Carta de John Newton sobre a eleição

Você tem objeções à doutrina da eleição. Você deve, porém, concordar comigo que a Escritura fala dela, e em termos muito fortes e expressivos, especialmente o Paulo. Eu tenho encontrado pessoas sinceras que me disseram que não suportam ler o capítulo 9 de Romanos, mas sempre passam por cima, de modo que seus preconceitos contra eleição os prejudica no tocante uma parte da Escritura. Mas por que fazer isso, a menos que essa doutrina tão temida seja mantida tão claramente que se deva fugir? 

Mas você vai dizer que alguns escritores e pregadores tentam pôr um sentido mais fácil nas palavras do apóstolo. Vamos julgar então, como eu recentemente propus, a partir da experiência. Admitindo, o que eu tenho certeza que você vai admitir, a depravação total da natureza humana, como podemos explicar a conversão de uma alma para Deus, a não ser que se admita uma eleição da graça? A obra deve começar em algum lugar. Ou o pecador procura o Senhor primeiro, ou o Senhor em primeiro lugar busca o pecador. O primeiro caso é impossível, se por natureza estamos mortos em nossos delitos e pecados, se o deus deste século cegou os olhos e mantém a posse de nossos corações, e se nossas mentes carnais, tão longe de estar dispostas a buscar a Deus, são inimigas dele. 

Deixe-me apelar para você mesmo. Eu acho que você se conhece muito bem e pode dizer que você não procurava nem amava o Senhor em primeiro lugar: talvez você seja consciente que por um tempo, no que dependia de você, resistiu à sua chamada e teria perecido, se ele não tivesse te tornado disposto no dia do seu poder e o salvado a despeito de si mesmo. No seu caso, você reconhece que foi ele que começou com você, e este deve ser o caso com todos os que são chamados, uma vez que a totalidade da raça humana é por natureza inimiga de Deus. 

Logo, deve haver uma eleição, a não ser que TODOS sejam chamados. Mas nos é assegurado que o caminho largo, repleto de grandes multidões, leva à destruição. Por que eu e você não estamos nessa estrada? Éramos melhores do que aqueles que ainda continuam nela? O que nos fez diferentes do que éramos? Graça. O que nos fez diferentes daqueles que são agora como nós éramos anteriormente? Graça. Então esta graça, nos seus próprios termos, deve ser diferenciadora, ou graça distintiva, em outras palavras, graça que elege. 

E supor que Deus faz esta eleição ou escolha apenas no momento de nossa chamada, não é apenas antibíblico, mas contrário aos ditames da razão e às idéias que temos das perfeições divinas, especialmente a onisciência e imutabilidade. Os que acreditam que existe, por natureza, algum poder no homem, em que ele pode se voltar para Deus, podem defender uma eleição condicionada à previsão de fé e obediência. Mas ao defenderem isso, deixam eu e você admirados, pois sabemos que o Senhor nos anteviu (como nós somos) em um estado absolutamente incapaz de crer ou obedecer, a menos que ele se agradasse de operar em nós tanto o querer como o fazer, de acordo com seu bom prazer.

John Newton
In: The works of the John Newton.
Tradução livre por Cinco Solas

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"Se amássemos mais a glória de Deus, se nos importássemos mais com o bem eterno das almas dos homens, não nos recusaríamos a nos engajar em uma controvérsia necessária, quando a verdade do evangelho estivesse em jogo. A ordenança apostólica é clara. Devemos “manter a verdade em amor", não sendo nem desleais no nosso amor, nem sem amor na nossa verdade, mas mantendo os dois em equilíbrio (...) A atividade apropriada aos cristãos professos que discordam uns dos outros não é a de ignorar, nem de esconder, nem mesmo minimizar suas diferenças, mas discuti-las." John Stott

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