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A presença divina na pregação

A crença resoluta de Calvino na inspiração bíblica o levou a insistir que quando a Palavra é pregada, o próprio Deus está, de fato, presente. Ele acreditava que através da exposição da Palavra escrita de Deus, acontece uma manifestação única da sua presença em poder sobrenatural. “Onde quer que seja pregado o evangelho,” declarou Calvino, “é como se o próprio Deus viesse para o meio de nós”. Ele acrescentou:
É certo que se vamos à igreja, não ouviremos apenas um homem mortal falando, mas sentiremos que Deus (por meio de seu poder secreto) está falando à nossa alma; sentiremos que Ele é o professor. Ele nos toca de tal forma, que a voz humana entra em nós e nos favorece de modo que somos revigorados e alimentados por ela. Deus nos chama para si como se estivesse falando-nos por sua própria boca e pudéssemos vê-lo ali, em pessoa.

O Espírito Santo, disse Calvino, está trabalhando ativamente na pregação da Palavra, e este poderoso ministério do Espírito era indispensável para o ministério expositivo de Calvino. Ele afirmava que durante a proclamação pública, “quando o pregador realiza sua incumbência com fidelidade, falando apenas o que Deus coloca em sua boca, o poder do Espírito Santo, o qual o pregador possui dentro de si, une-se à sua voz externa”. De fato, em toda pregação, ele afirmava, deve ser “desempenhada, pelo Espírito Santo, uma obra interior bem-sucedida no momento em que o próprio Espírito emite seu poder sobre os ouvintes, de forma que eles abracem, pela fé, o que está sendo dito”. Calvino acreditava que as pessoas não poderiam ouvir a Deus se o seu Espírito não estivesse trabalhando. Esta verdade o levou a dizer:
Que os pastores enfrentem todas as coisas sem medo, por meio da Palavra de Deus, da qual foram constituídos administradores. Que eles reúnam todo o poder, toda a glória e excelência do mundo a fim de conferir a primazia à divina majestade desta Palavra. Que, por meio dela, comandem a todos, desde a pessoa mais notável até a mais simples. Que edifiquem o corpo de Cristo. Que devastem o reino de Satanás. Que apascentem as ovelhas, matem os lobos, instruam e exortem os rebeldes. Que juntem e separem, que clamem com veemência, se for necessário, mas que façam todas as coisas de acordo com a Palavra de Deus.

Por outro lado, Calvino observou que qualquer ortodoxia por parte do pregador atrai o juízo de Deus. O poder do Espírito, ele disse, “é apagado logo que os doutores em teologia começam a tocar trombetas diante de si ... para exibir sua eloqüência”. Em outras palavras, o Espírito Santo age nos ouvintes por meio de um pregador, só até o ponto em que a Palavra é ensinada com exatidão e clareza.

Não é de se admirar que esta crença na poderosa presença de Deus na pregação tenha influenciado a opinião de Calvino sobre o púlpito de forma tão profunda. Ele escreveu: “A missão de ensinar é confiada aos pastores com nenhum outro propósito senão o de que Deus seja ouvido através da pregação”. Para Calvino, um ministério de pregação capaz de transformar vidas requeria a presença divina em poder.

Steven L. Lawson
In: A arte expositiva de João Calvino

Ofendidos pelo evangelho

Desde então muitos dos seus discípulos tornaram para trás, e já não andavam com ele. (João 6:66)
Geralmente os pregadores costumam julgar o resultado de sua pregação pelo contentamento nos rostos dos irmãos e elogio dos visitantes após sua ministração. A aprovação dos ouvintes é sinal que tudo foi bem. Certo? Errado. A Bíblia nos mostra o contrário.

O Maior dos pregadores, Jesus, experimentou o dissabor de ser abandonado por muitos de seus seguidores após ter proferido duras palavras em Cafarnaum, a tal ponto de escandalizar seus discípulos mais próximos que diziam: “Duro é este discurso; quem o pode ouvir?” (Jo 6:60). A adesão e aprovação inicial do povo ao ministério do Senhor Jesus transformou-se em rejeição e abandono após um único sermão. Muitos o abandonaram e o curioso é que apesar da reação negativa do público, Jesus não mudou o tema dos sermões subsequentes para atrair de volta aos ofendidos.

A ofensa da Palavra de Deus foi o motivo por que muitos dos profetas bíblicos foram perseguidos e mortos (At 7:52).  Homens que não se importaram em falar daquilo que o povo queria ouvir, mas, fielmente proclamaram uma mensagem dura e confrontante. O diácono Estevão, por exemplo, enfrentou a fúria de judeus que se opuseram veementemente à sua pregação. Eles taparam os ouvidos por não suportarem a verdade do Evangelho e como resultado Estevão foi martirizado (At 7:54-58). Os arautos de Deus não receberam aplausos, mas, em maior das vezes, resignação, oposição e perseguição. Mesmo assim podemos afirmar que o ministério deles foi frutuoso, pois gerou insatisfação no coração dos ouvintes.

Fazer do agrado popular termômetro para medir resultado dos sermões não é um critério confiável, muitas vezes o satisfação geral revela apenas que a consciência do ouvinte em nada foi incomodada; John Preston, ministro puritano do século dezessete, ressaltou que “não há um sermão que, sendo ouvido, não nos ponha mais perto do céu ou do inferno”. Portanto, seja qual for o resultado da pregação ela irá gerar grande insatisfação nos receptores, seja com o Deus Justo e Bom, seja com sua própria natureza carnal. Ante a pregação o pecador será movido por grande desagrado, que salvará ou condenará sua alma eternamente.

É preciso entender que só através da santa ofensa da pregação os ofensores (Cl 1:21) poderão ter consciência do quanto tem ofendido o Deus Justo, Santo e Bom, e assim, terão oportunidade de se desviarem do caminho da perdição. Se as pessoas sentem-se ofendidas por sua pregação este é sinal que tudo está indo bem. Continue fiel às Escrituras.

Ericon Fábio
In: UMP da Quarta

As convicções da pregação bíblica

Para realizar a árdua tarefa de serem pregadores da Bíblia, homens e mulheres no ministério precisam estar comprometidos com certas verdades. 

1) A Bíblia é a Palavra de Deus. Como Agostinho o coloca: “Quando a Bíblia fala, Deus fala". Essa e a convicção de que se eu posso realmente entender uma passagem em seu contexto, então o que eu sei é o que Deus quer dizer (eu não penso que muitos evangélicos, assim como muitos liberais, acreditem nisso).

