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Filipenses 2:13 está traduzido errado?

Um artigo recente procura mostrar que o entendimento calvinista de Filipenses 2:13 erra por se basear na interpretação incorreta do termo energon.  A palavra traduzida como “efetua” (ARA e NVI), “opera” (ARC e TB) e “age” (NTLH) deveria, segundo o artigo, ser traduzido como "energizar", "permitir agir" ou "empoderar".  Ele reconhece que em outras passagens (p. ex. Mt 14:2) o termo também é traduzido como "operar", mas aí o correto seria "estar presente" ou "dar condições". Finalmente, faz-se uma analogia com "um ambiente de trabalho harmonioso", o qual favorece que uma pessoa explosiva torne-se calma, mas não garante que isso aconteça.

Trata-se do mesmo erro identificado por Calvino já em seus dias: “E assim fazem uma divisão entre Deus e o homem: aquele, por seu poder, insufla a este um movimento pelo qual possa agir de conformidade com a natureza nele infundida; este, porém, governa suas ações por determinação da própria vontade. Em suma, querem que o universo, as coisas humanas e os próprios homens sejam governados pelo poder de Deus, porém não por sua determinação”.

Antes de prosseguir com uma defesa das traduções que temos, convém enfatizar que de forma alguma os calvinistas anulam a responsabilidade humana, deixando de lado o versículo 12, onde nos é dito “desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor” (Fp 2:12). Mantemos as duas verdades: Deus é quem opera o nosso querer e o nosso efetuar e nós somos responsáveis por desenvolver nossa salvação com temor e tremor. Mas o artigo dá a impressão que para enfatizar esta última é necessário enfraquecer a primeira, o que evidentemente não é o caso. Isto posto, façamos algumas considerações sobre a afirmação de que as traduções que temos são incorretas.

Consideremos, primeiro, que uma tradução falha não deve ser admitida tão facilmente, levando-se em conta que quase todas as versões e traduções concordam entre si. Além das anteriormente mencionadas, encontramos "realiza" (Católica), "operatur" (Vulgata), "obra" (Biblia del Oso, 1569; Reina-Valera, 1909; Latinoamericana de Hoy, Biblia de las Americas), "hace nacer" (Dios Habla Hoy),  "trabaja" (Nueva Traducion Viviente), "produce" (Siglo de Oro; Biblia Textual, Reina-Valera, 1995), "opera" (Giovanni Diodati, 1649; Riveduta) "produit" (Louis Segond), "worketh" (AV, 1873; KJV; Webster), "work" (Good News; RSV; NRSV; Lexham), "working" (CEV; New Century; Holman Christian; New Living; Darby) e "works" (NKJ; NIV; ESV). Parece improvável que traduções de tão variadas épocas, idiomas e tradições tenham sido tão unanimes em traduzir incorretamente um termo.

Em segundo lugar, o termo ocorre em diversos locais no texto sagrado, com o sentido usado na passagem em apreço. Inclui ocorrências do Antigo Testamento grego (LXX), do Novo Testamento e, para além das escrituras canônicas, nos Pais Apostólicos. Toca aos levitas adultos "fazerem o seu serviço" (Nm 8:24) e a mulher virtuosa "faz bem e não mal" ao seu marido (Pv 29:30).  O próprio Deus diz “Quem fez e executou tudo isso? Aquele que desde o princípio tem chamado as gerações à existência, eu, o SENHOR, o primeiro, e com os últimos eu mesmo.” (Is 41.4). Nessas passagens, a tradução grega usa energon. Do Novo Testamento já foi mencionado Mt 14:2, que com a passagem paralela de Mc 6:14 declaram que em João Batista "operam forças miraculosas". Em Rm 7:5 paixões pecaminosas "operavam em nossos membros" e em 1Co 12:6,11 "Deus opera tudo em todos" e o "Espírito realiza todas estas coisas". Na segunda carta, 2Co 1:6 e 2Co 4:12 a tradução traz "torna eficaz" e "opera", respectivamente. Nas duas ocorrências de Gálatas, Deus "opera milagres" (Gl 3:5) e a fé "atua" (Gl 5:6). Em Efésios Deus "faz todas as coisas" (Ef 1:11), "fazendo-O assentar à Sua direita" (Ef 1:20), e é "poderoso para fazer infinitamente mais" (Ef 3:20), enquanto que Satanás é "o espírito que agora atua nos filhos da desobediência" (Ef 2:20).  Em Cl 1:19 o apóstolo refere-se à "eficácia que opera eficientemente" nele, enquanto que a Palavra de Deus está "operando eficazmente" nos crentes da Tessalônica (1Ts 2:13). Na carta seguinte (2Ts 2:7), ele lembra que o "mistério da iniquidade já opera". Finalmente, Tiago 5:16 lembra da eficácia da oração do justo. Conclui-se que a Bíblia é consistente em traduzir energon como “operar” ou equivalente.

Terceiro, e sem desmerecer o conhecimento de grego do autor do artigo e sendo eu próprio deficiente nessa área, consultei o significado dado à palavra pelos mais entendidos. Strong diz que o termo significa "ser eficaz, atuar, produzir ou mostrar poder, efetuar e exibir a atividade de alguém, mostrar-se operativo". Moulton (M-M) diz que o termo traz a ideia de "trabalho efetivo". Para Swanson (DBL), na passagem em foco significa "produzir, fazer que exista".  Para Thomas (NASB), o termo indica "estar trabalhando, trabalhar, fazer".  Liddell (AIGEL) entende a palavra como "estar em ação, operar". O Lexham Analytical Lexicon traduz simplesmente "operar". Para Ortiz (CMDGE), significa "operar, agir, exercer atividade, mostrar poder". Tuggy (LGENT) lista como significados "atuar, operar, ser eficaz, produzir, realizar". Para Cremer (BTLNTG), o termo significa "efetuar, mostrar a própria força" e no caso específico em estudo, "a operação espiritual de Deus no indivíduo". Kittel (CNT) diz que o verbo significa "atuar, estar em ação". Pelo visto, as obras de referência consultadas concordam com o significado adotado pelas traduções e versões bíblicas.

A quarta consideração a ser feita é que o autor ignorou que a palavra energon ocorre duas vezes no mesmo versículo. Tanto a palavra "efetuar" como "realizar" são traduções do mesmo verbo. Assim, se o primeiro "efetuar" tem o mero sentido de "energizar", "permitir agir" ou "empoderar", sem nenhum sentido de orientação ou efetivação, o segundo “realizar” deve ter o mesmo sentido, uma vez que é o mesmo verbo em ambos os casos.

