, traziam no rosto as marcas das pancadas que as desfiguravam. Conversando entre amigas, lamentavam a conduta dos maridos. Minha mãe reprovava-lhes a língua e, como por gracejo, lembrava-lhes que, desde a leitura do contrato matrimonial, deviam considerá-lo como documento que as tornava servas, e portanto proibia-lhes de serem altivas com seus senhores. Essas senhoras, que conheciam o mau gênio de seu marido, admiravam-se de que jamais ninguém tivesse ouvido ou percebido qualquer indício que Patrício maltratasse a mulher, nem sequer que algum dia tivessem brigado por questões domésticas. E como lhe pedissem confidencialmente a razão disso, minha mãe expunha-lhes seu agir habitual, como acima mencionei. Algumas, após experimentar, punham-no em prática e davam-lhe graças; as que não a imitavam continuavam a sofrer humilhações e violências.

Sua sogra, a princípio irritara-se contra ela por causa dos mexericos de criadas malévolas. Mas conseguiu conquistá-la com respeito, contínua tolerância e mansidão, que ela mesma, espontaneamente, denunciou ao filho as línguas intrigantes das criadas, que perturbavam a paz doméstica entre ela e a nora, e pediu que as castigasse. Ele, em obediência à mãe, para manter a disciplina familiar e a harmonia entre os seus, mandou açoitar as acusadas, segundo a vontade da acusante; e esta prometeu-lhes ainda que esse era o prêmio que devia esperar quem, querendo agradá-la, lhe dissesse mal da nora. E ninguém mais se atreveu a fazê-lo, e viveram as duas em doce e memorável harmonia.

A esta tua boa serva, em cujo seio me criaste, ó meu deus, minha misericórdia, dotaste de outra grande virtude: a de intervir como pacificadora, sempre que podia, nas discórdias e querelas. Daquilo que ouvia de queixas amargas, vomitadas com animosidade ressentida, quando na presença de uma amiga os ódios mal digeridos se desafogam em amargas confidencias a respeito de uma amiga ausente, ela nada referia uma à outra, senão o que poderia servir para a reconciliação.

Este dom me pareceria de pouca monta se uma triste experiência não me houvesse mostrado grande número de pessoas – por não sei que horrível contagio de pecados, espalhados por toda parte – que não só revelam as palavras pesadas de inimigos irados, mas que ainda acrescentam coisas que não foram ditas. Quem fosse realmente humano, deveria ter em pouca conta ou não excitar nem fomentar as inimizades dos homens, e melhor ainda procurar extingui-las com boas palavras. 

Assim era minha mãe, ensinada por ti, mestre interior, na escola de seu coração. Por fim, conquistou para ti o seu marido, já no fim da vida, não tendo que lamentar no cristão o que havia tolerado no infiel.

Ela era verdadeiramente a serva de teus servos, e todos os que a conheciam te louvavam, honravam, te amavam em sua pessoa, porque percebiam tua presença em seu coração, confirmada pelos frutos de uma vida santa. Havia sido mulher de um só homem, cumprira sua dívida de gratidão com os pais, governara sua casa piedosamente e dava testemunho com suas boas obras. Educara os filhos, dando-os à luz tantas vezes quantas os via apartarem-se de ti.

E de nós, que nos chamamos teus servos por liberalidade tua, nós que vivemos em comum na graça de teu batismo, antes de adormecer em tua paz, ela cuidou de nós como se todos fôssemos seus filhos, e de tal modo nos serviu como se fosse filha de cada um de nós.

Aurélio Agostinho
In: Confissões

Um coração devotado


Calvino acreditava não só que a mente precisa ser cheia da verdade da Palavra, mas também que o coração deve ser devotado à piedade. Na opinião dele, não existia esta coisa de ministro não santificado. O sucesso do pregador dependia da profundidade de sua santidade. Em público ou em particular, em seus estudos ou na rua, o homem de Deus tinha de se afastar do pecado e seguir a santidade. Calvino observou: “O chamado de Deus traz consigo [a exigência de] santidade”. Por esta razão, ele acreditava que o pastor deve manter sua vida e doutrina sob rigorosa vigilância. O homem de Deus deve cultivar uma visão elevada do Senhor e tremer diante de sua Palavra. Calvino escreveu: “Nenhum homem pode lidar de forma correta com a doutrina da piedade, a menos que o temor de Deus reine... dentro dele”.