2) Toda a Bíblia é a Palavra de Deus. Não apenas Romanos ou Levítico, não apenas Efésios ou Ester. Não apenas as passagens "quentes", mas também as "frias".

3) A Bíblia é auto-atestatória. Se pessoas podem ser expostas a um entendimento das Escrituras de maneira regular e constante, então elas não precisam de argumentos a respeito da veracidade das Escrituras. Portanto, um ouvinte ou leitor não precisa aderir totalmente à ideia dos dois primeiros compromissos para que Deus possa trabalhar na vida dessa pessoa por meio de sua Palavra.

4) Isso conduta uma abordagem da pregação do tipo: “Assim diz o Senhor”. Não estou me referindo a um método homilético aqui, mas a um desejo de abrir as Escrituras de modo que a autoridade da mensagem se apoie na Bíblia (isso funciona contra o espírito contrário à autoridade de nossa sociedade). 

5) O estudante da Bíblia precisa tentar chegar à intenção do autor bíblico. A primeira questão é: “O que o autor bíblico queria dizer ao leitor da Bíblia? Por quê?”. A teoria da Reação do Leitor adotada por muitos estudiosos literários hoje em dia não funciona no estudo da Bíblia. Posto de maneira simples: “A Bíblia não pode significar o que não significou”.

6) A Bíblia é um livro sobre Deus. Ela não é um livro religioso de conselhos sobre as respostas que precisamos para um casamento feliz, sexo satisfatório, para o trabalho ou para perder peso. Embora as Escrituras reflitam muito a respeito dessas questões, elas são, acima de tudo, sobre quem Deus é e o que Deus pensa e quer. Eu entendo a realidade unicamente se tenho apreciação por quem ele é e o que deseja para sua criação e de sua criação.

7) Nós não “tornamos a Bíblia relevante”, mas apenas mostramos sua relevância. A verdade é tão relevante quanto a água para a sede, e a comida para a fome. A publicidade moderna cria necessidades que de fato não existem para vender a mercadoria.

Haddon Robinson
In: A arte e o ofício da pregação bíblica

E se não vivo o que prego?


"E quanto a você, Lev Nikolayevitch, você prega muito bem, mas faz aquilo que prega?" Esta é a mais natural das perguntas, uma que sempre me é feita. Normalmente, é feita de maneira vitoriosa, como se fosse uma forma de calar minha boca. "Você prega, mas como vive?" E respondo que não prego, que não sou capaz de pregar, ainda que deseje apaixonadamente fazê-lo. Posso pregar apenas através de minhas ações, e minhas ações são vis (...) E respondo que sou culpado, e vil, e digno de receber as críticas por meu fracasso em cumpri-las.

Ao mesmo tempo, sem ter o propósito de me justificar, mas simplesmente visando explicar minha falta de consistência, digo: olhe para minha vida atual e para minha vida passada, e você verá que não tento defendê-las. E verdade que não tenho cumprido a milésima parte deles [os preceitos cristãos], e me envergonho disto, mas deixei de cumpri-los não porque não quis, mas porque fui incapaz de fazê-lo. Ensine-me como não ser enredado pela tentação que me cerca, ajude-me, e eu os cumprirei; mesmo sem ajuda, eu desejo e espero cumpri-los.

Ataque-me — eu mesmo faço isto —, mas ataque a mim, em vez de culpar o caminho que sigo e que indico a todos aqueles que me perguntam onde acho que ele esteja. Se conheço o caminho de casa e ando por ele embriagado, o caminho não deixa de ser certo simplesmente porque ando por ele cambaleante! Se não é o caminho correto, então mostre-me um outro; mas se cambaleio e perco o caminho, você deve me ajudar, deve manter-me na senda da verdade, assim como eu mesmo estou disposto a ajudá-lo. Não me leve por caminhos errados, não fique feliz por eu me perder, não se rejubile dizendo: "Olhe para ele! Disse que estava indo para casa, mas está se arrastando para um pântano!" Não, não se regozije, mas dê-me seu apoio e sua ajuda.

Leon Tolstói
Citado por Philip Yansey em Alma Sobrevivente.

Um encorajamento para todos os que pregam


Longe de ser um professor de Bíblia apático, Calvino explicava as Escrituras de uma maneira viva e revigorante a ponto de estabelecer uma relação com seus ouvintes e causar grande impacto entre eles. Sua comunicação era vívida, memorável, clara, agradável e, às vezes, desafiadora ou até mesmo chocante. Sua pregação podia ter um tom pastoral ou profético. Além disso, a intensidade da concentração de Calvino atraía os ouvintes para suas palavras. Outros podem ter sido mais eloqüentes, entretanto, ninguém foi mais compenetrado e cativante do que ele.

Quando Calvino falava, ele sempre estava atento para a “harmonia que deve existir entre a mensagem e o modo pelo qual ela é expressa”. Em outras palavras, ele acreditava que “o modo” — ou seja, a forma como ele falava — “não deveria corromper a mensagem” — ou seja, aquilo que ele dizia. Ao contrário, o método deveria confirmar a essência da mensagem. O estilo literário de Calvino, sua educação em ciências humanas, sua própria personalidade, sua inteligência, e seu momento único na história — estes e outros fatores transformaram seus sermões em belas obras de arte; em obras-primas da habilidade de interpretação.

Apesar de os pastores de hoje estarem mais preocupados com seu próprio estilo de pregação, Calvino ainda permanece como uma fonte de grande encorajamento. Embora não fosse, por natureza, tão talentoso quanto outros para falar em público, o reformador de Genebra conseguiu marcar sua geração, e até mesmo o mundo, através de seu ministério de pregação. Que os expositores tirem força do exemplo de Calvino, pois, no fim, aspectos intangíveis como uma profunda convicção da verdade e vivacidade concentrada na Palavra ainda triunfarão. 

Steven J. Lawson
A arte expositiva de João Calvino, Editora Fiel

Não abandone a Pregação da Cruz

Abandonar a pregação da cruz é abandonar a bênção sobre a nossa pregação; abandonar a pregação da cruz é ficar estéril pelo resto da vida, pois não teremos aquela “matéria-prima” para colocar nas mãos do Espírito Santo a fim de que Ele retire o peixe para fora da água. 

Muitos têm grandes números em suas igrejas e as dores de cabeça para dar conta deles. Muitos só falam em números em detrimento da Palavra e temos conhecimento de escândalos e mais escândalos existentes no meio deles. Estão sempre “enfiando os mortos por debaixo do tapete” até que o tapete esteja na altura dos seus ombros e baste mover aqueles corpos para que o odor pútrido logo exale. 