Em quinto lugar, podemos deixar que alguns comentaristas se pronunciem a respeito dessa passagem. Agostinho, citado por Vincent, diz que "nós queremos, mas Deus opera o querer em nós, nós realizamos, mas Deus operar o realizar em nós". O próprio Vincent entende que "o verbo significa operação eficaz".

Calvino comenta que "Deus não apenas assiste à vontade fraca, ou corrige à depravada, mas ainda opera em nós o querer". Noutro lugar ele diz que "a primeira parte de uma boa obra é a vontade; a segunda, o firme empenho em executá-la: Deus é o autor de ambos. Portanto, furtamos ao Senhor, se algo arrogamos para nós, seja na vontade, seja na execução". Para Armínio, "as Escrituras atribuem à graça divina aquilo que, nos regenerados, opera, não apenas para o querer, mas também para o fazer", e ainda "assim, em relação à capacidade de querer e à vontade propriamente dita: “Deus é o que opera em vós, etc.”

Endriksen diz que "esta palavra indica o exercício efetivo do poder". Ele faz um paralelo com o paralítico de João 5 que "não podia caminhar, mas que pela voz de Jesus se levantou, tomou seu leito e começou a andar" e conclui o pensamento citando os Cânones de Dort, que dizem que "a vontade, sendo então renovada, não só é movida e conduzida por Deus, mas também, como consequência dessa influência, chega a ser ativa ela mesma".

Barkley, por sua vez, diz que "a palavra grega traduzida efetuar e realizar é a mesma: energein. Sobre este verbo se têm que notar duas coisas importantes: sempre se usa com respeito à ação de Deus; e sempre se aplica a uma ação efetiva. Todo o processo da salvação é uma ação de Deus e esta ação é efetiva porque é sua ação. A ação de Deus não pode frustrar-se nem ficar inconclusa; deve ser plenamente efetiva". O pentecostal Elienai Cabral afirma que "a expressão “opera em vós” identifica a obra exclusiva de Deus. E Ele quem opera, quem realiza, quem efetua “tanto o querer como o efetuar”. Essa declaração descreve um propósito de Deus para com os cristãos. Ele efetua nos crentes o querer, a vontade de obedecer e desenvolver a salvação".

Concluindo, afirmamos que a tradução operar ou efetuar não é incorreta, pois é adotada por quase todas as versões e traduções e de forma consistente nas várias ocorrências do termo, tanto no Antigo como no Novo Testamento, tendo a concordância de lexicógrafos e comentaristas de diversas tradições teológicas.

Soli Deo Gloria

O problema de Mateus 11:12

A salvação é pela graça ou depende do esforço pessoal? Boa parte dos cristãos responderiam com um enfático "Sola Gratia!". Alguns, porém, diriam que é pela graça cooperando com esforço humano. E ainda alguns poucos afirmariam que depende fundamentalmente do empenho pessoal. Nestes dois últimos casos, pode-se buscar apoio em Mateus 11:12 onde Jesus diz que “desde os dias de João Batista até agora, o reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele” (Mt 11.12). Entretanto, este texto é de difícil tradução e representa um desafio considerável de interpretação.

Algumas traduções existentes em português dizem que "o reino dos céus é tomado à força" (NVI, 2000; TB, 2010), que "o reino dos céus é tomado por esforço" (ARA, 1993), que "se faz violência ao Reino dos céus" (ARC, 1968; ARC, 1969; ARC, 1995), que "o reino dos céus tem sido assaltado com violência" (APC, 1991) e que "o Reino do Céu tem sido atacado com violência" (NTLH, 2000). Sobre a identidade dos que tomam o reino é dito que são “os que usam de força” (NVI, 2000), "os que se esforçam" (ARA, 1993; TB, 2010) ou ainda "os violentos" (APC, 1991; NTLH, 2000). Há boas razões para se optar por uma ou outra tradução, mas obviamente não podem todas estar igualmente corretas.

O termo traduzido para a expressão "tomado por esforço” e suas alternativas é biazetai, derivado de biazo, que significa "usar a violência, aplicar a força; forçar, infligir violência em". O termo só ocorre aqui e em Lc 16:16, mas cognatos de biazetai são usados na Septuaginta. Exatamente na mesma forma encontrada em Mt 11:12, o verbo só ocorre no apócrifo 4Macabeus 2.8, com o significado de “aprisionar, tornar subserviente, dominar, forçar, violentar, subjugar, dominar, pisar”. O verbo está na voz passiva. A expressão “os que se esforçam” é tradução de biastai, substantivo que significa “forte, impetuoso, que faz uso da força, violento”, “o que emprega a violência, pessoa impetuosa” ou “uma pessoa que apela para a violência para alcançar os seus objetivos”.

Uma questão que surge na análise de biazetai e biastai é se são usados de uma forma favorável ou desfavorável, ou seja, se denotam algo bom ou mau. Como vimos, biazetai está na voz passiva, o que significa literalmente que o reino “é forçado, vencido, superado, tomado pela tormenta”. A voz passiva de biazo só ocorre no sentido de uma subjugação hostil ou violenta, portanto, mau. No grego extra-bíblico biastes ocorre em Filo sempre num mau sentido. Uma vez que o termo biazetai na voz passiva implica o uso de força e até mesmo de violência, o sentido de que o reino sofre violência de natureza desfavorável parece-nos a mais provável.

Isto tudo considerado, entendemos que a leitura mais natural do texto é a que diz que desde o tempo de João o reino de Deus e seus trabalhadores sofrem violência da parte de seus inimigos, que tentam evitar ou usurpar o governo divino. O grego indica que o reino está sendo atacado e que homens violentos estão tratando de impedir que outros entrem. A prisão de João e a rejeição e execução de Jesus a acontecer logo em seguida corroboram essa interpretação. Sendo assim, os biastai (violentos) são os líderes religiosos dos dias de Jesus, que reclamavam por conta próprio um direito sobre o reino ou os grupos revolucionários que pretendiam um reino terreno, como os zelotes e outros ativistas, mas não os discípulos de Jesus. Herodes pode ser incluído nessa lista pois prendeu e iria executar João.