Calvino era um homem que verdadeiramente temia ao Senhor, e este reverente temor de Deus purificou sua devoção à Ele. A rejeição que o reformador experimentou quando banido de Genebra (1538-1541) serviu apenas para intensificar sua vontade resoluta de conhecer e servir a Deus. Quando o conselho municipal de Genebra revogou sua expulsão e pediu o retorno de Calvino, ele escreveu a William Farel: “Porque sei que não sou meu próprio mestre, ofereço meu coração como um sacrifício verdadeiro ao Senhor”. Este gesto de devoção a Deus tornou-se o lema pessoal do reformador genebrino. Em seu selo pessoal, o emblema é um par de mãos humanas entregando um coração para Deus. A inscrição diz: Cor meum tibi offero, Domine, prompte et sincere — “Meu coração a Ti ofereço, ó Senhor, com prontidão e sinceridade”. As palavras prontidão e sinceridade descrevem adequadamente como Calvino acreditava que deveria viver diante de Deus, ou seja, em completa devoção a Ele.

Ao manter este compromisso, Calvino continuamente estimulava o fervor de sua alma por meio da oração e de uma atitude devotada. “Duas coisas estão unidas”, ele confessou, “ensino e oração. Deus deseja que a pessoa designada por Ele para ser um professor em sua igreja seja diligente em orar”. O trabalho de Calvino com a pregação, o ensino, o pastoreio e seus escritos — toda a sua vida e ministério — estavam sempre ligados à fervorosa oração. Por conta de sua piedade, a tirania dos muitos assuntos sérios que o pressionavam perdeu o poder.

Steven Lawson L. 
In: A arte expositiva de João Calvino, publicado pela Editora Fiel

Heresias Históricas: eutiquianismo

Concílio de Calcedônia

Também conhecida por Monofisismo, esta concepção de Cristo, formulada por Eutiques (ou Êutico, 378-454 d.C.), que fora líder de um mosteiro em Constantinopla. O Eutiquianismo ensinava que a natureza divina de Jesus havia absorvido a natureza humana, gerando conseqüentemente um ser com uma terceira natureza. Esta doutrina é preocupante pois anula Cristo como verdadeiro Deus e como verdadeiro homem, o único que pode nos trazer salvação. Este falso ensino foi refutado em 451 no Concílio de Calcedônia.

Neste concílio reuniram-se 600 bispos, que pelo debate contra o Eutiquianismo formularam uma confissão de fé que elucidou a humanidade e a divindade de Jesus Cristo. Esta confissão cristológica permeia a crença das igrejas Orientais Ortodoxas, Católico Romana e as igrejas oriundas da Reforma Protestante, salvo as correntes pseudocristãs que durante a história trouxeram falsos ensinos que perverteram a cristologia ortodoxa.

Devido a importância que a confissão formulada no Concílio de Calcedônia possui, é muito importante citar a mesma na íntegra. Esta confissão também é conhecida como Definição de Calcedônia: 
“Portanto, conforme os santos pais, todos nós, de comum acordo, ensinamos os homens a reconhecer um e o mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, totalmente completo na divindade e completo em humanidade, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, que consiste também de uma alma racional e um corpo; da mesma substância (homoousios) com o Pai no que concerne à sua divindade e ao mesmo tempo de uma substância conosco, concernente à sua humanidade; semelhante a nós em todos os aspectos, exceto no pecado; concernente à sua divindade, gerado do Pai antes das eras, ainda que também gerado como homem, por nós e por nossa salvação, da virgem Maria; um e o mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, reconhecido em duas naturezas, sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação; a distinação das naturezas de maneira alguma anula-se pela união; mas, pelo contrário, as características de cada natureza são preservadas e reunidas, para formar uma pessoa e substância [hypostasis], mas não partidas ou separadas em duas pessoas, mas um e o mesmo Filho e Deus Unigênito, o Verbo, Senhor Jesus Cristo; assim como os profetas dos tempos antigos falaram dele e o próprio Senhor Jesus Cristo nos ensinou e o credo dos pais foi transmitido para nós.”
João R. Weronka
In: Apologia da divindade de Cristo

Um encorajamento para todos os que pregam


Longe de ser um professor de Bíblia apático, Calvino explicava as Escrituras de uma maneira viva e revigorante a ponto de estabelecer uma relação com seus ouvintes e causar grande impacto entre eles. Sua comunicação era vívida, memorável, clara, agradável e, às vezes, desafiadora ou até mesmo chocante. Sua pregação podia ter um tom pastoral ou profético. Além disso, a intensidade da concentração de Calvino atraía os ouvintes para suas palavras. Outros podem ter sido mais eloqüentes, entretanto, ninguém foi mais compenetrado e cativante do que ele.