Não siga este padrão, seja um pregador da cruz sempre seguro de que as pessoas que se achegam pela fé em Cristo, como Paulo diz, têm uma fé que não repousa em nós, não em nossa eloquência, mas na cruz de Cristo. Assim, estaremos desenvolvendo um corpo de pessoas que realmente amarão a Jesus e que serão dEle; amarão o Cristo que morreu por eles na cruz; pessoas que sempre anelarão estar perto da cruz, onde sempre experimentaram o sangue purificador do Filho de Deus; será sempre, para estas pessoas, um regozijo cantar ao Cordeiro de Deus que morreu sobre a cruz. 

Se elas forem para igrejas onde qualquer coisa é oferecida, menos a cruz de Cristo, voltarão para casa tão famintas como entraram. Nunca serão adoradores de heróis seguindo personalidades por todo lugar, mas estarão presos a Jesus Cristo cantando eternamente: “na cruz sempre me glorio até que minha alma carregada de pecado ache descanso além do rio”. Esta será a canção!

Nós chegaremos àquele dia glorioso onde veremos os que chegaram a Cristo por este meio, com seus olhos fitos no trono onde o Salvador reina, ouvindo a voz renovada cantando: “Digno é o Cordeiro que foi morto”. Ajuntaremo-nos a eles neste cântico, agradecendo a Deus o fato de estarmos fielmente apontados para Ele. 

Preguemos a cruz de Cristo com fé na ação do Espírito Santo.

Conrad Mbewe
In: Vida aos mortos

A pregação da Palavra de Deus é a Palavra de Deus

A pregação da Palavra de Deus é a Palavra de Deus. Portanto, quando esta Palavra de Deus é agora anunciada na Igreja por pregadores legitimamente chamados, cremos que a própria Palavra de Deus é anunciada e recebida pelos fiéis; e que nenhuma outra Palavra de Deus pode ser inventada, ou esperada do céu: e que a própria Palavra anunciada é que deve ser levada em conta e não o ministro que a anuncia, pois, mesmo que este seja mau e pecador, contudo a Palavra de Deus permanece boa e verdadeira.

Nem pensamos que a pregação exterior deve ser considerada infrutífera pelo fato de a instrução na verdadeira religião depender da iluminação interior do Espírito; porque está escrito: “Não ensinará jamais cada um ao seu próximo... porque todos me conhecerão” (Jer 31.34), e “nem o que planta é alguma cousa, nem o que rega, mas Deus que dá o crescimento”, (I Cor 3.7). Pois, ainda que ninguém possa vir a Cristo, se não for levado pelo Pai (cf. João 6.44), se não for interiormente iluminado pelo Espírito Santo, sabemos contudo que é da vontade de Deus que sua palavra seja pregada também externamente. Deus poderia, na verdade, pelo seu Santo Espírito, ou diretamente pelo ministério do anjo, sem o ministério de São Pedro, ter ensinado a Cornélio (cf. At 10.1 ss); não obstante, ele o envia a São Pedro, a respeito de quem o anjo diz: “Ele te dirá o que deves fazer” (cf. At 11.14).

A iluminação interior não elimina a pregação exterior. Aquele que ilumina interiormente dando aos homens o Espírito Santo é o mesmo que deu aos discípulos este mandamento: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16.5). E assim, em Filipos, São Paulo pregou a Palavra externamente a Lídia, vendedora de púrpura; mas o Senhor, internamente, abriu o coração da mulher (At 16.14). E o mesmo São Paulo, numa bela gradação, em Rom 10.17, chega, afinal, a esta conclusão: “E assim, a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo”.

Reconhecemos, entretanto, que Deus pode iluminar quem ele quiser e quando quiser, mesmo sem ministério externo, pois isso está em seu poder; mas aqui falamos da maneira usual de instruir os homens, que nos foi comunicado por Deus, tanto por mandamento como pelo exemplo.

A Palavra da Cruz concede vida aos mortos

Como precisamos de mais fé no Espírito Santo em nossos púlpitos! Para que neles subamos dizendo: “Creio no Espírito Santo; não dependo da minha própria força, não dependo da minha própria inteligência. Se Deus, pelo Seu Espírito, usa as minhas palavras, não importa quão hostis as pessoas sejam, elas se voltarão. Elas se tornarão os maiores defensores desta mensagem”.

Será que temos esta fé? Será que estamos conscientes, enquanto labutamos para o Mestre que Deus, pelo Seu Espírito, ainda outorga vida aos mortos? É importante, enquanto pensamos nesta questão, que percebamos a conexão vital entre essa obra do Espírito e a pregação da cruz. É importante que vejamos isso, pois hoje muito se fala sobre o Espírito Santo e se diz muitas coisas que o Espírito anda fazendo e muitos até se vangloriam de que o Espírito atuou sem a Palavra como se os seres humanos, de alguma forma, estivessem cheios de unção. Como se tivessem um poder especial pairando sobre eles. 

Precisamos ver a relação daquilo que Paulo fala quando diz: “Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado”. A razão para isto é porque é exatamente através da pregação da cruz que o Espírito demonstra Seu poder e salva os perdidos. Foi o que Paulo quis dizer em 1Co 1:17 - “Porque não me enviou Cristo para batizar, mas para pregar o Evangelho”. A ênfase é no pregar da Palavra, no pregar o Evangelho; ele faz uma colocação importante quando diz que prega “não com sabedoria de palavra”, ou seja, não como o mundo estava entendendo “para que se não anule a cruz de Cristo”, para que a Palavra não fosse despida do seu poder. 

Paulo disse para os crentes de Tessalônica: “...porque o nosso Evangelho não chegou até vós tão-somente em palavra, mas sobretudo em poder, no Espírito Santo...” (I Ts 1:5). Era o Evangelho vindo com poder. Não era um poder que simplesmente se “derramava” do apóstolo Paulo, pois ele diz que o Evangelho não havia chegado até eles apenas em palavras, mas em poder. Essa idéia de que se pode ter o Espírito sem a Palavra pode trazer grande reboliço, mas só está fazendo a Igreja mais pobre. O Espírito Santo não haverá de abençoar onde Jesus não é exaltado. Quando a cruz de Cristo é jogada para o lado pode ter certeza de que o Espírito Santo é entristecido completamente.