O contexto parece reforçar a ideia de que o reino é atacado por inimigos e que seus súditos são perseguidos. No capítulo anterior, quando Jesus enviou os doze dizendo “pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus” (Mt 10:7) avisou “eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos” (Mt 10:16) e acrescentou “acautelai-vos, porém, dos homens; porque eles vos entregarão aos sinédrios, e vos açoitarão nas suas sinagogas...” (Mt 10:17) “e odiados de todos sereis por causa do meu nome” (Mt 10:22). No capítulo 12 a perseguição anunciada no capítulo 10 e implícita no capítulo 11, começa a tornar-se explícita: “E os fariseus, vendo isto, disseram-lhe: Eis que os teus discípulos fazem o que não é lícito fazer num sábado” (Mt 12:2) e “os fariseus, tendo saído, formaram conselho contra ele, para o matarem” (Mt 12:14).

Os violentos, então, não seriam discípulos determinados, mas inimigos que tentam arrebatar o reino pela força, não entrando e tentando impedir que outros tomem parte dele. Os discípulos de Jesus são descritos no mesmo capítulo, não como homens violentos ou valentes, mas sim como pequeninos e oprimidos: “Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te aprouve. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11:25-27).

Se esta interpretação estiver correta, o uso de Mt 11:12 para defender o esforço humano na obtenção da salvação é impróprio. Aliás, advogar a interpretação de que o reino de Deus é conquistado por pessoas esforçadas levanta sérios problemas com o ensino claro e inequívoco de que salvação é unicamente pela graça e pelo poder de Deus.

Soli Deo Gloria

Nota: está é uma versão condensada e adaptada de um artigo mais completo, com as fontes consultadas, que pode ser obtido aqui: O problema de Mateus 11:12.

Os conservadores e a infalibilidade da Bíblia

A doutrina da infalibilidade da Bíblia é freqüentemente mal compreendida. Pelo que geralmente se fala, parece que a doutrina é totalmente refutada pela objeção de que ela nada mais é do que inspiração mecânica, o que coincide com o mais desvitalizado literalismo. Procura-se, ainda, refutá-la pela alegação de que há muitos manuscritos da Bíblia, sendo numerosos os casos nos quais eles diferem entre si quanto à maneira de dizer as coisas nos vários textos. E verdade que alguns representantes do fundamentalismo ficam vulneráveis diante de críticas desse teor. Há algumas seitas cuja aceitação literal do conteúdo das Escrituras leva seus adeptos ao ponto de até tentarem pegar em ofídios extremamente venenosos ou fazer coisas igualmente despropositadas. Muitos dentre tais literalistas se recusam a levar em conta certas implicações relacionadas com a existência de diferentes manuscritos da Bíblia. Tendo-se em mente, entretanto, que alguns conservadores como, por exemplo, Machen, também foram eruditos bíblicos de alto nível, então não nos será difícil perceber que os conservadores dispõem de respostas adequadas para não cederem diante de tais críticas, aparentemente óbvias.

Machen e outros conservadores de seu tipo não se cansam de afirmar que só o manuscrito original da Bíblia, isto é, aquele que veio diretamente da inspiração divina, é que será imune a erros. Esses eruditos conservadores não entendem, absolutamente, que as edições da Bíblia atualmente não tenham erros.

Com efeito, os conservadores têm contribuído admiravelmente com a tarefa da erudição bíblica, no propósito de que seja possível a restauração do melhor texto da Bíblia. Embora haja fundamentalistas fanáticos que, declarando ser a Versão do Rei Tiago infalível, têm chegado ao extremo de queimar a Versão Revisada, isso não acontece com todos os conservadores. Grande número dentre eles tem recomendado a leitura das edições revistas. Os conservadores amigos da erudição expressam a convicção de que Deus mesmo permitiu a perda do original da Bíblia, que era imune a qualquer erro, pelo fato de saber que o homem haveria de idolatrá-lo, como é o que acontece com relação às relíquias religiosas. Os homens encarregados de fazerem cópias da Bíblia cometeram erros e isso explica a existência de manuscritos discordantes. Todavia, Deus os preservou de introduzir em suas cópias os tipos de erros que pudessem resultar em prejuízo para a salvação dos pecadores, E. J. Carnell citava um trecho da introdução ao Revised Standard New Testament, onde se lê que um grupo de eruditos não conservadores concorda em que nenhum manuscrito tenha sido encontrado que requeresse qualquer mudança na fé cristã. Isso, nos diz Carnell, é tudo quanto um conservador deseja saber da parte dos eruditos.

Simplesmente não é verdade que o conservador, quem quer que ele seja, não passa de um literalista. O conservador não se sente solicitado a amputar sua mão direita, nem a arrancar um de seus olhos, pelo fato de que Jesus disse que os homens fizessem isso. Os conservadores sabem muito bem que a Bíblia, por vezes, faz uso de linguagem poética e alegórica. Em seus estudos ele não se baseia em uma interpretação literal das palavras das Escrituras; antes, procura obedecer à lição que vem do sentido “natural” dos textos. Nos pontos nos quais a Bíblia, obviamente, deve ser entendida literalmente, o conservador assim a entende. Assim sendo, o conservador crê na ocorrência da ressurreição corporal de Jesus de entre os mortos, pelo fato de que ninguém pode ler os respectivos textos sem entender que eles dizem que Jesus ressuscitou mesmo. Entretanto, o conservador não se sente obrigado a admitir que Isaías tenha visto os montes a saltitarem nem aplaudindo com as mãos. A palavra inspirada de Deus poderá ocorrer em textos poéticos ou em textos de prosa, de modo que temos de interpretá-los no sentido natural que eles contém.

W. E. Hordern
In: Teologia Contemporânea.

Como os calvinistas explicam Hebreus 6:4-6?

“É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia. Porque a terra que absorve a chuva que frequentemente cai sobre ela e produz erva útil para aqueles por quem é também cultivada recebe bênção da parte de Deus; mas, se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada e perto está da maldição; e o seu fim é ser queimada” (Hb 6.4–8) .
O texto da carta aos Hebreus destacado acima é um dos mais difíceis das Escrituras. No passado o mesmo foi utilizado por grupos hereges chamados de donatistas e novacianos, os quais apelavam a ele para negar que os que uma vez negaram a fé pudessem ser readmitidos à comunhão da igreja. Diante da dificuldade de oferecer uma resposta apropriada aos hereges, muitos chegaram a questionar a canonicidade da carta.