Quando Calvino falava, ele sempre estava atento para a “harmonia que deve existir entre a mensagem e o modo pelo qual ela é expressa”. Em outras palavras, ele acreditava que “o modo” — ou seja, a forma como ele falava — “não deveria corromper a mensagem” — ou seja, aquilo que ele dizia. Ao contrário, o método deveria confirmar a essência da mensagem. O estilo literário de Calvino, sua educação em ciências humanas, sua própria personalidade, sua inteligência, e seu momento único na história — estes e outros fatores transformaram seus sermões em belas obras de arte; em obras-primas da habilidade de interpretação.

Apesar de os pastores de hoje estarem mais preocupados com seu próprio estilo de pregação, Calvino ainda permanece como uma fonte de grande encorajamento. Embora não fosse, por natureza, tão talentoso quanto outros para falar em público, o reformador de Genebra conseguiu marcar sua geração, e até mesmo o mundo, através de seu ministério de pregação. Que os expositores tirem força do exemplo de Calvino, pois, no fim, aspectos intangíveis como uma profunda convicção da verdade e vivacidade concentrada na Palavra ainda triunfarão. 

Steven J. Lawson
A arte expositiva de João Calvino, Editora Fiel

William Booth e a evangelização

Fonte: Mero Cristianismo
William Booth nasceu em Nottingham, Inglaterra, em 10 de abril de 1829. Vinha de uma família pobre e foi o primeiro de sua família a se converter a Cristo. Foi recebido numa Igreja Metodista. Casou com Catarina Mumford. No seu casamento não houve festa nem flores. Oficiado por um pastor, participaram da cerimônia o ministro oficial e as testemunhas. 

William foi designado para dirigir diversas campanhas evangelísticas. Numa delas contou com um auditório de mais de duas mil pessoas. O tesoureiro de uma igreja escreveu para uma revista: “O Senhor Booth é um homem extraordinário. Jamais passei, em toda a minha vida, seis semanas como as últimas”.

William e Catarina começaram o trabalho com pessoas de rua, bêbados, prostitutas, crianças abandonadas. No meu livro “Vidas Poderosas”, escrevi: “A tormenta se desencadeou na Conferência Anual. E assim foi decidido em 1857, por 44 votos contra, que William cessasse sua obra de evangelização. Uma acalorada controvérsia que durou cinco horas, precedeu essa decisão. O homem, cuja paixão era a salvação de almas e que estava divinamente chamado para isso, não deveria ir mais de pessoa a pessoa, nem de cidade em cidade. Deveria assentar-se e servir calmamente a uma pequena e pobre congregação”.

No final da discussão ficou assentado que o casal não poderia trabalhar com os marginais, com os pobres, prostitutas, limpar o vômito dos bêbados, isso não recomendaria bem a uma igreja cujo status não se ajustava a uma igreja de pessoas de boa formação. E o casal foi expulso da Igreja Metodista. Uma vez cortado da comunhão de sua querida igreja, William, de mãos dadas com a esposa, bateu no bolso e disse se retirando: “Sem níquel e sem amigos”. Uma vez desligado da sua amada denominação, o casal começou seu grande e maravilhoso trabalho nas ruas de Londres com as pessoas marginalizadas e ganhou milhares para Jesus.

E o trabalho foi crescendo, passou de Londres para toda a Inglaterra e chegou a diversas partes do mundo como o conhecido e respeitado Exército da Salvação. Uma organização, com hierarquia, disciplina e ordem à semelhança do Exército da terra. E todos os que compõem a organização trabalham com amor e carinho, socorrendo os pobres, transformando prostitutas e bêbados e prestando um trabalho com todas as classes das sociedade, não se esquecendo das crianças de ruas.

E qual seria a verdadeira razão dessa bênção que se mantém no mundo há quase dois séculos? Eles eram obreiros CHEIOS DO ESPÍRITO. William, dez anos antes da sua morte, perdeu a visão. Ao chegar a casa disse a seu filho Bramwell: “Meu filho, trabalhei anos com minha visão perfeita, agora cego, continuarei a servir o meu Mestre querido”. E perto da morte disse: “Oh! a salvação das gentes!"... E dirigindo-se ao filho: "Ó Bramwell, cuida dos desamparados". Suas últimas palavras audíveis foram: “As promessas de Deus são certas”. 

Foi promovido à glória no dia 20 de agosto de 1912.

Enéias Tognini
In: Você é cheio do Espírito Santo?

Heresias Históricas: Nestorianismo

Cirilo de Alexandria

Esta doutrina está baseada nos ensinos de Nestório, que fora um pregador famoso em Antioquia, e desde 428 d.C., Bispo de Constantinopla. Seus ensinos foram refutados no Concílio de Éfeso, em 431. O nestorianismo ensinava que a pessoa divina de Cristo e sua pessoa humana estavam divididas e com vontades divididas, mas residindo no mesmo corpo. Cirilo de Alexandria refutou os falsos ensinos do Nestorianismo.