A mensagem da cruz é a “matéria-prima” que o Espíri-to Santo usa para dar vida aos mortos. A mensagem da cruz que o Espírito usa para fazer os mortos reviverem. “Ele fala, e, ouvindo Sua voz, nova vida os mortos recebem.” Como pode um morto ouvir? Eu não sei! Mas, lembre-se que é a voz do Criador. Jesus disse para Lázaro: “Lázaro, Lázaro, levanta-te!” Lázaro ressuscitou. Deus falou e este mundo veio a existir; Ele falou e o mundo existiu. Como Deus faz só Ele sabe. Mas o fato é que Ele faz, e temos de crer nisso, temos de ir em frente nesta fé. 

Que Deus tome esta mensagem da cruz e a use para dar vida aos mortos.

Conrad Mbewe
In: Vida aos mortos

O que é mais necessário em nossos púlpitos?


Assim, talvez seja melhor perguntarmos o que é mais necessário nos púlpitos evangélicos. Em primeiro lugar, claro, está o evangelho. E nossos púlpitos estarão cheios do evangelho quando estiverem cheios da Bíblia. Precisamos de sermões que exponham o livro das boas novas da obra de Cristo em nosso favor.
Há, contudo, mais uma coisa faltando: coragem. É seguro dizer que a maioria dos membros de igreja na maioria das igrejas evangélicas ouviu pelo menos a boa notícia de que Jesus veio para salvar pecadores. É ainda mais certo que todos que ouvem a pregação da Palavra em uma igreja evangélica estão cientes de que são pecadores. É absolutamente certo, no entanto, que ninguém está suficientemente consciente da profundidade, da abrangência e do poder do seu pecado, nem suficientemente consciente da profundidade, da abrangência e do poder da graça de Deus. Não sabemos nem do que fomos salvos e não para o que fomos salvos.
É por isso que precisamos de coragem. Precisamos de pastores que vão aos púlpitos já tendo visto e usado a Bíblia como um espelho para seus próprios pecados. Precisamos de pastores que, pela graça de Deus, veem seus próprios pecados pelo que eles são, e que pregam confiantes no conhecimento de que seu rebanho não é nem mais nem menos pecador do que ele é. Conhecendo seu pecado, ele prega contra o seu pecado. Ele não se esconde dele, mas o apresenta para que todos vejam. Porque ele está falando para o seu próprio pecado, outros podem ouvi-lo. Porque seus pecados são os mesmos daqueles que estão sob seu cuidado, ele fala para os pecados dos outros.
R. C. Sproul
Tradução: Alex Daher
In: iPródigo

Pregar é pisar em terra santa


Ir ao púlpito é pisar em terra santa. Ter diante de si uma Bíblia aberta exige não tratar as coisas sagradas com leviandade. Ser um porta-voz de Deus requer a máxima preocupação e cuidado no uso e na proclamação da Palavra. As Escrituras advertem: “Meus irmãos, não vos torneis, muitos de vós, mestres, sabendo que havemos de receber maior juízo” (Tg 3.1).

Entretanto, infelizmente vivemos numa geração que tem depreciado o chamado para pregar. A exposição da Palavra está sendo substituída por entretenimento, a pregação, por espetáculos teatrais, a doutrina, por obras dramáticas, e a teologia por manifestações artísticas. A igreja moderna precisa desesperadamente retomar o rumo certo e voltar a um púlpito que seja alicerçado na Bíblia, centrado em Cristo e capaz de transformar vidas. Deus sempre se alegra em honrar sua Palavra — especialmente a pregação de sua Palavra. 

Os períodos mais notáveis da história da igreja — aqueles tempos de propagação das doutrinas reformadas e de grandes avivamentos — têm sido épocas em que homens tementes a Deus tomaram a Palavra inspirada e pregaram-na com ousadia, no poder do Espírito Santo. A igreja imita a atitude do púlpito. Somente um púlpito reformado torna possível uma igreja reformada. Este é o momento em que os pastores precisam ter seus púlpitos novamente marcados pela pregação expositiva, pela clareza doutrinária e pelo senso de reverência em relação às coisas eternas. Esta, na minha opinião, é a maior necessidade do momento.

Steven J. Lawson
In: A arte expositiva de João Calvino

Novo Nascimento e a Obrigação do Pregador


A obra do Espírito de Deus na regeneração da alma dos homens deve ser analisada diligentemente pelos pregadores do evangelho e por todos a quem a Palavra é outorgada.

Quanto aos pregadores, eles têm uma razão peculiar para atentarem a este dever, pois são usados e empregados nesta obra pelo Espírito de Deus, que os utiliza como instrumentos para a realização deste novo nascimento e vida. O apóstolo Paulo se intitulou pai daqueles que foram convertidos a Deus ou regenerados por meio da Palavra de seu ministério: “Porque, ainda que tivésseis milhares de preceptores em Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais; pois eu, pelo evangelho, vos gerei em Cristo Jesus” (1 Co 4.15). Ele foi usado no ministério da Palavra para a regeneração daqueles crentes e, portanto, era seu pai espiritual; e somente ele o era, embora mais tarde o trabalho tenha sido levado adiante por outros.

E, se homens são, no evangelho, pais de convertidos a Deus por meio do ministério pessoal deles, não há qualquer vantagem para alguém ter assumido, um dia, esse título se não teve qualquer envolvimento nessa obra, nem no seu sucesso. Assim, falando sobre Onésimo, que foi convertido por ele na prisão, Paulo o chama de seu filho, a quem havia gerado entre algemas (Fm 10). E declarou que isso lhe havia sido prescrito como o principal objetivo de seu ministério, que incluía a comissão de pregar o evangelho (At 26.17-18). Cristo disse-lhe: “Eu te envio, para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus”; essas palavras descrevem a obra que estamos considerando. Essa também é a principal finalidade de nosso ministério.

Certamente, é dever dos ministros compreender, tanto quanto puderem, a obra com a qual estão ocupados, para que não trabalhem no escuro nem combatam de forma incerta, como homens que desferem golpes no ar. O que as Escrituras revelam sobre esta obra, a sua natureza e a maneira como se realiza, suas causas, efeitos, frutos, evidências — tudo isso eles devem analisar diligentemente. Ser espiritualmente habilitado nisso é a principal arma de qualquer um para a obra do ministério. Sem esta habilidade, ele nunca estará apto a manejar bem a Palavra nem a apresentar-se como obreiro que não tem de que se envergonhar. Contudo, é raro imaginarmos com que fúria e perversidade de espírito, com que expressões de zombaria toda esta obra é mal interpretada e exposta ao desprezo.