E sobre o texto já se debruçaram estudiosos da envergadura de Calvino, Lutero, Mathew Henry, Tertuliano e um sem número de eruditos. Embora alguns deles tenham defendido a sua interpretação como sendo a correta, os mais prudentes não só reconheceram a dificuldade, como evitaram ser dogmáticos e conformaram-se em esperar a volta do Senhor para afirmar uma certeza sobre o que o autor ensina. É óbvio que escrevendo depois de homens com tal envergadura, nem sonho dizer qual estava certo, menos ainda apresentar uma interpretação inédita e melhor que a deles. Limito-me a fazer um apanhado das principais possibilidades.

O desafio arminiano. Quando um arminiano apresenta essa passagem como um desafio a um calvinista, em geral está defendendo a possibilidade de perda da salvação. Identificam os que foram “iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro” como crentes regenerados e o fato de que “caíram” significando que perderam a salvação. Não é uma interpretação livre de problemas, pois implica que “é impossível outra vez renová-los para arrependimento”, ou seja, tais pessoas não podem ser trazidas de volta à salvação. E levanta a questão de qual pecado configuraria essa queda? O escritor diz que “se pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados” (Hb 10.26, ACF). Quem de nós já não cometeu tal pecado? Sugere-se que se trata de apostasia, mas a palavra apostasia não ocorre no texto em estudo.

As respostas calvinistas concentram-se principalmente em negar que o autor da carta esteja se referindo a verdadeiros crentes ou que a queda implique real perda da salvação, podendo tratar-se de um caso hipotético ou uma outra consequência real, que não a perdição eterna. Nenhuma delas é livre de dificuldades.

1. Não eram regenerados. Vários calvinistas e alguns arminianos não identificam as pessoas descritas como sendo crentes regenerados, mas falsos professantes, que estiveram perto de se converterem. Para eles “iluminados” refere-se compreender a mensagem do evangelho, “provaram” significam que apenas degustaram e o “participantes” que usufruíram de um graça comum, não necessariamente salvífica. Em geral, entendem o “caíram” como sendo apostasia total e definitiva. Sendo assim, foi do conhecimento da verdade que essas pessoas caíram, não da possessão pessoal dela, saíram de uma participação relativa do Espírito Santo, não da participação da natureza divina. Por rejeitarem o evangelho que compreenderam, chegaram a um tal endurecimento que se pode dizer que “é impossível outra vez renová-los para arrependimento”.

2. A queda é hipotética. Essa posição encontra representantes entre muitos calvinistas e alguns arminianos. Para esses intérpretes, o texto descreve crentes regenerados e uma apostasia final e irreversível. Porém, trata-se de uma situação hipotética, o que poderia, em tese, acontecer se um verdadeiro crente se apostatasse total e finalmente da fé. Se fosse possível um verdadeiro crente perder a salvação, então seria impossível para ele recuperá-la. Os que defendem essa posição o apoiam-se no fato de que o escritor não usa os pronome “nós” ou “vós” ao descrever a queda dos iluminados, como o faz nas porções anteriores e posteriores de sua mensagem (Hb 6:9).

3. A queda não é a perda da salvação. Finalmente, uma outra posição afirma que o texto descreve verdadeiros crentes, porém a queda não significa perda da salvação. A perda seria no progresso espiritual ou dos galardões. Seguindo o raciocínio de Hb 6:1-3, o autor estaria tratando do progresso na fé. Assim, o ser iluminado refere-se ao batismo, provar o dom espiritual é participar da ceia, participar do Espírito Santo é ser batizado com o mesmo e provar os poderes do mundo vindouro é receber/realizar os sinais que acompanham os que creem. Se após tudo isso a pessoa cai, vale dizer, deixa de progredir, é impossível voltar no início e recomeçar com o arrependimento, pois seria como crucificar de novo o Salvador. Por isso o autor espera de seus leitores coisas melhores, ou seja, o contínuo progresso na fé. Uma versão dessa explicação faz referência à perda dos frutos e dos galardões, representada pela terra queimada em Hb 6:8, onde o que de fato é queimado é o que a terra produziu.

Minha posição. O que eu creio é que Hebreus 6:4-6 deve ser lido e interpretado à luz do ensino do Novo Testamento sobre a segurança eterna dos crentes. Parafraseando C. I. Scofield, o “se” de Hb 6:6 não pode anular o “em verdade” de Jo 5:24. E não é o caso de contrapor um verso a outro, e sim de iluminar um texto particular com o ensino geral das Escrituras.

Jesus disse “em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (Jo 5.24). Disse também que “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo 10.28). Paulo afirma que “agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1), que fomos “selados com o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória” (Ef 1.13–14) e que sendo assim “quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós” (Rm 8.34). Pedro completa que somos “guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo” (1Pe 1.5). As passagens bíblicas que asseguram a preservação do salvo são tantas que citar todas aqui alongaria demais esse parágrafo.

Portanto, à luz dessas passagens e muitas outras é impossível que alguém que foi eleito, predestinado, chamado e justificado se apostate total e finalmente e perca a salvação, não sendo glorificado (Rm 8:28-30). Como a Escritura não se contradiz, Hebreus 6:4-6 não pode estar ensinando que um regenerado pode perder a salvação. Restam três possibilidades: as pessoas referidas não eram crentes verdadeiros, o que se perde não é a salvação ou é uma situação hipotética. Eu não poderia afirmar com certeza qual delas é a correta (inclino-me mais para a da “queda hipotética”), mas isso não é necessário, pois sei o que o texto não ensina: a perda da salvação. O texto simplesmente não afirma que um crente pode, de fato, a perder a salvação e interpretar dessa forma força ceder a um erro parecido com os de Donato e Novaciano.

Soli Deo Gloria

Como os calvinistas explicam Tito 2:11?

Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” (Tito 2.11)  
Um dos recursos bíblicos mais utilizados contra o calvinismo é Tito 2:11. É tido como inexplicável à luz da soteriologia calvinista. Por isso é citado contra a doutrina da eleição incondicional, da graça irresistível e da expiação limitada. Mas será que é isso mesmo ou existe alguma explicação que harmonize esse versículo com as doutrinas da graça como entendidas pelos reformados? Comecemos considerando as palavras e expressões isoladas, depois as implicações da declaração como um todo e, finalmente, a interpretação à luz do contexto.