João R. Weronka
In: Apologia da divindade de Cristo

Heresias Históricas: Apolinarianismo

Os Pais Capadócios, os três
combatentes do apolinarianismo.

Devido a Apolinário (310-390 d.C.), que fora Bispo de Laodicéia no fim do século 4, defender uma cristologia heterodoxa, esta recebeu seu nome. Enquanto o Arianismo defendia que Cristo não era Deus, o Apolinarianismo ia contra o ensino que Cristo possui a natureza humana, alegando que Cristo era apenas Deus, indo contra a doutrina da encarnação, onde o Verbo se fez carne e habitou entre nós, que está muito evidente no capítulo 1 do Evangelho de João.

O ponto crítico desta corrente girava em torno do conceito da mente de Cristo. Segundo Apolinário, Cristo possuía mente (ou espírito) divino, o que o impossibilitaria de passar por tentações genuínas. Segundo Hebreus 2.14-17, Jesus participou de humanidade como a nossa, para que houvesse o completo efeito da expiação. Os ensinos do apolinarianismo também foram declarados heréticos, através do Concílio de Constantinopla (381), onde os teólogos Basílio – “O Grande”, Gregório – Bispo de Constantinopla, e Gregório – Bispo de Nissa, também conhecidos como Pais Capadócios, o rejeitaram de forma veemente. Apesar de Apolinário ter levantado certo grupo de discípulos, seus ensinos não permaneceram e seu movimento se desfez.

João R. Weronka
In: Apologia da divindade de Cristo

A Interpretação das Escrituras

A verdadeira interpretação da Escritura. O Apóstolo São Pedro disse que as Escrituras Sagradas não são de interpretação particular (II Ped 1.20). Assim não aprovamos quaisquer interpretações; pelo que nem reconhecemos como a verdadeira ou genuína interpretação das Escrituras a que se chama simplesmente a opinião da Igreja Romana, isto é, a que os defensores da Igreja Romana claramente sustentam que deve ser imposta à aceitação de todos. Mas reconhecemos como ortodoxa e genuína a interpretação da Escritura que é retirada das próprias Escrituras segundo o gênio da língua em que elas foram escritas, segundo as circunstâncias em que foram registradas, e pela comparação de muitíssimas passagens semelhantes e diferentes, e que concorda com a regra de fé e amor, e mais contribui para a glória e a salvação dos homens.

Interpretação dos santos padres. Por isso, não desprezamos as interpretações dos santos padres gregos e latinos, nem rejeitamos as suas discussões e os seus tratados sobre assuntos sagrados, sempre que concordem com as Escrituras; mas respeitosamente divergimos deles, quando neles encontramos coisas estranhas às Escrituras ou contrárias a elas. E não julgamos fazer-lhes qualquer injustiça nesta questão, visto que todos eles, unanimemente, não procuram igualar seus escritos com as Escrituras Canônicas, mas nos mandam verificar até onde eles concordam com elas ou delas discordam, aceitando o que está de acordo com elas e rejeitando o que está em desacordo.

Concílios. Nessa mesma ordem colocam-se também as definições e cânones dos concílios.

Por esse motivo, nas controvérsias religiosas não aceitamos como imposição as simples opiniões dos Santos Padres ou os decretos dos concílios; muito menos, os costumes herdados ou, até, o fato de ser uma opinião partilhada por uma multidão ou consagrada por um longo tempo. Quem é o juiz? Portanto, em questão de fé, não admitimos juiz algum, a não ser o próprio Deus, que, pelas Santas Escrituras, proclama o que é verdadeiro, o que é falso, o que deve ser seguido ou o que deve ser evitado. Assim, apoiamo-nos exclusivamente nos julgamentos de homens espirituais, por eles tomados à Palavra de Deus. Jeremias e outros profetas condenaram severamente os concílios de sacerdotes estabelecidos contra a lei de Deus; e nos advertiram diligentemente que não ouvíssemos os nossos pais, nem trilhássemos os seus caminhos, porque eles, andando segundo suas próprias invenções se desviaram da lei de Deus.

450 anos do Catecismo de Heidelberg

Reforma Protestante. Elaborado por Casper Oleviano e Zacarias Ursinos, a pedido de Frederico III, para cumprir três objetivos. Ele deveria servir:

1. Como uma ferramenta para ensinar as crianças;
2. Como um guia para a pregação e instrução do povo comum da igreja; e
3. Como uma forma de unidade entre as várias facções protestantes.