Dizem a respeito daqueles que exercem esta função que eles “prescrevem longas e entediantes conferências de conversão, para declararem precisos e sutis processos de regeneração, visando encher a cabeça das pessoas com inúmeros medos e escrúpulos supersticiosos sobre os devidos graus da contrição piedosa, e os sintomas de uma humilhação completa”. Se algum erro quanto a essas coisas ou a prescrição de regras sobre a conversão a Deus e a regeneração pudesse ser atribuído a certas pessoas específicas que não são asseguradas pela Palavra da verdade; se tudo isso pudesse ser cobrado de pessoas em particular, não seria errado refletir sobre essas regras e refutá-las. Entretanto, a intenção dessas expressões é evidente, e a reprovação contida nelas é lançada na própria obra de Deus. E devo confessar que acredito na degeneração que se aparta da verdade e do poder do cristianismo, na ignorância das principais doutrinas do evangelho e no desprezo lançado, por meio destas e de expressões semelhantes, sobre a graça de nosso Senhor Jesus Cristo por aqueles que não somente se declaram ministros, e também declaram possuir um nível mais elevado que o dos outros, e que serão tristemente agourentos quanto a toda a situação da igreja reformada entre nós, se não forem reprimidos e corrigidos em tempo. Mas, no presente, o que afirmo sobre este assunto é:

1. O dever indispensável de todos os ministros do evangelho é inteirar-se totalmente com a natureza de seu trabalho, para que possam aquiescer à vontade de Deus e à graça do Espírito em sua realização na alma daqueles a quem ministram a Palavra. Também não podem cumprir seu trabalho e obrigação, de maneira correta, sem conhecimento apropriado dele. Se todos que os escutam nasceram mortos em delitos e pecados, se Deus os destinou para serem instrumentos de regeneração dessas pessoas, é uma loucura, da qual será necessário prestar contas um dia, negligenciar uma constante análise da natureza desta obra e dos meios pelos quais ela é realizada. A ignorância e a negligência quanto a esta necessidade, aliadas à carência de uma experiência do poder desta obra na alma deles é uma grande causa da falta de vida e do ministério não aproveitável entre nós.

2. Por semelhante modo, todos a quem a Palavra é pregada têm o dever de investigá-la. É para estes que o apóstolo fala: “Examinai-vos a vós mesmos se realmente estais na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados” (2 Co 13.5). A preocupação de todo cristão ou do que professa a religião cristã é provar e examinar em si mesmo a obra que o Espírito de Deus efetuou em seu coração. Ninguém o impedirá de fazer isso, exceto aqueles que desejam enganá-los e levá-los à perdição.

a) A doutrina da obra de pregação nos foi revelada e ensinada: “As coisas encobertas pertencem ao Senhor, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei” (Dt 29.29). Não falamos em investigar ou informar-nos, com curiosidade, sobre as coisas ocultas, ou secretas, ou as ações encobertas do Espírito Santo. Falamos apenas sobre um esforço correto para pesquisar e compreender o ensino concernente a esta obra, tendo em vista esta finalidade: que possamos entendê-la.

b) É muito importante para todos os nossos deveres e confortos que tenhamos um entendimento apropriado da natureza da obra de pregação e de nosso próprio interesse nela. A análise de ambas essas coisas não pode ser negligenciada sem a maior insensatez; a isso podemos acrescentar:

c) O perigo de que os homens sejam enganados quanto ao assunto da regeneração, ou seja, a base sobre a qual se firmam e dependem o seu estado e condição eternos. É certo que, no mundo, muitos se enganam neste assunto; evidentemente, vivem num destes erros perniciosos: a) que os homens vão para o céu ou que podem “entrar no reino de Deus” sem nascer de novo, o que é contrário ao que nosso Salvador disse (Jo 3.5). b) Outro erro é o pensamento de que os homens podem nascer de novo e continuarem vivendo no pecado, mas isso contradiz 1 João 3.9.

John Owen

A pregação triunfalista e a fiel


Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento. Porque nós somos para com Deus o bom perfume de Cristo, tanto nos que são salvos como nos que se perdem. Para com estes, cheiro de morte para morte; para com aqueles, aroma de vida para vida. Quem, porém, é suficiente para estas coisas? Porque nós não estamos, como tantos outros, mercadejando a palavra de Deus; antes, em Cristo é que falamos na presença de Deus, com sinceridade e da parte do próprio Deus. 2Co 2:14-17

Indo direito ao ponto, a pregação moderna é triunfalista e falsa. Triunfalista por estar contaminada e comprometida com o chamado evangelho da prosperidade. Falsa por estar divorciada do puro evangelho, o evangelho da glória de Deus. Da pouca pregação que há nas igrejas, a maior parte é diluída para agradar o paladar dos que não suportam a sã doutrina e poluída com filosofias humanistas, para atender a interesses monetários dos profetas da confissão positiva.

E os tais não são poucos, pois Paulo se referiu aos "tantos outros" que estavam "mercadejando a Palavra de Deus". Se em seus dias era assim, nos nossos a proporção de mascates da fé parece ter aumentado, cumprindo-se o alerta de que viria um "tempo em que não sofrerão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências" (2Tm 4:3). Hoje, a sã doutrina não apenas é negligenciada, mas acusada de ser causa de divisão na igreja. Por isso rareiam os que firmam posição ao lado da verdade e pululam os que buscam popularidade e ganho fácil junto aos que preferem uma mensagem conforme às suas concupiscências.

Tais pregadores estão “mercadejando a Palavra de Deus”. Mercadejar refere-se a vendedores ambulantes, que percorriam ruas e cidades oferecendo suas mercadorias. Eles não tinham escrúpulos em adulterar seus produtos para lucrar mais, por isso o termo tanto significa comercializar como falsificar. Apropriadamente, a ARC os chama de "falsificadores da palavra de Deus”. O que a Bíblia está dizendo é que tais pregadores não apenas falsificam a Escritura, mas o fazem de forma deliberada com o sórdido objetivo de obter lucro para si. São comerciantes da Palavra de Deus, e comerciantes desonestos.

É o caso quando usam a declaração "graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo" (2Co 2:14) para afirmar que Deus faz o crente triunfar "sempre" (em todo o tempo, constantemente) e "em todo lugar". Pois não é isso que Paulo está ensinando. Pelo contrário, ele refere-se ao desfile em triunfo que um general romano fazia ao retornar vitorioso de uma batalha, trazendo despojos e cativos. Ele desfilava pela cidade, seguido pelos prisioneiros, enquanto o povo o aclamava e queimava incenso. Para os prisioneiros que seriam poupados e serviriam como escravos, o perfume era agradável, pois significava a vida, mas para os que estavam destinados à execução, era um cheiro de morte. Paulo se incluía entre os primeiros, colocando-se como um escravo voluntário do Conquistador Jesus.