“Graça de Deus” refere a tudo aquilo que o Senhor faz para redimir o homem do pecado e leva-lo para o céu. Ela é livre - não devida a ninguém, e incondicional - não havendo nenhuma condição prévia e nenhum pagamento posterior. Essa graça se manifestou (apareceu, brilhou) na vinda de Jesus, pois se diz que “a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1:17). Sem dúvida, essa graça é salvífica, pois é qualificada como salvadora, no sentido de meio ou instrumento que produz a salvação. Nas outras quatro ocorrência do termo é traduzida simplesmente como salvação. “Todos os homens” é uma expressão comum na Bíblia, ora significando todos os homens sem exceção, ora todos os tipos ou classes de homens. Em cada caso, o sentido deve ser buscado no contexto.

A relação entre “a graça de Deus se manifestou salvadora” e “todos os homens” apresenta dificuldades, exceto que se advogue o universalismo. Em geral, tanto calvinistas como não calvinistas negam o universalismo, e para harmonizar “graça que salva” com “todos os homens” precisam ponderar os lados da equação. Os não calvinistas atacam a graça, seja tornando-a insuficiente e requerendo uma ação do homem para completa-la, seja diminuindo a sua eficácia, tornando-a apenas potencialmente salvadora, podendo ser resistida e frustrada pela vontade do homem. Os calvinistas, por sua vez, interpretam “todos os homens” à luz do contexto e chegam à conclusão que se refere a toda classe de homens, e não a todos os homens sem exceção.

Notemos, primeiramente, que o versículo começa com a palavra “porquanto”, que é uma conjunção exploratória lógica, ou seja, indica que o que segue é uma justificativa do que precede. Em Tt 2:11-14 Paulo está justificando os imperativos éticos dos primeiros versículos. Sendo assim, “porquanto” indica que devemos ler o que vem antes, no caso, Tito 2:1-10. Ao ler esses versos, notamos algumas coisas. Primeiro, que Paulo está se referindo a pessoas crentes, pois proclama uma ética que deriva da sã doutrina. Segundo, que se trata de pessoas de diversas classes (homens, mulheres, idosos, jovens, escravos). Terceiro, que são gentios, em sua maioria, pelo menos. Se fossem judeus, estariam familiarizados com uma ética derivada da doutrina e não precisariam da justificativa de Paulo. Portanto, “todos os homens” é uma referência à toda classe de homens salvos pela graça, ou seja, independente de etnia, sexo, idade, classe social, todos os que são salvos pela graça devem adornar à sã doutrina com um modo de vida digno.

Mas não são apenas os versos anteriores a Tt 2:11 que limitam a referência paulina aos crentes de diversas classes. O verso 12 continua dizendo que a graça se manifestou “educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente” (Tt 2.12). A graça não se manifesta passivamente, potencialmente salvadora apenas. Tampouco vem, nos salva e vai embora. Mas permanece conosco e efetivamente nos educa quanto à maneira de viver neste mundo. A referência aqui, é óbviamente às classes de crentes referida na parte inicial do capítulo, como os pronomes indicam. O verso 13, “aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus” (Tt 2.13), também limita a referência de Paulo aos crentes, únicos para os quais a volta de Cristo se constitui numa “bendita esperança”. E, finalmente, o verso 14 declara “o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras” (Tt 2.14). O pronome “nos” e a expressão “um povo exclusivamente seu” deixam claro que Paulo tem em mente os crentes, tão somente.

Como vimos, advogar que “todos os homens” refere-se a todos os homens que viveram em todos os tempos e lugares implica numa graça “salvadora que não salva” todos aqueles a quem é manifestada. Por outro lado, o capítulo inteiro está falando de crentes, primeiro prescrevendo um comportamento ético como resultado da sã doutrina, depois justificando esse comportamento frente à manifestação da graça salvadora e finalmente apontando para os resultados presentes e futuros de se viver de acordo com esses mandamentos. Tomar “todos os homens” no sentido da humanidade inteira, sem excluir nenhuma pessoa, é tirar a frase do contexto em que está inserida e dar-lhe um sentido baseado em nossos pressupostos.

Resta-nos observar o que diz o verso 15: “Dize estas coisas; exorta e repreende também com toda a autoridade. Ninguém te despreze.” (Tt 2.15)

Soli Deo Gloria

Como o calvinismo explica Isaías 5:4?

“Que mais se podia fazer ainda à minha vinha, que eu lhe não tenha feito? E como, esperando eu que desse uvas boas, veio a produzir uvas bravas?” (Is 5.4)

Algumas passagens bíblicas são tidas como inexplicáveis à luz do entendimento calvinista. Eu as chamo de “versículos arminianos” ou anticalvinistas. Certamente que vários calvinistas fizeram exegese dessas passagens, com grande êxito, diga-se. Sendo assim, ao considerá-las não pretendo preencher alguma lacuna, nem intenciono oferecer uma análise melhor, apenas expressar meu entendimento delas.

No caso de Isaías 5:4, a primeira coisa a ser feita é descobrir é “problema calvinista”, se é que ela apresenta algum. Considerando o verso isoladamente, ele não oferece dificuldade ao esquema calvinista. Senão vejamos. A depravação total não é negada, pelo contrário, a vinha produziu “uvas bravas”. Não trata da eleição soberana, nem da redenção particular. Se alguma tentativa de levantar versículo como objeção ao calvinismo, deve ser quanto à graça irresistível e a perseverança dos santos. Mas será que temos um problema real aqui?

A graça eficaz significa que nos eleitos a graça de Deus vence a resistência do homem, não por força violenta, mas renovando sua vontade e o inclinando às coisas de Deus. A doutrina da preservação dos santos diz que um regenerado será guardado pelo poder de Deus de modo a ser certamente salvo no final. Para que essas duas doutrinas sejam negadas pela passagem em apreço, a vinha referida na parábola deve ser eleita, ter sido regenerada e perdido a salvação no final. Vejamos se é o caso.

A explicação da parábola diz que “a vinha do SENHOR dos Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta dileta do SENHOR; este desejou que exercessem juízo, e eis aí quebrantamento da lei; justiça, e eis aí clamor” (Is 5.7). Porém, devemos considerar que “nem todos os de Israel são, de fato, israelitas” (Rm 9.6). Poucos versos antes o Senhor se refere aos “de Israel que forem salvos” (Is 4:2), dizendo que “os restantes de Sião e os que ficarem em Jerusalém serão chamados santos; todos os que estão inscritos em Jerusalém, para a vida” (Is 4.3). Não são todos os de Israel que serão salvos, pois “no monte Sião e em Jerusalém, estarão os que forem salvos, como o SENHOR prometeu; e, entre os sobreviventes, aqueles que o SENHOR chamar” (Jl 2.32). Desses que foram inscritos para a vida e chamados pelo Senhor se diz que “o que escapou da casa de Judá e ficou de resto tornará a lançar raízes para baixo e dará fruto por cima” (Is 37.31), o fruto requerido pelo Vinhateiro.