O Catecismo está dividido em três seções:

1. A miséria ou pecado da humanidade;
2. A redenção de Deus; e
3. Nossa gratidão.

Os tópicos cobrem a Lei, a necessidade de salvação, a Trindade, a justificação, os sacramentos, os dez mandamentos, a oração do Senhor e vários outros temas de vital importância à fé cristã. Devido à forma compacta de seus artigos doutrinários e práticos, tem servido sido muito útil à fé e adoração do cristianismo reformado. O Catecismo tornou-se uma das três formas de unidade da igreja holandesa reformada e serviu de apoio ao desenvolvimento do Pequeno Catecismo de Wesminster. 

O fato é que o Catecismo de Heidelberg tem servido à igreja nestes 450 anos, pois os objetivos pretendidos em sua elaboração foram alcançados. Perde a igreja e o crente que ignora a riqueza doutrinária e orientações práticas do Catecismo. Ainda é tempo de você estudar o Catecismo de Heidelberg. Em 2009, o Cinco Solas publicou, a cada domingo, um artigo do Catecismo de Heidelberg. Se desejar lê-lo, comece por aqui.

Soli Deo Glória

Heresias históricas: Arianismo

Atanásio foi oponente de Ário.

Este movimento possui este nome pois foi liderado por Ário (250-336 d.C.), que fora presbítero de Alexandria entre o fim do século 3 e inicio do século 4 depois de Cristo. Ário não admitia que Jesus era Deus, o Verbo encarnado. Ele acreditava que isso implicaria na aproximação entre o cristianismo e o paganismo, já que as religiões pagãs crêem na existência de diversos deuses.

Ário acreditava que Jesus teve um começo, ou seja, que foi criado por Deus. Sua idéia é que houve tempo em que Jesus não existiu, ou seja, que este fora criado por Deus, isso implica que Jesus não é eterno. O Arianismo teve suas doutrinas refutadas quando Ário foi confrontado por Atanásio (296-373 d.C.), num concílio convocado pelo imperador Constantino, que contou com a presença de mais de 300 bispos. Este evento ocorreu na cidade de Nicéia, em 325, e deste concílio surgiu o Credo Niceno, no entanto, a cristologia ariana permaneceu, e nos dias de hoje está presente em grupos como Cristadelfianismo, Testemunhas de Jeová e com alguns traços no Mormonismo.

João R. Weronka
In: Apologia da divindade de Cristo

Segunda Confissão Helvética

Todos os anos, sempre aos domingos, o Cinco Solas resgata alguma Confissão de Fé histórica e a publica. Em 2013, querendo o Senhor, publicaremos a Segunda Confissão Helvética. É menos conhecida que a Confissão de Fé de Westeminster e o Catecismo de Heidelberg, mas é um símbolo de fé que gosto muito.

O professor Alderi de Souza Matos diz o seguinte sobre ela:
Esse importantíssimo documento foi escrito pelo reformador suíço Johann Heinrich Bullinger (1504-1575). Convertido à causa evangélica em 1522, no ano seguinte ele conheceu Ulrico Zuínglio, o fundador da tradição reformada, do qual se tornou grande amigo, sucedendo-o em 1531 na liderança da Reforma suíça. Nessa função, procurou unir os protestantes suíços e alemães. Com vários colegas de diferentes cidades, escreveu a Primeira Confissão Helvética (1536), que se tornou a primeira declaração da fé reformada com autoridade nacional. A Segunda Confissão Helvética mantém a mesma estrutura, mas foi inteiramente redigida por Bullinger. Foi composta inicialmente após um parecer favorável do reformador Martin Bucer (1561), sendo reescrita durante uma epidemia na qual Bullinger julgou que iria morrer (1562). Ele anexou a confissão ao seu testamento como uma dádiva final à cidade de Zurique.
Este é um testemunho particular de fé, mas que mereceu se tornar um confissão pública de fé, adotada por várias igrejas reformadas. Diz o historiador que:
A confissão foi publicada em Zurique no dia 12 de março de 1566, sendo aceita por todos os cantões reformados. Posteriormente foi recebida na Escócia, Hungria, França, Polônia, Inglaterra e Holanda, tornando-se, ao lado do Catecismo de Heidelberg, o documento reformado mais estimado e influente. Reflete o pensamento maduro de Bullinger e destaca-se por sua catolicidade e moderação.
Minha oração é que esta Confissão sirva para lhe dar melhor clareza e maior firmeza na fé que uma vez foi dada aos santos.

A postagem começa amanhã.