Assim, mesmo aparentando estar frustrado com os resultados da sua pregação em Trôade, ele diz "graças sejam dadas a Deus", pois sendo um escravo conquistado e poupado da morte por Jesus, reconhecia o Seu direito de o levar num desfile triunfal por onde quisesse. Mas o triunfo, reitere-se, é de Jesus e não do escravo, que se contenta em ser "para com Deus o bom perfume de Cristo, tanto nos que são salvos como nos que se perdem", pois o Senhor, "por meio de nós, manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento". E isso se dá pela pregação fiel.

Esse tipo de pregação fiel apresenta algumas características que a distingue da pregação triunfalista. Começa com o reconhecimento da posição do pregador como escravo conquistado e conduzido numa procissão triunfal, como vimos. Ele não prega onde quer ou quando quer, mas onde o seu Senhor o levar. E reconhece a própria incapacidade de responder à altura de seu chamado, dizendo: "quem, porém, é suficiente para estas coisas?". Reconhece também que a fonte de sua mensagem não é ele próprio, nem os engodos dos profetas da prosperidade, pois fala "da parte do próprio Deus". Sendo a mensagem de Deus, ele a prega ciente da supervisão divina, prega "na presença de Deus". E pregando na presença de Deus, não lhe resta outro modo de pregar que não seja "em sinceridade".

O pregador fiel não tem dúvidas quanto aos resultados de seu ministério. Sabe que a Palavra não volta vazia, antes cumpre o que Deus determinou. Nos eleitos, produzirá fé salvadora, como “aroma de vida para vida”. Mas para os réprobos, a mesma pregação produz mais endurecimento, como um “cheiro de morte para morte”. De uma forma ou de outra, Deus é glorificado e o pregador regozija-se nisso. Logo, o pregador fiel não se ilude quanto à levar multidões à fé, nem se aflige se os resultados parecem poucos, pois não se desespera sabendo que nenhum eleito deixará de ouvir e crer no Senhor. E que os que não derem crédito à pregação e forem após os vendilhões de um evangelho corrompido é porque foram entregues à operação do erro, por não aceitarem a verdade.

Soli Deo Gloria

A apresentação do evangelho é de graça

A apresentação do Evangelho para a conversão dos pecadores é absolutamente de graça, não requer como algo necessário nenhuma antecipada qualidade ou preparação. Os terrores da Lei, ou um ministério da Lei não é necessário, senão para uma alma desnuda, como pecador e sem Deus; para receber a Cristo, como Cristo, como crucificado, morto, sepultado e ressuscitado, sendo feito um Príncipe e Salvador para os pecadores.

Artigo 25
Primeira Confissão Londrina, 1642/44


Pregação fútil e hipócrita


Se alguém ensina uma doutrina diferente (1 Tm 6.3,4). A palavra no grego é um verbo composto e pode ser traduzido: "ensinar outras coisas". Mas não há dúvida sobre o seu significado; o apóstolo está condenando todos os que não aceitam esse tipo de ensino, mesmo que não se oponham aberta e irrestritamente à sã doutrina. E possível não professar um erro ímpio e público, e no entanto corromper a doutrina da piedade através de sofismas ostentosos. Porque, quando não há progresso ou edificação procedente de algum ensino, o afastamento da instituição de Cristo já está concretizado. Mas ainda que Paulo não esteja falando dos confessos originadores de doutrinas ímpias, e, sim, acerca de mestres fúteis e destituídos de religião, que do egoísmo ou avareza deformam a simples e genuína doutrina da piedade, não obstante percebemos quão aguda e veementemente ele os ataca.

E não é de estranhar, pois é quase impossível exagerar o volume de prejuízo causado pela pregação hipócrita, cujo único alvo é a ostentação e o espetáculo vazio de conteúdo. Torna-se, porém, ainda mais evidente, à luz do que segue, a quem precisamente ele está responsabilizando aqui. Pois a próxima cláusula - e não consente com as sãs palavras - é tencionada como uma descrição de homens desse tipo, desviados por tola curiosidade, comumente desprezam tudo o que é benéfico e sólido e se entregam a excentricidades extravagantes, à semelhança de cavalos obstinados. E o que é isso senão a rejeição das sãs palavras de Cristo? São chamadas sãs em virtude de seu efeito de conferir-nos solidez, ou porque são qualificadas para promover a solidez.

E com a doutrina da piedade tem o mesmo sentido. Pois ela só será consistente com a piedade se nos estabelecer no temor e no culto divino, se edificar nossa fé, se nos exercitar na paciência e na humildade e em todos os deveres do amor. Portanto, aquele que não tenta ensinar com o intuito de beneficiar, não pode ensinar corretamente; por mais que faça boa apresentação, a doutrinação não será sã, a menos que cuide para que seja proveitosa a seus ouvintes. Paulo acusa a esses infrutíferos mestres, primeiro de insensatez e de fútil orgulho. Em segundo lugar, visto que o melhor castigo para os interesseiros é condenar todas as coisas nas quais, em sua ignorância, se deleitam, o apóstolo diz que eles nada sabem, embora estejam inchados com argumentos inúmeros e sutis. Não têm nada sólido senão só vácuo. Ao mesmo tempo, o apóstolo adverte a todos os piedosos a não se permitirem que se desviem por esse gênero de exibição fútil, mas que, ao contrário, permaneçam firmes na simplicidade do evangelho.


João Calvino

Pregação das doutrinas da graça

Podemos revigorar nossa fé e renovar nossa coragem com a reflexão de que o poder divino tem sempre acompanhado a pregação da doutrina, quando feita no verdadeiro espírito de pregação. Grandes reavivamentos têm resultado da heroica pregação das doutrinas da graça - predestinação, eleição, e toda aquela elevada cadeia montanhosa de doutrinas, sobre as quais Jeová se assenta entronizado, soberano em graça, bem como em todas as outras coisas.

Deus honra a pregação que honra a Ele. Existe muita pregação aguada hoje em dia, tentando induzir os pecadores a uma trégua com seu Criador - "Parem de pecar e venham para a igreja". Mas a situação não requer uma trégua, e, sim, uma rendição. Vamos trazer a artilharia pesada do céu e trovejar contra esta nossa época presunçosa, como fizeram Whitefield, Edwards, Spurgeon e Paulo, e haverá muitos mortos pelo Senhor, ressuscitando para andarem em novidade de vida.