A falibilidade da graça é alegada sob o falso argumento de que Deus fez tudo o que podia ser feito para salvar Israel. “Que mais se podia fazer ainda à minha vinha, que eu lhe não tenha feito? E como, esperando eu que desse uvas boas, veio a produzir uvas bravas?” (Is 5.4). O que o Senhor estava dizendo era que no juízo, e é disso que se trata a parábola, Israel não poderia alegar que não produziu justiça por falta de condições adequadas. Ela produziu uvas bravas não por que a terra era ruim, mal preparada, tomada por pragas e vítima de invasões, mas porque era uma árvore má, pois “não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons” (Mt 7.18), por melhor adubada que seja. E Deus tratou Israel com distinguido cuidado. “São israelitas. Pertence-lhes a adoção e também a glória, as alianças, a legislação, o culto e as promessas; deles são os patriarcas, e também deles descende o Cristo, segundo a carne” (Rm 9.4–5). De Israel, mais do que qualquer outro povo sobre a terra, era justo esperar “que exercessem juízo, e eis aí quebrantamento da lei; justiça, e eis aí clamor” (Is 5.7). Mas afirmar que Deus não tinha poder para fazer mais é desonrar o Onipotente Senhor.

O juízo “tirarei a sua sebe, para que a vinha sirva de pasto; derribarei o seu muro, para que seja pisada” (Is 5.5) não implica perda da salvação, pelo fato já referido de que Israel não foi eleito como nação étnica para a salvação. Portanto, é desnecessário responder à objeção de que a parábola nega a segurança eterna dos salvos. Farei apenas a citação de uma passagem do Novo Testamento que corrobora o que foi dito anteriormente e deixa claro que o abandono da vinha por parte do Senhor não significa que os eleitos e eficazmente chamados perdem a salvação recebida e garantida gratuitamente:

“Deus não rejeitou o seu povo, a quem de antemão conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura refere a respeito de Elias, como insta perante Deus contra Israel, dizendo: Senhor, mataram os teus profetas, arrasaram os teus altares, e só eu fiquei, e procuram tirar-me a vida. Que lhe disse, porém, a resposta divina? Reservei para mim sete mil homens, que não dobraram os joelhos diante de Baal. Assim, pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça. E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça. Que diremos, pois? O que Israel busca, isso não conseguiu; mas a eleição o alcançou; e os mais foram endurecidos” (Rm 11.2–7). 

Soli Deo Goria 

Pode um crente nascido de novo perder a salvação?

Duas passagens da epístola aos Hebreus ressaltam para nossa compreensão, relacionadas ao desafio à doutrina da preservação dos santos, ensinada em João 10.28. Tais passagens são Hebreus 6.4-6 e 10.26-31. Ambas ensinam que o crente professo pode voltar-se contra o Senhor Jesus depois de tê-lo recebido como Salvador. Mas a verdadeira questão em tela é se uma ou outra dessas passagens tem em vista o crente regenerado.

Hebreus 6.4-6 foi bem traduzido pela NVI: "Ora, para aqueles que uma vez foram iluminados [hapax phōtisthentas], provaram o dom celestial, tornaram-se participantes [metochous genētherttas] do Espírito Santo, experimentaram a bondade da palavra de Deus e os poderes da era que há de vir, se caírem, ser recuperados pelo arrependimento, pois para si mesmos estão crucificando de novo o Filho de Deus, sujeitando-o à desonra pública". Vamos examinar ponto a ponto a descrição que se faz do apóstata: 

1. Ele foi iluminado por uma clara apresentação do evangelho e pelo convite para que se arrependa e creia. Aparentemente essa pessoa fez profissão de fé e recebeu Cristo como seu Salvador.

2. A pessoa provou o dom celestial (dōrea, que não é a mesma coisa de charisma, "dom espiritual"); isto é, ela tomou parte nas atividades da igreja, na comunhão alegre dos demais cristãos no culto e na obra de Deus, e chegou a ver uma reação perante seu testemunho e apelo nas reuniões públicas.

3. A pessoa provou a bondade da Palavra de Deus. Ou seja, ela chegou à compreensão clara da mensagem bíblica e mentalmente a aprovou, tendo apreciado a apresentação fiel e ardorosa da parte dos pregadores.

4. A pessoa chegou a provar os poderes da era vindoura — da mesma forma que Judas os experimentou, quando ele voltou com os outros onze, exultando com exuberância de que no decurso de sua campanha evangelística, divididos em duplas, até os demônios se lhes sujeitavam, quando pregavam o Senhor Jesus (Lc 10.17). É evidente que ele estava tão envolvido naquele esforço que na véspera de sua traição, no jardim do Getsêmani, nenhum de seus colegas suspeitava do ato traiçoeiro que Judas tinha em mente durante a refeição pascal. (Sabemos disso porque os apóstolos perguntaram uns aos outros, ao redor da mesa, "Com certeza não sou eu!" [Mc 14.19]. Nem souberam naquele dia a quem Jesus se referia como o traidor.) 

Veja-se que aquelas três qualidades estavam presentes em Judas. Ele havia sido iluminado, experimentado o dom celestial e provado a bondade da Palavra de Deus, ao sentar-se durante três anos ouvindo o ensino do Senhor Jesus. Enquanto havia participado da pregação do Evangelho e da expulsão de demônios, também possuía a ajuda do Espírito Santo. Todavia, nada disso implica que ele tenha sido habitado pela terceira Pessoa da Trindade; seu corpo não havia sido tomado pelo Espírito para ser o templo santo de Deus. Jamais! Cristo podia ler seu coração e ver a hipocrisia e a traição lá dentro — pois o Senhor o indicou com clareza durante a Última Ceia. Na oração sacerdotal de João 17, Jesus falou de Judas como "aquele que estava destinado à perdição" (v. 12). Nenhum esforço extraordinário da imaginação poderia fazer dele, em tempo algum, um crente nascido de novo, pouco importando quão convincente tenha sido seu desempenho perante seus colegas apóstolos. No entanto, as quatro qualidades tidas como próprias de um apóstata estavam presentes em Judas.

Fica bem claro que o tempo todo Judas esperava obter vantagens pessoais da parte de Jesus; talvez desejasse uma posição honorífica no reino vindouro de Cristo (que ele julgava ser primordialmente político e de natureza terrena). Ele nunca aceitara com seriedade Jesus como Senhor, em seu coração; jamais depositou seu corpo no altar da devoção sincera à vontade e à glória de Deus. Judas poderia ter professado essa entrega, mas jamais a levou a sério. Quando Jesus deixou bem claro que não tencionava usar seus poderes sobrenaturais a fim de obter vantagens políticas, Judas tomou a decisão de traí-lo e entregá-lo às autoridades do templo em troca de algum dinheiro. Essa iniciativa deixa bem claro que ele pretendia usar Cristo para atingir seus interesses egoístas; ele não queria entregar-se e ser útil a Jesus para seu serviço e glória.

Cedo ou tarde chega a época da provação na carreira de quem aceita Jesus como Salvador — o Senhor para quem ele quer viver, por quem está pronto a morrer — mas, mediante tal provação, sua "conversão" espúria se tornará bem patente. O verdadeiro crente, nascido de novo, do tipo que jamais é arrancado das mãos do Mestre, é aquele que passou por aquela mudança interior, transformação do coração, que o faz centralizar-se em Cristo, em vez de em si mesmo (cf. 2 Co 5.14-17). A morte da pessoa para o mundo e para o seu eu, a entrega a Jesus como Senhor, que dá acesso ao Espírito Santo, e faz com que o Espírito tome posse do convertido de modo completo e total, é uma regeneração genuína, permanente. Ainda que esse crente possa em certa ocasião voltar atrás, durante algum tempo, e experimentar de novo o peso antigo da escravidão e vergonha, ele jamais terá permissão para permanecer no estado de rebelião e derrota. O Espírito Santo não o deixará a sós, mas por esse ou aquele meio vai atraí-lo de volta ao arrependimento renovado, à fé e à entrega total.

A segunda passagem de Hebreus que devemos estudar é 10.26, 27: "Se continuarmos a pecar deliberadamente [hekousiōs também pode significar 'de boa vontade'] depois que recebermos o conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados, mas tão-somente uma terrível expectativa do juízo e de fogo intenso que consumirá os inimigos de Deus". Aqui há de novo uma recepção anterior do conhecimento da verdade como a temos em Jesus (semelhante ao "iluminados" de 6.4) e uma compreensão integral do sentido da cruz. Mas infelizmente é possível tomar posse do plano da salvação como um conceito e comunicá-lo claramente a outros, como questão de ensino, e apesar disso nunca entregar-se realmente a Jesus. A Bíblia define o ato de crer verdadeiramente como aceitar a Cristo — não simplesmente o ensino de Jesus como filosofia ou teoria — como Senhor e Salvador: "... aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito..." (Jo 1.12).

O crente que recebe Jesus como Senhor com toda convicção e verdade nunca voltará com sinceridade e de boa vontade à prática do pecado, pois jamais "pisou aos pés o Filho de Deus" (Hb 10.29); nunca considerará seu sangue derramado como impuro ou profano (koinon), e jamais insultará galhofeiramente o Espírito Santo. A pessoa que consegue admitir em si mesma esse tipo de impiedade e desprezo para com seu Salvador divino, com toda certeza nunca entregou seu coração a Ele. À semelhança de Judas, pode ter pensado que apenas "tentaria Jesus" e ver até que ponto gosta do Senhor, e se poderá obter dele as vantagens e bênçãos que almeja para si mesmo, para sua própria satisfação. Visto que tal crente jamais levou a sério as afirmações de Cristo, pois nunca admitiu o senhorio dele em sua vida, tal cristão não passou de uma falsificação espiritual, desde o início. Deus jamais se contenta com falsificações. Ele só aceita o crente real, genuíno. Deus não pode deixar-se enganar, nem mesmo pela demonstração mais piedosa. Ele consegue ler nossos corações.

Archer, G.
In: Enciclopédia de temas bíblicos.

Princípios hermenêuticos de Calvino

Fullerton¹ observa que Calvino pode ser chamado o primeiro intérprete científico da história da igreja cristã. Calvino cria que a Escritura cumpre três funções:

(1) Torna claro nosso critério de Deus; (2) revela elementos na relação com Deus que não pode ser conhecido por meio da natureza; e (3) fala de Deus como redentor.

A Escritura é autoridade absoluta para nosso conhecimento de Deus. Ele cria que a inspiração é uma doutrina explicativa de uma experiência que já temos. É incerto se ele sustentava um critério de inspiração mecânica ou não. Rechaçou o método alegórico e enfatizou a interpretação literal das Escrituras.

Calvino insistiu que era necessária a iluminação do Espírito para a interpretação da Palavra de Deus. A verdadeira exegese é confirmada pelo testemunho interno do Espírito. Ele acreditava que a voz do Espírito vivo de Deus fala ao intérprete nas Escrituras.    

Calvino insistiu que o primeiro interesse do intérprete é deixar que o autor dissesse o que tem que dizer em lugar de atribuir-lhe o que pensamos que deveria dizer. A tarefa do intérprete é mostrar a mente do escritor. Considerava um sacrilégio o uso das Escrituras para o prazer pessoal. Ele se recusou a ler seus conceitos teológicos em sua interpretação das Escrituras.

Calvino recomendava que o exegeta atuasse com cautela no que se refere à interpretação da profecia messiânica. Encorajou os intérpretes a investigar a localização histórica de todas as Escrituras proféticas e messiânicas. Quis evitar o descobrimento de Cristo no Antigo Testamento através da interpretação alegórica em passagens onde Cristo não podia ser encontrado; entretanto, cria que Deus não se manifestou se não por meio de seu Filho, mesmo no Antigo Testamento.

Os princípios de interpretação de Calvino incluíam o significado literal (Método histórico-gramatical); o princípio Cristocêntrico, por meio do qual tanto o Antigo Testamento como o Novo Testamento apontava para Cristo; o rechaço do método alegórico; e o testemunho interior do Espírito. Produziu um comentário sobre toda a bíblia que ainda hoje é extremamente valioso.

Nota:
¹ Kemper Fullerton, Prophecy and Authority (New York: The Macmillan Co., 1919), p. 133

Fonte: A Interpretação da Bíblia - Estudos Teológicos Programados
Weldon E. Viertel, Edição de 1979 - Juerp.
Via: Marcio Melânia (email)

Evangelho de Cristo ou de Paulo?