J. B. Gambrell
In: Baptist Principles Reset

Pregando a Cristo


A igreja do século XXI enfrenta muitas crises. Uma das mais sérias é a crise de pregação. Filosofias de pregação amplamente diversas competem por aceitação no clero contemporâneo. Alguns veem o sermão como um discurso informal; outros, como um estímulo para saúde psicológica; outros, como um comentário sobre política contemporânea. Mas alguns ainda veem a exposição da Escritura Sagrada como um ingrediente necessário ao ofício de pregar.

À luz desses pontos de vista, sempre é proveitoso ir ao Novo Testamento para procurar ou determinar o método e a mensagem da pregação apostólica apresentados no relato bíblico.

Em primeira instância, temos de distinguir entre dois tipos de pregação. A primeira tem sido chamada kerygma; a segunda, didache. Esta distinção se refere à diferença entre proclamação (kerygma) e ensino ou instrução (didache).

Parece que a estratégia da igreja apostólica era ganhar convertidos por meio da proclamação do evangelho. Uma vez que as pessoas respondiam ao evangelho, eram batizadas e recebidas na igreja visível. Elas se colocavam sob uma exposição regular e sistemática do ensino do apóstolos, por meio de pregação regular (homilias) e em grupos específicos de instrução catequética.

Na evangelização inicial da comunidade gentílica, os apóstolos não entraram em grandes detalhes sobre a história redentora no Antigo Testamento. Tal conhecimento era pressuposto entre os ouvintes judeus, mas não era argumentado entre os gentios. No entanto, mesmo para os ouvintes judeus, a ênfase central da pregação evangelística estava no anúncio de que o Messias já viera e inaugurara o reino de Deus.

Se tomássemos tempo para examinar os sermões dos apóstolos registrados no livro de Atos dos Apóstolos, veríamos neles uma estrutura comum e familiar. Nesta análise, podemos discernir akerygma apostólica, a proclamação básica do evangelho. Nestakerygma, o foco da pregação era a pessoa e a obra de Jesus. O próprio evangelho era chamado o evangelho de Jesus Cristo. O evangelho é sobre Jesus. Envolve a proclamação e a declaração do que Cristo realizou em sua vida, em sua morte e em sua ressurreição. Depois de serem pregados os detalhes da morte, da ressurreição e da ascensão de Jesus para a direita do Pai, os apóstolos chamavam as pessoas a se convertem a Cristo - a se arrependerem de seus pecados e receberem a Cristo, pela fé.

Quando procuramos inferir destes exemplos como a igreja apostólica realizou a evangelização, temos de perguntar: o que é apropriado para transferirmos os princípios da pregação apostólica para a igreja contemporânea? Algumas igrejas acreditam que é imprescindível o pastor pregar o evangelho ou comunicar a kerygma em todo sermão que ele pregar. Essa opinião vê a ênfase da pregação no domingo de manhã como uma ênfase de evangelização, de proclamação do evangelho. Hoje, muitos pregadores dizem que estão pregando o evangelho com regularidade, quando em alguns casos nunca pregaram o evangelho, de modo algum. O que eles chamam de evangelho não é a mensagem a respeito da pessoa e da obra de Cristo e de como sua obra consumada e seus benefícios podem ser apropriados pela pessoa, por meio da fé. Em vez disso, o evangelho de Cristo é substituído por promessas terapêuticas de uma vida de propósitos ou de ter realização pessoal por vir a Cristo. Em mensagens como essas, o foco está em nós, e não em Jesus.

Por outro lado, examinando o padrão de adoração da igreja primitiva, vemos que a assembleia semanal dos santos envolvia reunirem-se para adoração, comunhão, oração, celebração da Ceia do Senhor e dedicação ao ensino dos apóstolos. Se estivéssemos lá, veríamos que a pregação apostólica abrangia toda a história redentora e os principais assuntos da revelação divina, não se restringindo apenas à kerygmaevangelística.

Portanto, a kerygma é a proclamação essencial da vida, morte, ressurreição, ascensão e governo de Jesus Cristo, bem como uma chamada à conversão e ao arrependimento. É esta kerygma que o Novo Testamento indica ser o poder de Deus para a salvação (Rm 1.16). Não pode haver nenhum substituto aceitável para ela. Quando a igreja perde sua kerygma, ela perde sua identidade.

R. C. Sproul
Traduzido por: Francisco Wellington Ferreira
Copyright © R. C. Sproul / Tabletalk Magazine
Copyright © Editora Fiel 2012

Deus odeia você!


Pregar ou evangelizar? O caso de 2Tm 4:2


A oração é imperativa: prega a palavra! E segundo a gramática, o imperativo é usado para indicar uma ordem, pedido ou exortação. Não há dúvida alguma de que essa é uma ordem de Paulo, e pesquisar o significado de “pregar a palavra” no contexto bíblico deveria ser nossa primeira preocupação para saber como responder à sua ordem. Será que “pregar a palavra” teria o mesmo significado de hoje, ou estaríamos agindo de uma maneira completamente diferente do que foi ordenado?

É comum utilizarmos a expressão pregar a palavra como sinônimo de evangelizar.
— Hoje tive a oportunidade de pregar a palavra ao meu vizinho...
— Fui convidado por meu irmão para pregar a palavra a seus amigos de trabalho...

Podemos até dizer que uma exposição bíblica doutrinária do pastor dirigida aos membros foi uma ótima pregação (substantivo), palavra ou sermão; mas dificilmente vejo o emprego da expressão pregar a palavra aos membros da igreja como referência a doutrinamento.
— Hoje, meu sermão será sobre mordomia.
— Durante o congresso de pastores, tive a oportunidade de trazer uma palavra sobre liderança nos moldes de Cristo.
— O irmão seminarista poderia preparar uma palavra sobre serviço para o encontro de diáconos da próxima semana?

É estranho dizer que um pastor pregou a palavra a outros pastores. O objeto indireto do verbo pregar parece estar invariavelmente impregnado pela ideia de ser alguém ainda não convertido, ou no mínimo desviado. Mesmo sem diferença alguma no significado das palavraspregação e pregar, não sei por que fazemos essa distinção entre elas, que são apenas diferentes em classe: uma é substantiva, e a outra, verbo. E acredito que, pelo mesmo motivo inexplicável, algumas pessoas são levadas a atribuir o significado de evangelização à ordem de Paulo para pregar a palavra.