"Lembra-te de Jesus Cristo, ressuscitado de entre os mortos, descendente de Davi, segundo o meu evangelho" 2Tm 2:8
Inimigos da fé tem acusado Paulo de distorcer o evangelho de Jesus Cristo, alegando que o cristianismo é uma invenção paulina e que não corresponde aos ensinamentos originais de Jesus Cristo. Por vezes insinua-se que o próprio apóstolo dos gentios tinha consciência desse fato e que ele distinguia seu evangelho daquele pregado pelos outros apóstolos de Cristo.

As passagens citadas como evidência de que Paulo intencionalmente modificou o evangelho de Jesus são as passagens nas quais ele se refere ao "meu evangelho" (Rm 2:16; 16:25; 2Tm 2:8), "nosso evangelho" (2Co 4:3; 1Ts 1:5; 2Ts 2:14) e "evangelho por mim anunciado" (Gl 1:11). Mas será que tais expressões implicam que Paulo anunciava, de forma consciente, um evangelho distinto do entregue por Cristo e pregado pelos demais apóstolos? A resposta é um sonoro não, e isto fica claro examinando as próprias cartas das quais foram tiradas essas declarações.

Paulo apresenta-se aos Romanos como "servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus" (Rm 1:1) e que prega o "evangelho de Deus" (Rm 15:16) e o "evangelho de seu Filho" (Rm 1:9, cf. 15:19; 1Co 9:12; 15:1). Na segunda carta aos Coríntios, imediatamente após dizer "nosso evangelho" (2Co 4:3) ele acentua que se trata "do evangelho da glória de Cristo" (2Co 4:4), o qual também é tanto "o evangelho de Cristo" (2Co 9:13; 10:14) como "o evangelho de Deus" (2Co 11:7). Da mesma forma, quando se dirige aos crentes da Galácia, o apóstolo refere-se ao seu evangelho como sendo o mesmo "evangelho de Cristo" (Gl 1:7). Nesta carta, Paulo usa uma linguagem bastante forte contra os que pregam "outro evangelho" (Gl 1:6), dizendo que o mesmo deve ser anatematizado, mesmo que seja pregado por ele próprio ou "um anjo vindo do céu" (Gl 1:8). Para ele, alguém pregar um outro evangelho é perverter o de Jesus e incorrer em maldição. Certamente ele não pensava isso de si mesmo. À jovem igreja dos tessalonicenses, Paulo recorda que lhes anunciou "o evangelho de Deus" (1Ts 2:2,8-9), ou seja, "o evangelho de Cristo" (1Ts 3:2, cf. 2Ts 1:8). E ao  pastor de Éfeso ele diz que seu evangelho é o próprio "evangelho da glória do Deus bendito" (1Tm 1:11). É evidente que Paulo usa "meu/nosso evangelho" de forma intercambiável com "evangelho de Deus/Cristo".

Se ele não está dizendo que prega um evangelho diferente daquele de Jesus, por que usa essas expressões? O que ele está dizendo aos seus leitores é que ele e seus companheiros foram "aprovados por Deus, a ponto de nos confiar ele o evangelho, assim falamos" (1Ts 2:4), que "do evangelho que ouvistes e que foi pregado a toda criatura debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, me tornei ministro" (Cl 1:23), "do qual fui encarregado" (1Tm 1:11). Tendo sido pessoalmente enviado por Cristo "para pregar o evangelho" (1Co 1:17) e tudo fazendo "por causa do evangelho, com o fim de me tornar cooperador com ele" (1Co 9:23), podia dizer que se tratava do seu evangelho, sem  significar que se tratava de um evangelho diferente do evangelho de Jesus Cristo.

Portanto, o ataque dos inimigos do evangelho não tem o apoio que eles esperam encontrar nas cartas do apóstolo dos gentios.

Soli Deo Gloria

A Interpretação das Escrituras

A verdadeira interpretação da Escritura. O Apóstolo São Pedro disse que as Escrituras Sagradas não são de interpretação particular (II Ped 1.20). Assim não aprovamos quaisquer interpretações; pelo que nem reconhecemos como a verdadeira ou genuína interpretação das Escrituras a que se chama simplesmente a opinião da Igreja Romana, isto é, a que os defensores da Igreja Romana claramente sustentam que deve ser imposta à aceitação de todos. Mas reconhecemos como ortodoxa e genuína a interpretação da Escritura que é retirada das próprias Escrituras segundo o gênio da língua em que elas foram escritas, segundo as circunstâncias em que foram registradas, e pela comparação de muitíssimas passagens semelhantes e diferentes, e que concorda com a regra de fé e amor, e mais contribui para a glória e a salvação dos homens.

Interpretação dos santos padres. Por isso, não desprezamos as interpretações dos santos padres gregos e latinos, nem rejeitamos as suas discussões e os seus tratados sobre assuntos sagrados, sempre que concordem com as Escrituras; mas respeitosamente divergimos deles, quando neles encontramos coisas estranhas às Escrituras ou contrárias a elas. E não julgamos fazer-lhes qualquer injustiça nesta questão, visto que todos eles, unanimemente, não procuram igualar seus escritos com as Escrituras Canônicas, mas nos mandam verificar até onde eles concordam com elas ou delas discordam, aceitando o que está de acordo com elas e rejeitando o que está em desacordo.

Concílios. Nessa mesma ordem colocam-se também as definições e cânones dos concílios.

Por esse motivo, nas controvérsias religiosas não aceitamos como imposição as simples opiniões dos Santos Padres ou os decretos dos concílios; muito menos, os costumes herdados ou, até, o fato de ser uma opinião partilhada por uma multidão ou consagrada por um longo tempo. Quem é o juiz? Portanto, em questão de fé, não admitimos juiz algum, a não ser o próprio Deus, que, pelas Santas Escrituras, proclama o que é verdadeiro, o que é falso, o que deve ser seguido ou o que deve ser evitado. Assim, apoiamo-nos exclusivamente nos julgamentos de homens espirituais, por eles tomados à Palavra de Deus. Jeremias e outros profetas condenaram severamente os concílios de sacerdotes estabelecidos contra a lei de Deus; e nos advertiram diligentemente que não ouvíssemos os nossos pais, nem trilhássemos os seus caminhos, porque eles, andando segundo suas próprias invenções se desviaram da lei de Deus.