André R. Fonseca

A pregação deve ser honesta, clara e fácil de entender

Antes, renunciamos aos procedimentos secretos e vergonhosos; não usamos de engano, nem torcemos a palavra de Deus. Ao contrário, mediante a clara exposição da verdade, recomendamo-nos à consciência de todos, diante de Deus. (2 Co 4: 2 – NVI)

O motivo, a mensagem e o método de pregação nunca deveriam estar envoltos em mistério. Existem aqueles que igualam complexidade e ambiguidade à profundidade. Pregar é dizer às pessoas tudo o que Deus tem revelado na fé cristã, ou seja, na Bíblia. E nada sobre isso tem necessidade de ser confuso. Como Paulo lembra aos Coríntios, “pois nada lhes escrevemos que vocês não sejam capazes de ler ou entender” (1.13).

Sem dúvida, Pedro observa que algumas coisas nas cartas de Paulo são difíceis de entender, mas ele diz “algumas coisas”, não a maioria ou todas as coisas, e ele diz “difíceis de entender”, e não impossíveis de entender. Ele escreve que pessoas “ignorantes e inconstantes” as distorcem para a sua própria destruição. Visto que os cristãos não devem ser nem ignorantes e nem inconstantes, e visto que eles receberam o mesmo Espírito Santo que os apóstolos receberam, é possível para o crente, pelo menos em princípio, captar tudo o que a Escritura ensina. E não há razão pela qual a nossa pregação devesse obscurecer a clara verdade da divina revelação.

A verdadeira pregação cristã, portanto, deve ser honesta, clara e fácil de entender. Esse é o fundamento de qualquer teoria homilética. E por essa concepção de pregação, todo crente deveria ser capaz de comunicar o Evangelho aos seus vizinhos. Existem, sem dúvida, táticas que poderiam manipular a audiência ou utilizar das personalidades ou experiências dos ouvintes para que se possa ganhar influência sobre eles. Mas uma vez que haja qualquer elemento de engano, todo o exercício não mais funciona em direção à sua meta apropriada.

Vincent Cheung
Traduzido por Claudino Batista Marra

Ministérios opostos ou complementares?

Há algo que vem me intrigando ao longo destes anos. Ao observar vários ministérios com um carisma atuante, especialmente no que se refere à cura e expulsão de demônios, noto que estes não demonstram profundidade no conhecimento e no ensino da Palavra. As mensagens que expõem são sempre as mesmas e em torno da prática de seu próprio ministério, cuja ênfase é a salvação e não raramente inclui o dinheiro como um assunto central. Na mesma proporção, os que expõem a palavra demonstrando deter um conteúdo profundo são, por vezes, vazios quanto a agir em favor de cura de enfermidades e de expulsão de demônios.

Sei que devo aceitar de antemão que o Espírito Santo distribui de maneira diferente seus dons, conforme lhe apraz e, evidentemente, não seria benéfico ao corpo que uma só pessoa acumulasse todos os dons. Daí a necessidade de os ministérios agirem de maneira complementar. No entanto ambos caminham com uma atitude de menosprezo ao outro e agem como se se bastassem a si mesmos. Por não compreenderem a falta que têm um do outro, evidencia-se o prejuízo dessa caminhada dicotômica, pois os praticantes do ministério de cura e libertação estão, de uma maneira geral, resvalando em exageros, apelando ao sincretismo religioso brasileiro, em detrimento do embasamento bíblico. Já aqueles que exercem o “ministério da Palavra” tornam-se tão acadêmicos que a fé parece ser absolutamente teórica, alimentando-se apenas de discursos (perfeitamente alicerçados na Bíblia), fazendo parecer que o Reino de Deus é algo dissociado dos eventos terrenos.

Não bastasse o desprezo de um pelo outro, não são raras as vezes em que se digladiam em acusações mútuas e públicas, criticando, de um lado, o show e, de outro, o discurso vazio, sem qualquer contribuição para o Reino de Deus, além de lançar ainda mais confusão entre os não convertidos.

Minhas reservas aumentam na medida em que assisto na televisão aos espetáculos de cura e libertação, mas não ouso cerrar fileira com os críticos, por uma simples razão: não possuo uma alternativa para resolver os problemas daqueles pobres angustiados que, depois de muito peregrinarem em busca de uma solução, encontram no sobrenatural um alívio para suas aflições e, pelo que me parece, de forma satisfatória a eles. Imagino o que deve significar alguém se livrar de um demônio que por anos a fio se apossou de seu corpo. Em minha perplexidade, não poucas vezes senti-me tentado a buscar explicação teológica na psicologia ou parapsicologia para aquilo que eles chamam de fenômenos. Afinal não há como negar que os mesmos ministros que são usados para operar sinais e maravilhas também cometem desvios grosseiros à sã doutrina.

Fico embevecido quando leio ou ouço pessoas, igualmente cheias do Espírito Santo, discorrerem sobre o propósito eterno de Deus, apresentando sua atuação na história e conduzindo a explanação com segurança, tornando compreensível o papel que nos cabe cumprir em dado momento. Se o assunto é comunhão com Deus, as palavras ficam ecoando em meu coração e me acompanham aonde quer que eu esteja. Mas, de repente, encontro, como ocorreu com Pedro e João na porta do Templo chamada Formosa, alguém que necessite da manifestação do Reino de Deus não apenas em palavras, mas também em poder; a frustração, então, toma conta, e fico perguntando a Deus: até quando sofreremos?

Quando João Batista mandou perguntar a Jesus se era ele mesmo que haveria de vir ou se deveria esperar outro, Jesus respondeu que os doentes eram curados, demônios expulsos e o evangelho pregado. Tanto em Jesus como nos apóstolos havia uma integralidade entre o ministério da Palavra e a cura e expulsão de demônios. Não se tratava de escolher entre isto ou aquilo, mas de um e outro juntos: pregação e sinais, andando de mãos dadas.

Não há dúvidas de que o ministério da palavra precisa, novamente, andar junto com o de cura e libertação. Isso tanto evitará desvios aos que praticam a cura e a libertação como também fará com que o ensino da palavra deixe de ser insosso. Mas, para isso acontecer, será necessária uma dose de humildade, sabendo que a teologia não explica tudo e que, ao mesmo tempo, se não houver visão, o poder se corrompe.

O desprezo e o combate de um ao outro só tem exacerbado ainda mais as deficiências e os erros. Alguém precisa dar o primeiro passo ao encontro do outro. Isso será mais proveitoso do que tentarmos estigmatizar a ênfase oposta, com atitudes como proibir alguém de atuar no ministério porque não anda conosco ou porque não pensa como nós. Que maravilhoso seria ver os cristãos realmente sentindo necessidade uns dos outros e tendo a oportunidade de usar dons tão diferentes, mas tão importantes, para se complementarem e não para competirem! Seria demais sonhar e orar para isso acontecer?

Pedro Arruda